Dia 4
Diário de viagem

Sobre um amontoado de folhas do Clarin, secção de usados, o despertar foi de grande ansiedade, ainda claramente sob o efeito Falcon. Bolas assinaladas por cima de tudo quanto era anúncio de Ford Falcon, Falcon Rural, na sua versão country-side, Falcon coupé, na vertente desportiva, Falcon classic, na versão pleonasmo. Os dados estavam lançados nas suas múltiplas vertentes: em papel, nas vendas online, nas caixas postais, nos contactos para os stands da especialidade, na busca desesperada na rua, sempre que viamos um exemplar passar por nós, poderoso, desafiando até os autocarros nos mil cruzamentos rectilíneos da cidade.

Buenos Aires oferece-nos um intenso desfile de automóveis, lançando aos seus ares, outrora buenos, um lençol cinzento de céu que paira pesadamente, como se para isso o sol não bastasse ou o lixo espalhado por toda a parte, à espera que bolivianos com carros de mão de dois andares sobre a sua cabeça, abram os sacos de lixo, fazendo ali a primeira triagem à inexistência de recolha de lixo público. Os sacos, ao solinho, no imenso forno de Buenos Aires no verão, pulverizam de um perfume pútrido as ruas, o ar, o chão por onde se vai arrastando involuntariamente o lixo, garrafas de Quilmes (cerveja local) ou de um exemplar já roxo de um tintol argentino (seriamente recomendável, no seu estado pleno de bem de consumo), rolam para lado nenhum, varrendo de um lado para o outro, o lixo de uns e dos outros, que se reune desordenamente num só, reamontoando-se na mecânica dos diligentes bolivianos.

Este batalhão de bolivianos serve a cidade nas suas tarefas mais sujas, incluindo o fornecimento massificado de roupa de marca contrafeita, coisa que alguns representantes da sucursal portuguesa do sector, trajando negro, estacionados em feiras, com enormes sacolas de fuga rápida ou em formação ordenada à porta dos hospitais, não havia de gostar. Adiante.

Neste preciso momento austral, Buenos Aires sofre calor crónico. E o calor não estava a ajudar na busca do carro: gotas de suor caiam sobre os classificados, destruindo cifras de números telefónicos preciosos, de códigos para caixas postais, com remetente no feliz proprietário de um Falcon, prestes a tornar-se infeliz caso o preço fosse razoável. Infrutíferas, as tentativas do dia. Instalou-se uma certa frustação. Longa. Um desânimo. No conjunto, foi uma coisa de uns cinco segundos. Minutos depois, até porque estávamos estrategicamente junto a Santelmo, verificámos que havia mesa no Desnivel, um restaurante, que é tudo menos isso, cuja carne está para nós como Maradona para a Argentina, ainda que não estando sujeita a períodos de desintoxicação. Para casa. Mais hora, menos hora.

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