
Contas feitas, malas arrumadas. De novo, partida. Antes de sair do parque de campismo de Viedma, o casal de professores argentino, que conhece bem o território, avisou-nos que dali para sul era preciso ter muito cuidado. Os braços entre as localidades esticam-se cada vez mais e as bombas de gasolina são cada vez menos. E não é sítio para se ficar sem gasolina. Também não seria o ideal para ter uma avaria, se é que há sítio ideal para isso. O Falcon 006 é carro duro, como a estrada que esperava por nós. Por isso, não pensámos duas vezes na questão da avaria. Quanto à gasolina, havia muito que pensar. Estamos em plena crise na Argentina. Em Viedma, esta faz-se notar com muita evidência. Na única estação de serviço da cidade havia hora de ponta. E um aviso enorme logo à entrada, que impunha o racionamento de nafta por carro a 60 pesos, o que não se traduzia em litros suficientes para a atingirmos o nosso objectivo do dia: Puerto Madryn, na província de Chubut, a mais de 450 quilómetros de Viedma. Havia que ter fé, disse-nos o senhor da bomba, coisa que não sei porquê não nos tranquilizou.

Muy bien, a caminho, antes que se fizesse tarde. O que ainda seria pior no caso de esgotar-se a gasolina a meio do trajecto, até porque o depósito com 60 pesos, dependendo da perspectiva, tanto estava meio vazio, como meio cheio. Por precaução usaríamos ainda menos expediente no acelerador. Melhor que isto, só parado. E alguém – não digo quem! -, apelou à nossa santinha de tablier. Percorridos cerca de 60 quilómetros de viagem, eis que em sentido contrário nos surge uma autêntica visão. No meio de nada, se descontarmos a sua imensidão e umas duas dúzias de vacas, uma estação de serviço. Ao longe, parecia mesmo que tinha serviço para prestar. Mais perto, parecia que não estava lá ninguém. Lá, encontrámos duas crianças de boca aberta a olhar para a televisão, interrompendo-se apenas nos dizer o que já estávamos desconfiados: “No hay nafta senõres”. A estação, exactamente como as suas casas de banho estava às moscas. Pior, junto ao carro, estava às abelhas, que começaram a entrar. Foi, por isso, em plena fuga que nos afastámos do sítio, com a mesma gasolina que tínhamos e uma última abelha que teimava em não abandonar a boleia.

Mais calmos, não sei porquê, foi possível apreciar a paisagem. Longa, verde, castanha, de western, com camiões à mistura e famílias dentro de carros carregados de malas que formavam uma camada extra acima do tejadilho. Só cerca de 150 quilómetros depois, mais coisa, menos coisa, já que não é possível calcular com exactidão no conta-quilómetros do Falcon - que só para exemplificar naquela altura informava que, desde que tínhamos saído de Buenos Aires tínhamos feito coisa de trinta quilómetros -, se encontrou uma estação de serviço funcional. Tornava-se evidente, pois haviam dezenas de carros a formar uma enorme fila à poeira e ao sol. Apesar da longa espera que tínhamos pela frente, tal como os restantes, o ambiente geral era de bom convívio. Todos saiam dos carros para trocar conversas de circunstância, no caso aquele problema emergente da falta de nafta, nada que não se resolvesse em meia-hora, 45 minutos. E eis que nos deu um ataque de portuguesismo desenfreado. Ao longe, dava para perceber que umas quantas bombas estavam vazias. Um dos carros mais à frente, tinha acelerado para lá. Nós fizémos uma breve reunião e deliberámos por unânimidade fazer o mesmo. E só depois vimos a razão pela qual a fila era única e não múltipla: Gás.

De marcha-atrás, tentámos simpaticamente retomar o lugar que por inadvertência já não era nosso. Por unânimidade, embora houvesse falta de quorum de alguém que decidiu abandonar para ir beber um café, regressámos à estaca zero. Ou seja, para último. Não fazia mal. O sol estava abrasadoramente bom, o pó não estava mau, e ainda encontrámos um chefe de família com uma camisola do Riverplate, que ainda estava mais divertido que nós, com a família inteira a bocejar dentro do carro. “Muchachos, se acaba la nafta…” Nem nos fale nisso, señor. A procissão da nafta prosseguiu lentamente, muito lentamente. Era a nossa vez, o que era a boa notícia. A má: Não só o preço da nafta tinha subido desde o último abastecimento, como se mantinha o racionamento, embora a 80 pesos.
Fora emoção demasiada, esta de não saber se iria acabar a gasolina antes de chegar a nossa vez de abastecer. Por isso, uma indulgência vinha a calhar. No caso, chocolates. Era local de camionistas e veraneantes em trânsito esta estação de serviço camuflada de pó. E, mesmo no meio, junto à confusão e às bombas, alguém decidira acampar, isso mesmo, debaixo de uma árvore de pouca sombra. Era uma família muito simpática, que não parecia minimamente perturbada com a falta de privacidade. Tinham pelo menos esta certeza: Se quisessem nafta, não estavam longe. Sem isso, partimos de novo. E volvidos nem duas dezenas de quilómetros, nem queríamos acreditar. Outra estação de serviço, com meia-dúzia de pessoas a ver os carros passar, algo anedótico depois de uma hora só para sair com o depósito de novo sensivelmente a meio. No meio de tanta calma, havia ali tensão. Dois jovens e o pai de ambos, estavam todos debaixo de um Opel corsa, na Argentina Chevrolet, com o auto-rádio a emitir êxitos pop dos anos 70, como se estivessem a fazer um concerto em “playback”. E até três absolutos desconhecedores de mecânica podiam perceber que estavam deitados numa cama de nafta, pois tinha-se rompido um tubo por onde esta circulava para o motor.

