Dia 10
Diário de viagem

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O Falcon 006, que carinhosamente tem cognome de “Justicero Scicótico” - não digo porquê! - estava na esquina da Etados Unidos, undercover. Ei-lo, tão sólido, animal em repouso, portas destrancadas em estado crónico, como se tivesse acabado de chegar ao mundo, enferrujado por ele, reflectindo o sol do meio-dia, brilhando como a estrela que é, geração de 80, um topo de gama que anda por aí disfarçado de lata velha. Só os verdadeiros conhecedores o sabem apreciar, só eles podem ver nele o que olhos incautos não sabem. Nisto consiste a classe deste velho devorador de asfalto. É preciso acreditar nos seus três mil de cilindrada, nunca confiando no que diz a contabilidade nebulosa do conta-quilómetros: 93426. Marca a assinalar. Para todos os efeitos, é o nosso quilómetro zero, ponto cardeal da partida, a melhor das incertezas, só possível encontrar na bússola de uma viagem.

Outra das incertezas era como arrumar na mala do 006 tudo o que já mal cabia em casa e mais um pneu que, durante o período de internamento no stand de Alfonso, fora mero elemento decorativo. Pensando bem, nem isso. Sacos esticados de adubo revestiam a mala do Falcon, protegendo-nos de tudo quanto estava um pouco mais abaixo, onde há buracos com vista para o chão, para onde gotejava a água do radiador. Segundo a opinião do nosso gabinete técnico ambulatório e ad-hoc – no qual se inclui, só para recordar, o próprio Alfonso, “expert” em contar notas com uma só mão, enquanto a outra segura o cigarro, Celia, a desbloqueadora de burocracia, Miguel, o nosso mecânico aeronáutico, Dani, electro- bate-chapas multi-talentoso, um hino ao salpico estético da tinta, e nós próprios, triunvirato já perfeitamente sintonizado na forma como abrir o capot. Foi opinião consensual: Se queriamos partir, havia que não atribuir demasiada importância à água pastosa e disforme que se desenhava no asfalto. Não havia nada que nos pudesse travar, nenhum problema se colocaria entre nós e o mapa da Argentina.

Como peças de um puzzle, camada sobre camada, ficou a mala atestada de tudo quanto era possível e mais algumas outras que se julgava impossível ali caber. Para que fique claro, caso ainda não tenha, o Falcon 006 é um veículo cheio de surpresas, mesmo com “aceite y água” à disposição.

Adiante. “Hola, buenos dias, que tal? Sabes la salida para Ruta 3?”, perguntou o co-piloto catalão a um transeunte. “Bueno, é complicado”. Vira à direita, apanha aquele cruzamento, não vires ali, vire só oito quadras à frente, depois “doble” à direita, segue por aquela calle, e não pela outra se não vais enganar-te, tens de tomar o caminho do aeropuerto de Ezeiza, rumo à Ruta 3. “Entendido?”. Claaaaro!!!! E foi sob o sol abrasador do verão austral que Buenos Aires, muito lentamente, foi desaparecendo no nosso retrovisor, aliás, o único, se não contar o retro-interior, que não tem ajustes laterais, apenas uma pequena patilha, com as opções “night and day”, que no entanto só permite ver o que está a fazer lá atrás o “franciú”. No caso, apropriadamente em modo “uma e tal”, hora da partida, quando o radiador já produzia água própria para chá. Nada que não tivesse já acontecido desde que o nosso menino saiu de casa do padrasto, um senhor austero, que não lhe dava nafta, não verificava os seus níveis, não tinha os seus papéis em dia e também não estava muito interessado em perservar aquele modelo geriátrico de colecção.

Grande destreza técnica demonstrou o co-piloto francês, monsieur Pazat, que lá de trás indicou exactamente para onde devia o Falcon encaminhar-se. Só falhámos duas vezes. Dez portagens depois, estavamos finalmente na estrada que nos leva ao aeroporto, para sul da capital Buenos Aires, para sul, igualmente Buenos Aires, onde lentamente Buenos Aires deixa de o ser, descobrindo-se a Argentina de outra paisagem, longa, castanha, imenso prado, onde a carne de vaca ainda é vaca e a estrada é uma mera interrupção de algo incomparavelmente maior.

