
O amanhecer foi dentro de um forno de quatro vagas, preenchidas quase totalmente por uma pilha de mochilas, sacos-cama polares, coisa perfeitamente inútil - pelo menos por agora -, máquinas fotográficas e as lentes, computadores, extensões eléctricas, um fogão a gás, tudo muito bem polvilhado de roupa suja e menos limpa. O parque de campismo de Viedma é fértil em vegetação, tem aulas de canoagem nas águas do Rio Negro e o estádio municipal mesmo ao lado, onde há agrupamentos atléticos a fazer voltas à pista, sob um sol próprio para fazer tostas.
Na vizinhança, havia uma casal de professores argentinos, uma família boliviana que estava de saída, mais um casal e filhos, que assentou arraiais logo à entrada do parque. E isto, garanto, não era bom para a imagem deste camping. Este casal apresentava-se com dois filhos, que pareciam não ter tomado uma banhoca desde que nasceram. Ela, com trajes típicos do Perú, cabelo desgrenhado, branco de pó, seco de sujidade, sólido de consistência. Ele: Barriga proeminentíssima, inegavelmente produzida à base de levedura de cevada, cabelo ao nível do umbigo, encaracolado, um conjunto dentro dos padrões familiares. O chefe de família nunca abandonava o posto no camping. E gostava de descascar cenouras num tacho mínimo, com a barriga a tombar.
O local para acampar era um só aglomerado de pó. Na casa de banho, três lavatórios com uma concentração de mosquitos muito assinalável, que tinham de ser raspados das torneiras, dois xixizeiros sem fluxómetro, duas retretes com as portas semi-abertas, cujo estado geral de limpeza não adjectivarei.

E, a lavar as dentolas, grande surpresa: “Bom dia”. Bom dia? Havia portugalidade em Viedma? Tudo indicava que sim. “Bom dia”. Outro? Bom… a disposição matinal não era a melhor, mas ainda assim tentei exibir um “bom dia” de qualidade. A ocasião exigia-o. Afinal, parecia que estava numa colónia de férias do Inatel, sem Caparica nem costa. Com grande entusiasmo (por acaso é mentira), fui informar os restantes, ainda na tenda, em modo sauna. “Isto está cheio de portugueses”. No caminho de regresso, mais um: “Bom dia”. Isto já era muito estranho, pois embora a fisionomia portuguesa seja universalmente ampla, a verdade é que se tratava de um nativo sul-americano. Não enganava. Mesmo assim, fiz o teste: “Viva, como està? Tudo bem? Por acaso não sabe o resultado do Sporting no fim-de-semana passado?” Vim a saber, logo depois, que nesta região patagónica diz-se “bom dia” e não “buenos diaz”. Eu, que já me sentia em casa, senti-me de novo fora. E, confesso, a sensação era óptima.
Toca para Viedma que, para grande desilusão de Carmen de Patagones, é desde 2002 a “Capital Histórica da Patagónia” e também a capital do Território Nacional de Rio Negro, o mesmo que separa as cidades e o mesmo que, curiosamente, as une. Não é bom puxar o assunto em Carmen de Patagones. Mas, na verdade, também não é mau, pois se a contenda é interna, o orgulho, para quem vem de fora, facilmente se demonstra. Vistas bem as coisas, têm ambas as cidades excelentes motivos de orgulho. Ambas são fruto da colonização espanhola da Patagónia, ambas foram criadas por decreto régio de Carlos III, de Espanha, no dia 22 de Abril de 1779. E logo aqui começou a confusão que ainda hoje vigora. A fundação da fortificação e da povoação de Nossa Senhora del Carmen, inicialmente chamada assim, foi feita por dom Francisco de Viedma y Narvaez. Os grupos colonizadores começaram a chegar ao território em Outubro de 1779, provenientes da grande região exportadora da coroa espanhola, a Galiza, também das províncias de Leão, Austúrias e Maragatería. É exactamente por isso que os nascidos em Carmen de Patagones se designam Maragatos.
