Dia 16
Diário de viagem

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Puerto Madryn é local de praias e de férias dos argentinos, povoado de jovens patinadoras em linha a percorrer a marginal da cidade, de bares prestes a encher, de restaurantes a anunciar os seus pitéus em placas de ardósia, de camiões da II Guerra Mundial carregados de versões hippie com cartões de crédito, de “backpackers” com roupa de “griffe” a passear sujidade, de famílias intermináveis às lambidelas aos gelados em fila indiana, enfim, semi-Ibiza, semi-Albufeira. Tudo cheio, “senõres”. Parque de campismo atestado, hotéis completos, motéis completos, hostels, assim, assim. Pensando bem… óptamos por um hostel, daquelas coisas onde fica a criançada em idade de “inter-rail”, a rir até às tantas nos quartos partilhados, quando chegam dos copos.

Percorrendo a marginal de Puerto Madryn, onde existe hora de ponta com Buenos Aires fora de “vacaciones” ou com a Costa de Caparica, em plena época balnear. A praia principal que serve a cidade, sobrelotada, é muito pior que qualquer outra mais afastada, é uma amostra transversal de toda a Argentina, ali concentrada como sumo de tomate.

Há famílias com matronas a dar ordens à criançada e aos maridos, cujo olhar não consegue escapar das donzelas esculturais a desfilar em fio dental. Há crianças a correr atrás de crianças que correm atrás de cães, que correm atrás da bola da rapaziada, que corre atrás do cão, que foge para cima da toalha de alguém, que enxota o cão, que ladra e foge para o respectivo dono, que dorme com as costas côr de bife no talho, com a mulher barriguda debaixo de um chapéu de sol a folhear uma revista do jet-set espanhol, sem leitura, que tem uma filha adolescente que faz olhinhos ao nadador-salvador, que hoje ainda não salvou ninguém, que por sua vez se exibe em estilo Marés Vivas, sem viatura todo-o-terreno, para as mais velhas, que por sua vez não lhe ligam nenhuma e parecem muito mais interessadas no jovem tatuado, produto “body building”, que acabou de chegar com o capacete debaixo do braço, ainda a analisar o “spot” merecedor da sua presença, estrategicamente ao lado de uma turista louríssima, em óculos panorâmicos e creme bronzeador com alto nível de protecção, suficiente para dar côr, insuficiente para o agrupamento nórdico que estava mais ao lado, com material scuba-dive e barbatanas. Férias.

Ao fim do dia saem em hordas de pele vermelha, rumo a lado nenhum ou ao bar mais próximo, para largar longos “aaahhhhhhh” ao primeiro trago de cerveja, estacionando os corpos salgados a ver os corpos salgados que passam, deixando as horas correr lentas, deixando-se ficar, ocupando lugares no “dolce farniente” de Puerto Madryn. A noite chega assim. E assim passa , em festas, sorvendo bebidas tropicais com chapéus decorativos, seguindo para “bailar” num Boliche. Puerto Madryn é sítio de convívio, ponto de encontro, de romance barato, de contacto, de fluídos, de troca de e-mails ao amanhecer.

A manhã readquire a rotina, retoma o lânguido, a ressaca, uma dormência que circula entre as férias que começaram e o dia que passou para que elas acabem. E os habitantes de Puerto Madryn, como os habitantes de um Algarve qualquer, são os que não estão de férias nem de passagem. Estão porque estão. Querem mais, mas às vezes não podem. Sonham com o dia em que se vão mudar para Buenos Aires, onde mora a possibilidade e a prosperidade que lhes permitirá voltar. De férias, como os outros, aqueles que são servidos por eles. Puerto Madryn tem um imenso mar e praias inesgotáveis, de areia negra, quando não é gravilha. É daqueles sítios que vive para o Verão, esgotando-se com ele. A cidade vive da sua avenida principal, marginal, onde os preços são de propósito inflaccionados. Os monumentos da cidade são dois: A meio da marginal, D. Quixote, montado no Rucinante, Sancho Pança, de burro, e mais dois canídeos que os seguem em caravana. Mais acima, no ponto mais alto com vista para a marginal, há a estátua de homenagem ao índio, onde os casais estacionam os carros quando o dia morre para fazer o que os casais fazem nos carros quando o dia morre. É por isso que o pequeno muro contém frases como: “Celia y Marco”, ou coisas eternamente inflamadas como “Te amo para siempre my amor”. Para sempre, em Puerto Madryn, tem geralmente a duração do verão. Ou de uma noite, como esta, mais quente.

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Comentários

5 respostas to “Dia 16”

  1. cyberannie on January 17th, 2008 9:57 am

    La station balnéaire typique!!!que l’on retrouve partout..;C’est peut-être ça aussi “la mondialisation”!!!!
    Une ville décrite avec tant d’humour!!!
    Toutefois , d’aprés les photos il n’y a pas sur les plages l’affluence de certaines plages espagnoles ou françaises où les gens sont entassés comme dans des boites de sardines….

  2. cyberannie on January 17th, 2008 10:06 am

    Apparemment vous avez eu de la pluie, mais a-t’elle été suffisante pour oter toute la poussière accumulée sur la Falcon??

  3. ampiko on January 17th, 2008 11:10 am

    Hola, muchachos, qué tál?
    Producto de la globalización, la Argentina no podia quedar atrás,
    LPC estás muy mordaz! Pero tu escrita es hilariante y certera.

    A los fotógrafos les digo que hay imágenes que me causan envídia, Bravo! Grande entrada en la patagonia!

    Un gran abrazo

  4. Fernando Dinis on January 17th, 2008 4:46 pm

    Boa viagem para todos!
    Se para a reportagem final precisarem de musica, avisem!

    Abraço

  5. margarida sousa on January 17th, 2008 5:23 pm

    bela imagem escrita escrita dos argentinos,boa que vai o falcon 006?, espero para vosso sossego que esteja bem.

    bj para todos

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