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Grande dia se avizinhava para os lados da Calle Etados Unidos, Santelmo. Se tudo corresse como era de esperar, havíamos não só de comprar o nosso Falcon como, ainda mais importante, havíamos de conseguir levantar no Cajero (multibanco) o dinheiro suficiente para conseguir pagá-lo ao imperturbável Alfonso. O problema do multibanco em Buenos Aires é que há limites para os levantamentos, sendo que o sistema está desenhado para que os argentinos não tenham acesso fácil ao dinheiro. Apenas se consegue levantar 300 pesos de cada vez. E, de cada vez, é cobrada uma taxa de quatro euros e mais qualquer coisa aos não-argentinos. Não interessa. Quase que apostávamos que, apesar do cedo da hora, Alfonso já devia andar a suar lá para os lados de Los Amigos, a cerca de vinte quilómetros do nosso escritório-casa-dormitório-messe emprestado, caótico por esta altura. Tornava-se cada vez mais claro o impossível que era andar por casa às escuras. Tropeçando numa mochila carregada com roupa, era muito provável que se aterrasse com um olho num microfone, fazendo saltar uma máquina fotográfica, que bateu na câmera de filmar, que fez soltar um cabo USB, provocando a queda de um tripé, que por sua vez aterrou em alguém que estava a dormir, que acordou alarmado e se levantou de repente, tropeçando noutra mochila sobrelotada de roupa, quase caindo, caindo mesmo depois de pôr o pé em cima de um croquete gigante onde está guardado um saco-cama polar, coisa que nem por sombras fazia falta em Buenos Aires. Não vou dizer que isto aconteceu. Mas se, hipoteticamente, no mero plano da suposição, caso fosse possível um conjunto de coincidências com tal magnitude sequencial, era bem possível que alguém – não vou dizer quem! – pudesse não se encontrar com as melhores das disposições, a tentar amparar-se numa piscina de fios e cabos.
Nada, mas nada, podia perturbar a missão Falcon. Como dondocas às compras, era beber cafés – muy restritos, chiquititos, por favor -, no intervalo das sessões de “extraccion” de dinheiro no multibanco, até encher as nossas carteiras da quantia exacta para a operação de aquisição daquela peça do relicário automóvel, sob os auspícios de Alfonso, que nos havia garantido que, com “cash” era uma coisa chave na mão em minutos. Que a legalização do carro era imediata e que sairíamos do stand com um Falcon legalizado e, nunca era demais dizê-lo, pronto para as curvas, desde que os felizes proprietários fossem sempre controlando os níveis de “aceite y água”.
Mal nos viu à entrada do stand, Alfonso fez uma cara triunfante. Via como olhávamos para o Falcon. Sabia que nos tinha sob controlo, como os níveis de “aceite y água”. Languidamente, aproximou-se: “Muchachos, que tal?” Tudo óptimo, Alfonso. “Conseguiran a plata?”. Sim, Alfonso. Senão, não estaria tudo óptimo. Todos para o escritório, que fica no primeiro andar, onde está um velho computador, onde um rapaz que costuma lavar os carros – não era o caso do Falcon -, foi ligar o computador e buscar no “bookmark” o site dos filhos de Alfonso, que são “dobles” no cinema e na televisão. Uma profissão dura, a de um duplo, declarou Alfonso, que tomava daquelas pastilhas para a arritmia. Como a ocasião era solene e o stand é de Los Amigos, “what a hell”, coca para todos. Como? A estas horas, Alfonso? Se fosse antes possível uma garrafinha de água antes do “business”, agradeciamos. Coca cola é que não, por causa daquelas coisas todas que não vão bem ao pequeno-almoço.
Pronto. Alfonso humedeceu as pontas dos dedos e desatou a contar as notas. Feita a recontagem, proceder-se-ia às respectivas formalidades que, como era de suspeitar, tinham trâmites desconhecidos. Alfonso fez chamar Celia, a especialista neste género de burocracia, que pomposamente Alfonso declarou ser a gestora. Celia chegou com a filha, ambas com ares de não lhes apetecer estar exactamente ali num sábado. Celia estava algo agitada. A filha, com seis anos, exibia grande alheamento, com um penduricalho na cabeça, que dançava como flores ao vento.
Celia, isto é rápido, verdad? “Claaaro”. Ora bem, primeiro preencher a declaração de compra e venda, o que efectivamente foi num ápice. Agora, já estavámos habilitados a fazer o seguro do “coche”. E, das profundezas da burocracia, Celia levantou a questão das questões. “Hay um pequeño problema”. Qual problema, Celia? Alfonso, que já tinha colocado o dinheiro num cofre, aproveitou a ocasião para ir lá abaixo fazer uns telefonemas. Pois o problema era o seguinte: É que, embora fosse obrigatório, a verdade é que Alfonso não tinha um documento do antigo proprietário do carro, o chamado documento “08”. Mas tudo havia de resolver-se porque Celia tinha a morada dele e ia imediatamente contactá-lo, para que imediatamente se pudessem entregar os documentos na entidade oficial que os pode renovar e atribuir o respectivo título de propriedade. Então não era assim tão rápido, pois não Celia? Pois não, Alfonso? Pois não, “muchachos”.
Celia, super-eficiente, puxou do telefone. Más notícias: o proprietário já não morava onde morava, morando agora em parte incerta. Nada que Celia não pudesse resolver. Claro, de imediato. Explicou-nos que ia ligar para um sítio especializado em localizar pessoas. E, com sorte, havia de saber imediatamente qual o novo paradeiro do antigo dono do “nosso”, só “nosso” Falcon, matrícula TOI 006, como tal imediatamente baptizado 006. De imediato, Celia ligou. De imediato desligou. De imediato voltou a ligar, de imediato desligou, com mais um leva de más notícias. Celia tinha falado com a mulher, que por acaso, segundo a lei argentina, também tem de assinar o famigerado 08, mas não encontrava o marido, cuja mulher também não tinha a noção exacta onde poderia estar. Em suma: Vida a andar para trás, de regresso à calle Etados Unidos. De táxi, “por supuesto”.
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Un vrai feuilleton!!!!
Porteños en su esplendor!
Fiquei nervuesa! Por supuesto, claro!
E mais?? E o Falcon? Quero saber mais…
É claro que já me conquistaram. Vou voltar…e voltar…e voltar.
Asta la vista,
Joana
Con este Falcon, bien que pueden cantar a lo Manu Chao: “Próxima estación, ESPERANZA” !!!!!
El Falcon era el coche preferido de la policía “undercover”, cuidado!
E começaram os problemas ainda antes de terem o carro na mão… hehehe, por acaso o Alfonso, não seria descendente de portugueses? é que parece hehehe