Dia 3
Diário de viagem

A conselho do nosso taxista, havia que comprar o diário Clarin, um dos jornais com maior tiragem de Buenos Aires, que ao sábado , informou, tem uma página de classificados de se tirar o chapéu. Não era uma página, nem duas, nem dez. Era um autêntico tratado sobre automóveis em segunda-mão, multi-mãos seria mais adequado. Numa primeira análise, não especializada, a nossa escolha ficou limitada aos grandes clássicos da indústria automóvel de Detroit, quando os americanos instalavam nos carros motores de cilindros ilimitados, só compatível aos seus níveis de consumo ou de emissões. Ainda as famosas Kombi, também conhecidas em certos sectores hippie, versão viajante, como “pão de forma” dada a linearidade da sua estética. As Kombi, porém, têm um problema, que um dos mil vendedores de stand nos fez saber, aliás, em boa hora. diarioviagemdia03.jpg Na Argentina, as Kombi geralmente são a gás e a nafta e geralmente têm as bombas de gás por cima do depósito de nafta. “Hombre, que ias pegar fuego”. Posto isto, talvez o melhor fosse apontar baterias para algo que não pudesse fazer de nós “fuego”, o que até para a Patagónia seria inestético. O nosso Clarin era como ouro. Mas, foi cada vez perdendo crédito para as compras de velharias online, trocando mensagens com o Juan, que tinha uma Kombi sem gás, Sebastian, que tinha outra, onde só cabia a enorme botija de gás, até que descobrimos na rua uma verdadeira beleza, apesar de já um tanto ao quanto grisalho, ainda sobressaindo entre utilitários de motores frescos, mas de fôlego limitado, cheios de apetrechos tecnológicos, ABS e airbag, direcção assistida, jantes de liga leve, computador de bordo, MP3 de série e assistência garantida na marca. Nada disso importava agora, que éramos atravessados por esta beldade em ritmo de “cruising”, com um argentino cabeludo envergando uma imitação de Ray Ban, vidro aberto, braço de fora, atirando para o céu carregado, duas ou três aceleradelas másculas, como que desanfiado os nossos olhares à triste realidade, neste momento já na traseira: Ford Falcon, 3000 coupé. Soube mais tarde, modelo de 76. Era isto que nós queríamos Clarin.Passou a ser essa a nossa demanda.

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