
Depois da missa, que Celia é muito religiosa, tinha pensado numa solução verdadeiramente milagrosa, percorrendo com a sua reconhecida mestria os subtrâmites processuais da transferência de propriedade automóvel. A solução era esta, segundo Celia: “Um poder!!!” Um poder, Celia? Isso é mais coisa de políticos ou de super-heróis. E, apesar de sermos donos oficiosos do 006, só queríamos ver o 08 preenchido, Celia. Ouviste, Alfonso? “Bueno, bueno”. Faltava ainda dizer que, mesmo que o antigo proprietário assinasse o dito cujo também não seria desta que nos tornaríamos oficialmente proprietários do Falcon que já era nosso. Faltava para isso, mesmo que tudo o resto estivesse concluído, um certificado de residência, o que não era difícil de arranjar, apenas impossível de arranjar a tempo.
Para resumir: Celia, como é isso do poder? O poder, explicou Celia, é uma procuração, que nos confere plenos poderes sobre o carro, perdão, o 006, desde poder viajar com ele por todo o território Mercosul até poder mais tarde vendê-lo, evitando mais perdas de tempo. Fomos dar ao mesmo. O “poder” tinha de ser assinado pelo antigo proprietário e respectiva mulher. E isso fazia lembrar outro problema, que é o facto de ser verão e de meia-Buenos Aires estar a banhos no Mar del Plata, a sul, ou em Punta del Leste, no Uruguai. De referir que são as férias judiciais, que juizes e magistrados estão de férias, assim como a esmagadora maioria dos notários.
Celia tranquilizou-se. Com os documentos que já possuiamos, era possível fazer o seguro do carro. Seguiriamos viagem. E, entretanto, Celia ficou de tratar do “poder” com todo o seu empenho, para que o possa enviar por avião para El Calafate, já a caminho de Ushuaia, com vista para a Antárctida. Que ficássemos descansados, o “poder” irá chegar a El Calafate, quando nós lá estivermos, para que mais tarde possamos seguir viagem pela cordilheira dos Andes com os documentos em dia. Para o território argentino, o “poder” não era necessário. Que solução? Concordar.
De modo que o Falcon não havia de ficar nem mais um minuto no Los Amigos, de Alfonso e companhia. Vinha connosco o nosso 006, que parecia tão carente, pelo menos de nafta. Foi uma pequena viagem de conhecimento mútuo. Familiarização com o sector das mudanças, com as idiossincracias desta viatura tão especial, que ressonava em andamento, denotava algumas dificuldades no arranque e, a meio do trajecto, começou a deitar fumo por baixo do capot. Em termos de qualificação mecânica no grupo, nicles. Encostámos o carro junto a um edifício militar. E em coisa de meia-hora já tínhamos descoberto como abrir o capot do interior do 006.
Só então pudemos desesperar convenientemente. “Que passa muchachos?” Eis que surge um anjo, compleição em V, com camuflado a rigor, não se deixando perturbar nem pelo sol que esturricava, nem pelo motor, que parecia definitivamente esturricado. Este rapaz era mecânico de aviões e também tinha um Falcon, mas em bom estado. Um primeiro diagnóstico: Faltava água no radiador. Um segundo: Faltava água. Um último: Foi por faltar água que o carro quase incendiava. Por isso, já voltava. Ia buscar água. Trouxe água, um líquido refrigerador, oferta para nós, e a sua caixa de ferramentas, para ver quais os danos por termos quebrado um dos dois mandamentos de Alfonso: “Aceite y água”. Sinceramente, não pensámos que o próprio Alfonso não tivesse pensado nisso antes de entregar o carro. O mecânico de aviões suou ali a primeira pequena revisão ao 006. E declarou que, com a devida cautela, era carro para fazer a viagem que nos propunhamos. Neste caso, chegar a casa. E isso foi um sucesso.
De seguida, o carro foi entregue a um mecânico na calle Etados Unidos, cuja especialidade é no sector de bate-chapas. Havia que mudar uma lâmpada, que estava fundida, e arranjar a buzina, que parecia condenada ao silêncio, dado o razoável amontoado de fios eléctricos por baixo do volante. Dani, o mecânico, que já era o segundo a actuar sob o capot do 006, declarou que era bate-chapas, mas que ia dar o seu melhor para que na manhã seguinte pudessemos partir de viagem. Também ia ver se conseguir arranjar o rádio, que funcionava tão bem quanto a buzina. Até amanhã Dani. Não te preocupes com a chapa. Se for possível verificar o motor, já não era mau.
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