O rapaz, que teria uns 17 anos, veio até nós, humedecido em gasolina, perguntar se por acaso não teríamos “una pinça”. Tradução: alicate. Pois bem. Tínhamos, “si señor”. Era só uma questão de aguardar, para que acabássemos de atestar o depósito, o que ali era possível, ainda por cima a metade do preço, depois era só retirar tudo o que estava na mala para aceder a um estojo de ferramentas que o mestre Dualde, o nosso anjo da mecânica da cidade de Azul nos tinha obrigado a comprar numa loja de chineses. Ou julgavam que era só em Portugal? A circunstância de ver três pessoas debaixo de um carro cheio de gasolina e de saber que fumar nas estações de serviço na Argentina é um hábito nacional, estava a deixar-nos algo inquietos, pelo que resolvemos estacionar a distância segura daquela operação. Para entreter, comprámos umas raquetas de praia, cuja bola, tipo ténis, resistiu quatro pancadas. De repente, junto à estrada, um carro tinha acabado de se despistar, coisa que não é difícil, entrando no sector de gravilha que ladeia as faixas de rodagem. Em silêncio, tirando a música que ecoava do carro avariado, assistimos ao acidente prestes a acontecer. O carro guinou, reguinou, o condutor travou a fundo, fez um pião, saiu da gravilha para contra-mão e derrapou para a sua faixa, onde parou por segundos, sem nunca ter saído do carro, que tinha vidros fumados. Nas bombas, batia-se palmas e assobiava-se de alívio. Tal como aconteceu quando o trio encharcado de nafta anunciou ter resolvido o problema. “Muchas gracias”. De nada. “Felicidades”. Igualmente. “Buena viajem”. Também para “vosotros” cheios de nafta.
Não seria, portanto, por falta de nafta que a viagem ficaria na estrada. E, como se o tempo não tivesse passado, coisa que se deve ao efeito de gradualmente a noite ir reduzindo, anoitecendo por volta das 22h00, amanhecendo por volta das cinco. Eis-nos, pois, perante a placa: “Bienvenidos à Província de Chubut”, where the sun is still shinning and a police brigade waits for you just ahead.
Era uma espécie de controlo fronteiriço. Se fosse em Portugal julgar-se-ia que tinha havido um acidente, que alguns curiosos tinham parado para ver, que os próprios acidentados se tinham de pé, que tinha chegado o pessoal da Brisa e do INEM e da Junta Autónoma das Estradas e da GNR e estavam todos à nossa espera. Ou, pura e simplesmente, alguém tinha convocado uma reunião de coletes.
Primeiro, o nosso carro teria de passar por uma criteriosa inspecção. Já não éramos propriamente novatos nistos, uma vez que o mesmo tinha acontecido à entrada da Patagónia. E a explicação é muito simples, estas brigadas não procuram propriamente drogas ou armas químicas, procuram fruta e vegetais, que neste momento são estritamente proíbidas na Patagónia, devido à propagação, explicaram-nos, de algumas “pestes” por fruta trazida fora da região. Já sabíamos o que ia acontecer: Perguntar-nos-iam se tínham fruta ou vegetais a declarar, pedir-nos-iam para abrir a mala do carro, olhariam para a mala atestada de coisas, levantariam uma toalha ou um saco, perguntariam com espanto, como quem percorre em segundos o mapa do seu Mundo: “De Portugal… De Portugal?”, falariam do Cristiano Ronaldo, desejar-nos-iam boa viagem. Não falhou nada. Havia agora que prosseguir para o controlo policial propriamente dito. E, perante isto, algumas dúvidas nos atormentavam. Sobretudo, as que se prendiam com as questões burocráticas do “poder”, que Celia, do stand Los Amigos, ainda não havia dado notícia.

Afinal, para o território argentino, estávamos na mais completa legalidade, mesmo sem a procuração, sem a qual não vamos poder entrar no Chile, onde os polícias são mais duros e de extremo rigor. Aqui, este simpático agente apenas nos disse, com alguma incredulidade: “De Portugal?”. Si, de Portugal.
Duas horas depois, chegávamos a Puerto Madryn. Duas horas depois, ainda não havia lugar para dormir. Duas horas depois, dormíamos. Duas horas depois, estávamos acordados.

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Quelle épopée!!!je ne savais pas qu’il y avaitde telles restrictions d’essence en Argentine!!!
bonne continuation!!!
Grande aventura! São culpados por eu não ter trabalhado esta manhã… li as vossas aventuras desde o primeiro dia.
Boas aventuras. Abraço,
André
Hilariante, che! como me mato de risa de tus crónicas de viaje Luis, sós bárbaro!
“Buena viajem” para ustedes también!!!
Que gran história fotográfica!