
Há dias assim. Não estava sol que não estivesse ontem. Desmontando a tenda em silêncio, empilhando de novo a tralha tecnológica que nos acompanha, junto com tralha pessoal. Tínhamos de ir mais para sul, mais para o objectivo Patagónia. Seguindo religiosamente as instruções de Dualde verificámos no carro tudo o que havia para verificar, esquecendo-nos de quase tudo o que havia para esquecer do workshop da tarde anterior. Era muita informação para um dia só. Bebemos um simulacro de café, cortesia do especialista francês que, tal como em grande parte da Argentina, também tentou fazer uma coisa muy restricta. E estávamos de novo na estrada, desconfiados do comportamento algo erróneo do 006, que dava sinais de ser um agente avariado. Ou, então, tivera apenas uma crise de terceira idade.
A dupla franco-catalã não estava para muitas conversas. Durante cerca de cem quilómetros fui eu, o 006 e uma paisagem que de novo mudava, alternando vegetação fertilíssima com fatias áridas de território sem fim, constantemente interrompidas pelo som estereofónico de apneia. Neste trajecto, um enorme prado de vacas e mais vacas, iam de vez em quando aparecendo sinais de uma civilização fumarenta e industrial, arremessando para o ar pinceladas negras, felizmente solitárias, embora preocupantes. Em Azul, que muito bem soube proteger-se das ameaças industriais, embora nem a distância consiga fazer isso, já nos tinham avisado: A indústria petrolífera argentina, eufemismo de multinacional, eufemismo de interesses espanhóis e americanos, começava ali a estender os seus tentáculos. A avisaram-nos também que a sul, mais a sul do destino do dia, Bahia Blanca, a crise energética do sector havia de se fazer notar de forma muito evidente.
Não deixa de ser curioso como é possível que a Argentina , com recursos naturais riquíssimos, precisamente na região que começávamos a atravessar, sofra de um déficite daquilo que tem em abundância. Para a estação de verão, a presidente Cristina Kirchner já fez anunciar medidas de austeridade para apertar ainda mais o cinto já apertado dos argentinos. Vão haver cortes no abastecimento de água, a hora adiantou no verão para obrigar à poupança de luz, o mesmo aconteceu com a iluminação pública na capital e grande Buenos Aires, e a “nafta” será também sujeita a um rigoroso racionamento. Aliás, o executivo de Kirchner, mesmo sabendo que a esmagadora maioria dos argentinos está em período de “vacaciones” e aproveita para viajar para sul, fez saber que as gasolineiras serão obrigadas a não vender mais de 60 pesos (13 euros) por automóvel, noutros casos 80 pesos.
Mais: O Clarín, uma espécie de órgão oficial da nação, deu conta de mais uma medida polémica de Kirchner - cujos efeitos práticos na economia argentina ainda não foram devidamente calculados -, que pretende suspender a exportação de petróleo, para salvaguardar o seu consumo interno, antes que a nação comece a ficar “nerviosa” e à beira da estrada por não ter gasolina.
Atrás do 006, um “monster truck” da camionagem, claramente abastecido, fazia sinal de luzes para uma ultrapassagem, coisa que não era complicada já que, pelos cálculos, não iriamos a mais de 60 quilómetros por hora, e à frente havia uma recta com mais de 50. Não contente com o ruído visual, lançou uma salva de buzinadelas, que certamente se ouviu na Patagónia, ainda distante. No interior do Falcon alguém – não digo quem! -, acordou indisposto. Já chegámos? Sim. Precisamente a meio do caminho. O melhor era talvez parar para uma pausa e mais um projecto de café. Era num instante. A próxima terreóla estava a 70 quilómetros. Uma hora e qualquer coisa.
Lentamente o Falcon seguiu viagem sem demonstrar fragilidades, o que também lentamente nos foi deixando mais confiantes, regressando os termos carinhosos, algumas festinhas no tablier e uns quantos piropos. Caiu a noite nas proximidades de Bahia Blanca, portanto, escura quando chegámos. A avenida principal da cidade era um paraíso da avaria. Lojas e mais lojas e mais lojas de artigos para automóvel, peças, coisas, essenciais, de tunning, para clássicos, para citadinos, para tudo o que um automóvel precisa para não encostar à box, como certo Falcon, agora plenamente recuperado e a pegar à primeira. Era quase meia-noite, havia que procurar um hotel, um hostel, uma pensão, um sítio para descansar.
Alguém – não digo quem! -, teve grande pontaria. Mesmo à noite, o calor era intenso. Havia um quarto para três, uma cama enorme, a sortear, e duas pequenas, a distribuir pelos infelizes. Era um quarto escuro, de tectos altíssimo, onde havia uma ventoínha de grandes dimensões, que andava a passo de caracol, não conseguindo afastar uma mosca. Por cima da cama de casal, havia uma luz vermelha. Só depois de pagar o quarto, foi possível perceber que espécie de estabelecimento se tratava. Depois de regressar de jantar, antes de dormir havia ainda muito que trabalhar. Era melhor, portanto, ignorar o sono, coisa que no quarto em frente se estava a fazer ruidosamente: “Ai, ai. Siiii…” Alguém estava com dores e respondia afirmativamente. Durou pouco mais de meia-hora este estranho diálogo. Meio-hora depois, o casal desentendeu-se. E estalou uma discussão que se prolongou, com entradas e saídas do quarto, a bater a porta estrondosamente até às seis da manhã. Digo isto porque alguém – não digo quem! – ainda estava acordado. A unidade francesa, a meio da noite, não tinha resistido ao calor da mini-cama e preferiu ir dormir para o chão. A unidade catalã, imperturbável, experimentava as delícias da apneia. Ao sair do quarto, finalmente havia silêncio no quarto da frente. E, ao passar pela dona do hotel, disse ela: “Buenos dias, senõr”. Tenho a impressão que, pelo menos por enquanto, estava muito enganada.
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