Acabam-se aqui as coincidências. Até porque Viedma, na margem baixa, sofreu consequências por isso. Em 1889, a cidade foi arrasada pelas cheias. Não ficou de pé uma casa. É por isso que o centro histórico de Viedma tem mais sinais de modernidade, ainda muito distante do que é hoje, um local de casas de luxo e exemplares de arquitectura pós-moderna e contemporânea. Os maiores problemas de Viedma vieram sempre das águas do Rio Negro, que em tempos trouxe à cidade os resíduos civilizacionais que as indústrias poluentes, a sudoeste, despejavam no rio. Há coisa de uma década, a poluição do rio era um caso seríssimo que hoje, graças à aplicação de rigorosas medidas ambientais, deixou de ser, com a supervisão da Secretaria del Ambiente da Nácion, no cumprimento da Carta Ambiental da Patagónia.
Rio acima, mais de 300 quilómetros acima, onde fica a cidade de Cinco Saltos, ainda está activa a fonte poluidora do Rio Negro. A Indupa, hoje Imextrade, instalação industrial americana, trabalhou ali durante mais de quatro décadas. Só tarde de mais os habitantes de Cinco Saltos, primeiro satisfeitos com a criação de postos de trabalho onde este era praticamente inexistente, perceberam de onde vinham os cancros e as más-formações dos seus homens e mulheres e crianças. A actividade da empresa tinha contaminado o solo com grandes quantidades de mercúrio, assim como as águas do Rio Negro, para onde eram despejados ciclicamente os seus resíduos.
Aos de Cinco Saltos restou uma luta desigual nos tribunais argentinos para relacionar as consequências com as causas, a braços contra advogados multinacionais, burocratas jubilados, especialistas em contornar tudo o que parece incontornável e habituados a vergar vontades à força do dinheiro. Não em Cinco Saltos. Em Cinco Saltos foram necessários dez anos para que a mesma Secretaria del Ambiente da Nácion, que em Viedma fez aplicar a lei, se pronunciasse sobre a contaminação de mercúrio em Cinco Saltos, atribuindo responsabilidades directas à empresa americana. Não há indemnização que pague os danos, os que são visíveis e os que ainda não são.
Viedma está tão distante disto como de lhe acontecer coisa semelhante, depois de se salvar disso mesmo. Na cidade, como em Carmen de Patagones, garantem os intendentes, respira-se ar puro e nada-se em água livre de agentes de poluição. É, para os efeitos que forem necessários, ao turista e ao residente, local “verde”, orgulhosamente assim.

E, sendo assim, no parque de campismo era uma excelente ideia que o lixo fosse para o lixo. Havia churrasco, sob os auspícios de um mestre grelhador francês, que reclama o título de campista-mor do triunvirato, sendo que só o demonstrou nas artes de espetar “sardines”. Não me entendam mal. “Sardines” são os espigões que seguram a tenda. Estaria tudo muito bem não tivesse a tenda ao vento da noite o mesmo comportamento de uma adolescente que sai com as amigas pela primeira vez: dança a noite inteira. Também não há problema, porque a Apneia Orchestra in the Dark dá concerto garantido.
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El viaje se desarrolla cada vez mejor.
Le están tomando la mano, excelente, che!
E que tal darem-nos um cheirinho da “Apneia Orchestra in the Dark”? Isso era uma bela vingança hehe
que franguinho é esse??!!!que orquestra é essa??!!!que tesão tudo!!!!que aula de história que eu não conhecia!!!obrigada a vocês!!
Fantástica a estratégia do jogo do Sporting! Parabéns ao Mestre!
Obrigada por partilharem connosco o vosso trabalho e a fabulosa experiência que estão a viver!
(cá por cima não há grandes novidades…).
Continuação de óptima viagem!
Parabéns ao povo de Cinco Saltos, que não deixaram de lutar pela sua terra, contra os interesses de uma multinacional.