Dia 5
Diário de viagem

Na demanda. Era a todos os títulos e mais um, dia decisivo. Na mais conspirativa das teses matinais para o insucesso, nos limites do esotérico, alguém, não digo quem!, chegou mesmo a sugerir metaforicamente que uma conjugação de forças maiores, certamente maiores que o nosso orçamento, se tinham alinhado para que não encontrássemos o caminho de um milagre: Encontrar um stand-auto onde não houvesse riscos de apanharmos o proverbial calote, sem dele darmos conta, como vigarizados que se prezem, se não quando não só já era tarde, como tarde de mais.

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Para esgotar a lista de possibilidades de comprar um Falcon a preço da chuva, coisa que ameaçava, já não sobravam muitas hipóteses. A primeira desfez-se rapidamente logo pela manhã. Ao telefone, o que poupou uma viagem longa de táxi, como são todas. Apenas para informar que alguém já nos tinha ultrapassado na corrida a um Falcon Rural, modelo extra-longo, de hiper-consumo dos finais dos anos setenta. A Rural tem grandes semelhanças com uma qualquer carrinha funerária num filme rodado em New Orleans, junto à cova de Marie Leveaux, rainha das sacerdotizas voodoo, provavelmente a única capaz de interceder por nós no contacto imediato de grau altíssimo que estava para vir:
“STAND AUTOMOTORES LOS AMIGOS”.
O estabelecimento tinha um portão enorme, de metal reflector, a meia-haste, subindo lentamente, descobrindo uma frota tristemente multicolor, que parecia ter sido bombardeada por um canhão de ferrugem. Das profundezas, irrompendo de um cubículo com ar condicionado, eis Alfonso, o vendedor dos infernos. Pança proeminente, como se quisesse explodir das calças apertadas, cinturão chique-vendedor, sob o umbigo, que espreitava pelo botão da camisa, que tinha a casa invadida por botão alheio. Suor abundante. E um sorriso, como que a dizer: “O que é que estes brasileños querem do meu stand?”.

Sabíamos exactamente o que queríamos. Só não sabíamos que queríamos tanto. Ali estava ele, tão à paisana entre as grandes estrelas de Alfonso: Um Renault 21 com apenas 200 mil quilómetros e a pintura remotamente intacta e um Citroen BX, modelo original, ao contrário da pintura. Alfonso apressou-se a esticar o indicador para o carro, explicando com orgulho que mal se ligava a ignição, este animal tecnológico da indústria automóvel francesa punha a hidráulica em marcha levantando a suspensão traseira. “Que marabilha, heh”, exclamou Alfonso.
Nada disso. Era lá mais atrás o nosso ponto de interesse, aliás, o único em todo o estabelecimento. Lá ao fundo, na galeria onde estavam os clássicos, aqui desclassificados para qualquer coisa menor, diga-se, bastante ofensiva para um modelo que podia muito bem ter a idade de Alfonso, não fosse Alfonso muito mais velho. Tratava-se de um modelo de 1980, Falcon clássico. Era cinzento. Não. Talvez um azul leve. Não, não. Era um verde sujo. Bom… Estava sujo. E isso impedia que se visse o carro no seu esplendor, bem como o apreciável conjunto de amolgadelas que habitavam toda a zona compreendida entre os pára-choques traseiros e os frontais, incluindo – e muito - capot e tecto.

Quanto ao interior, o próprio Alfonso quis ser o primeiro a abrir a porta, coisa que não estava fácil, para ligar o poderoso motor adormecido. Primeira tentativa: Nada. Segunda: Nada. Terceira e outro nada. Nada e mais nada. Alfonso não desarmou. “Falta nafta, falta nafta. Gasolina”. Sim, senhor Alfonso, nafta é gasolina, mas um motor que não pega também é um motor que não pega. Depressa desapareceu Alfonso, para reaparecer num flash, naqueles segundos importantes em que qualquer comprador viraria as costas para outro lugar, pelo menos longe daquele. “Donde van, muchachos?”. A lado nenhum, excelentíssimo senhor vendedor, que despejava uma garrafa de plástico com a nafta de ocasião, como tudo naquele stand. Foi com grande expectativa que viomos Alfonso vergar de novo a barriga para entrar a bordo do Falcon, para uma segunda ronda de ignição. E eis o trovejar, a melodia dos cilindros, há tanto tempo calados, ainda em afonia, libertando partículas e uma nuvem espessa de fumo. “Normal”, disse Alfonso, com o seu sorriso de volta. E nós, conquistados, sorrimos de volta. E dissémos que voltaríamos no dia seguinte.

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Comentários

Uma resposta to “Dia 5”

  1. cyberannie on January 6th, 2008 9:13 am

    Il semble que l’achat d’une voiture d’occasion soit en Argentine”le parcours du combattant”. Et pourtant vous avez le choix!!!!!! ceci dit bravo pour le récit humoristique……

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