A Praça do Congresso é uma destas coisas: Sinal de democracia representativa, com os seus pés e as suas caras sujas, peles e ossos estacionados ali, como se estivessem ausentes, na mais completa pobreza, junto ao símbolo mais faustoso do poder argentino. Ou, então, esse poder democrático encontrou uma estranha forma de dar representatividade a quem nada tem.
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Esta pobreza ostensiva, que está ali porque está, também está ali porque pode. E está ali porque protesta. Noutro sítio, que não fosse este, não seria possível um silêncio tão visível, mascarado de si próprios como se fossem parte das enormes estátuas que os abrigam do sol ou da noite, condenados à invisibilidade dos indigentes. Noutro sítio não poderiam ser tão expressivos. Nem tantos. Nem tão orgulhosamente.
Por toda a Buenos Aires há sempre quem se deite à porta de prédios altos de mais, no sentido transversal da sociedade argentina. A cidade é grande de mais, guarda demasiada urbanidade, para que mãos se estendam. Doze milhões de habitantes, mais que a população de Portugal, cruza-se infinitamente pela imensa Buenos Aires, que é a Grande Buenos Aires, que aglutina as províncias, tornando-as numa só multidão. E, se as multidões se pudem dividir, podia ser também que se pudesse pôr a pergunta que ocasionalmente os argentinos fazem uns aos outros: “Que passa contigo, my hermano?”.
A Praça do Congresso é um um estranho exemplo que o mundo argentino também pode ser pequeno, à volta de uma praça onde os sem-alternativa estão deitados sobre cartões, com sorte colchões, negros do lixo que já eram. Estes sem-alternativa, ainda mais estranho, não gostam de admitir a sua condição de não ter condição que se tenha, que é, pelos vistos, pela qual eles são ali admitidos. Mais que uma contradição, é uma espécie de convivência. Dizem sempre o contrário do que os tem ali sentados, entre pilhas de lixo que armazenam como barricadas. A sua versão, tristemente, é uma inversão.Trabalham, estão ali só a descansar. Estão de passagem. E, garantem, têm para onde ir. Mas o sujo denuncia-os, a roupa esburacada, a pele de noites de relento, os olhares fortes e tímidos, ternos e rudes, como a Argentina, e a urgência absoluta de estar onde está o seu desejo. De vez em quando é indisfarçável. Muito de vez em quando, concretiza-se.
O Palácio do Congresso é de uma imponência grega. ? sua direita tem a sede da Associação das Mães da Praça de Maio, todas órfãs de mais de dez mil alguém que desapareceu, no período da repressão e das torturas e de mortos, eufemismo destes desaparecidos. A associação das Mães da Praça de Maio, provavelmente não tem a culpa. Mas dá a impressão que todo o sentido de um protesto que já nem é acerca de saudades ou de esperança, é só uma vontade defunta de querer justiça. Sempre lá no fundo, procuraram ainda sinais do que perderam.
Desde o ano passado que as “mães” já não marcham. Mas todos os dias, religiosamente todos, manifestam-se um pouco mais abaixo, na Casa Rosada, onde a recém-empossada Cristina Kirchner, aprende agora a fazer, atrás de aparato policial contínuo, dado a casa Rosada ser uma espécie de centro de peregrinação das queixas. Tudo isto, porém, na mais completa tranquilidade de uma rotina, essa mesma que requer aprendizagem. E, para isso, Cristina Kirchner não podia ter melhor professor, doutourado , jubilado nessa arte suprema de olhar através dos homens, vendo as suas paisagens: Néstor Kirchner, seu marido, recém-desempossado presidente, tinha a experiência que só mandatos podem dar. Cristina foi primeira-dama e, sob os lençóis de um peronismo exibicionista e de um nacionalismo exacerbado, fez-se descobrir, no cargo de senadora, ao cimo da rua.
Kirchner, portanto, cede a Kirchner, a presidente que transporta esse sinal tão argentino de parecer o que não é, elegantemente passeando por um país que precisa urgentemente de se ajudar. Não será que esta Argentina é mais europeia do que parece? Ou será mais sul-americana do que pode parecer? Seja como for, ao cimo da rua, na Praça do Congresso, há fome genuína, que só tem forças para estar. E todos os dias assiste ao pomposo desfile dos novos sinais de recuperação económica desta mesma Argentina, ainda debilitada, que continua a sonhar ser uma espécie de Europa. E, ao mesmo tempo, só quer ser a rainha da América do Sul. Ou, às vezes, só quer ser Argentina de novo.
É na Praça do Congresso que mora uma revolução silenciosa. É na Praça do Congresso que mora, a bordo de uma relíquia automóvel – perdoe-se –, vá lá saber-se de que era automóvel da era automóvel, um “camionetaço”, completamente grafitado, como se fosse um muro com rodas. Era onde estava Coco, um velho senhor, criteriosamente penteado, que tem casa naquela camioneta-super-furgão-trailer-tenda-roulotte. É ali que mora, curiosamente junto a um parque de estacionamento pago, coisa que Coco nem em sonhos ponderou fazer. Com esta sua casa percorreu todo o Uruguai, todo o Brasil e grande parte dos Estados Unidos.
Hoje, é a sua antiga vida que o percorre ao longo do corredor estreito da sua camioneta Mercedes. Está ali, diz, por que tem permissão das autoridades. Quais? Bom, isso não virá ao caso, já que a sua casa está ali há mais de dois anos sem que nunca alguém o tivesse perturbado, a destoar da imponência da Praça do Congresso, ou a prestar-lhe uma ferrugenta homenagem. Ri-se. E aproveita para referir que só consegue manter a sua linha esguia porque “bailo o tango”. Coco trabalha nas imediações. Está sempre com vista para a sua camioneta ou para o seu local de trabalho. É vigilante num prédio próximo, onde não lhe dão sítio para dormir. Mesmo que dessem, nunca trocaria o desconforto familiar da sua camioneta por caminha nenhuma encerrada num cúbiculo.
Tem as suas recordações espalhadas por toda a parte como se habitasse uma camioneta-museu, dentro da qual guarda o seu maior tesouro: a escolha inalienável de partir. Mais livre que isto é impossível para este vizinho próximo do Palácio do Congresso, tão orgulhoso da sua camioneta como de um par de camisas brancas, engomadíssimas e a cheirar impecavelmente a fresco-detergente. Teve família. Hoje não. Tem só a sua camioneta. Na paragem do Congresso.
Luís Pedro Cabral / estacaodocalor.org
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Passeio pela cidade.
A vossa realidade pode sempre cair no risco de se tornar o sonho de alguem. Continuacao de boa viagem e parabens pelo bom trabalho realizado.
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