A 289 quilómetros da capital Buenos Aires, pisca para a direita, para descansar na ciudad Azul. Ainda bem. O pisca da esquerda tinha caído na viagem. O 006 estava de parabéns, mas já era veículo para tomar a terceira dose de água. De “aceite” estava “au point”.

Azul é uma cidade tranquila, suburbana e pessoal. Na calle todos se conhecem, cruzando-se amigavelmente como se passeassem de pantufas entre a cozinha e a sala de jantar, como se estivessem casados uns com os outros, como se fossem todos da família Azul, que já excedeu 40 mil habitantes. Hoje, teriam mais três à mesa para jantar, mais uma tenda para o parque de campismo da cidade, onde fica a única piscina e um lago, cujas margens formam um imenso jardim, povoada de mesas e barbecues de pedra.Respira-se classe-média em Azul, bairros de vivendas ajardinadas a brincar ao chique. Há uma espécie de comunhão, de serenidade, um sentimento omnipresente de plena segurança. E acolhimento. E isto, ao contrário da exibição deliberada de sinais exteriores de riqueza, é genuíno. Não é que a cidade seja assim tão pequena. É só porque não é assim tão grande. É como se fosse um condomínio fechado, ainda na área provincial de Buenos Aires, mas suficientemente distante para não lhe pertencer, assim como não é Patagónia, nem Pampa. É só Azul. E, só, gosta de ser assim.

Depois de montada a tenda com grande profissionalismo, a conselho de um azul seguimos para um restaurante, junto ao maior monumento da cidade, um Cristo, perto da estação gasolineira, onde havia uma prestigiada “parrila” com uma selecção de carnes de se lhe tirar o chapéu. Em múltiplas formas, confirmou-se. E, no rescaldo, eis que o dono do restaurante, Ernesto, quis fazer um desfile de algumas bebidas tradicionais argentinas e de Azul. Primeiro, Fernet, que é italiana, mas argentina de adopção. Que me desculpem os argentinos aficionados, mas nem a soro, ou com soda, se torna tragável. Logo de seguida, licor de limão. Mais licor de limão. Mais um, por favor. Não me trazia outro? Pode ser, mais um. Aceito outro, gracias. Então vá lá, o último. Agora é que é. Agora é mesmo. Não, tem mesmo de ser o último. E foi mesmo o último. Tinha acabado o licor de limão no restaurante. Se calhar, para desenjoar, era melhor beber uma cerveja. E talvez não fosse aconselhável ir de Falcon de regresso ao camping. Mesmo que fosse, não seria possível. O 006, para espanto, tinha-se avariado durante o repouso. Uma parelha policial tentou ajudar-nos no diagnóstico da avaria, mas o máximo que puderam arranjar foi o contacto de um mecânico, especialista em Ford Falcon, Dualde de seu nome.

À noite, fizémos amigos anfitriões, que se encarregaram de nos mostrar como se divertem os azuis na sua cidade, de bar em bar, de Boliche (discoteca) em Boliche, até amanhecer. E, ao amanhecer…

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Comentários

5 respostas to “Dia 10”

  1. cyberannie on January 11th, 2008 6:39 pm

    Bon départ!!!!!

  2. PL on January 11th, 2008 11:48 pm

    E o carro ?
    Pega ou não pega ?!!!

    Céu
    Dora
    PL

    Abraços e bjos !

    Hasta la vitoria final !

  3. PPPKP on January 11th, 2008 11:50 pm

    Pois…

  4. PPPKP on January 11th, 2008 11:51 pm

    Pois ???

    Laurinda das Dores

  5. Ampiko on January 12th, 2008 6:07 pm

    Muchachos, comenzó la aventura en grande estilo,
    el “ferné” es sólo para aficionados ferreños! el licor de limón vino de Italia, pero se toma en todo el mundo.
    El cochazo toi006 se porta bien con aceite y agua, no?
    El texto buenísimo, las fotografias fabulosas, continuem….

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