Dia 19
Diário de viagem

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Mal estávamos a sair de casa, que milagrosamente conseguiramos a uma senhora simpática e desdentada, nativa de Puerto Pirâmides, sedenta de uns pesitos, e já estávamos a entrar de novo, arremessados para trás como se estivéssemos em equilíbrio instável em cima de uma prancha de surf. Na opinião do nosso especialista em ventos, francês de cátedra marítima, estaria um bom 8, na escala Beaufort. Para traduzir: Uma ventania valente., que varria o pó das ruas, atirando-o para todos os pontos cardeais.

Devidamente mastigada a primeira dose de pó, passámos para o hostel do lado, onde no dia anterior combinaramos ficar, jogando com as saídas e as entradas, para colocar a nossa colecção de “equipaje” e deixá-la em segurança. A nossa viagem de hoje era ao longo de toda a Península de Valdés, Área Nacional Protegida e Património da Humanidade, assim classificada pela UNESCO desde 1999. A escassos quilómetros de Puerto Pirâmides, fica o primeiro santuário protegido, a Punta do mesmo nome, habitat por excelência de leões marinhos. A área onde ruidosamente se encontram é evidentemente “off-limits” para a curiosidade turística dos esguios agrupamentos de óculos escuros, casacos especiais “gore-tex” coloridos, máquinas digitais, câmeras de filmar com zooms poderosos e bonés tipo Legião Estrangeira. Para salvaguardar a comunidade de leões marinhos que ali procria e está, proliferam placas informativas e de advertência: Quer-se silêncio na visita ao local. E qualquer tentativa de aproximar-se será severamente punida, embora não se saiba exactamente como. Caso estas técnicas dissuasoras não cheguem, há também uma cerca para proteger os homens dos animais e os animais dos homens.

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Não há, claro, como evitar que mesmo no seu habitat natural os animais se transformem numa exposição zoológica, em posters digitais para mais tarde recordar. A “lo mejor”, foi a solução que se encontrou para satisfazer a curiosidade insaciável dos turistas que circulam em fila indiana, às vezes liderados por guias poliglotas, outras vezes por conta própria. Para quem observar de perto os leões marinhos, que um dia estiveram em risco de extinção em toda a Península Valdés, tal como as baleias, pois eram o alvo predilecto do apetite voraz dos caçadores de Puerto Pirâmides, quando esta ainda não estava nos guias de férias nacionais e internacionais de “visite a Patagónia”, provavelmente quando estava mais exposta às caçadas regionais, sobretudo locais.

À bolina, saímos de Punta Pirâmides para tomar a direcção de Punta Norte, a 75 quilómetros, que noutro dia qualquer e com outro carro qualquer, podia ser próximo. Estrada de gravilha, com pedras e enormes e altos na estrada, género bandas sonoras naturais, tal como natural e agreste era a paisagem em redor. Sinais ao longa da estrada avisavam-nos para a eventualidade de nos cruzarmos com cavalos, lamas, galinholas, e demais elementos da reserva natural que, naturalmente, ignoram a passagem dos carros, bom sinal. O vento por esta altura subira intensidade na escala Beaufort, atingindo o Ford, que lentamente avançava no terreno. Havia pó e areia por toda a parte, entrando pelas frechas do 006, que começava a ficar muito elegante, como um cabriolet de interior com estofos exclusivos em branco sujo.

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Nada disso importava. Talvez fosse mais importante as pedras que ecoavam com estrondo por baixo. Sempre devagar. Ao contrário das carrinhas ao serviço do turismo local, que passavam a 100 quilómetros por hora, mais coisa, menos coisa, por sinais que proíbem andar a mais de 40, muito bem acompanhados pelos jipes da eco-burguesia, com certeza todos com detectores especiais de animais, ou GPS de fauna, ou super poderes para que os consigam distinguir entre as nuvens de pó que a sua passagem criava, como se as unidades Beaufort já não fossem q.b.

O vento forte atirava o Falcon de ponta a ponta da estrada, lamas saltitavam ao longe, cavalos corriam em liberdade, ovelhas pareciam exemplares de azulejaria, imóveis, alheias. E nós, em andamento penoso, tínhamos cada vez mais a sensação de estarmos presos dentro do Falcon, crescendo as dúvidas sobre se chegaríamos à Punta Norte, onde mora uma colónia gigante de leões marinhos, de focas e pinguins, onde inevitavelmente vão as orcas buscar alimento, onde, evidentemente, o homem só à distância pode assistir ao que a natureza e os guarda-fauna lhes permite que veja, naquele pedaço de terra encerrado pelo pelo Atlântico Sul, águas argentinas, em si outro santuário.

A coisa de 20 quilómetros do local, surpresa desagradável, barulho inconveniente e metálico, algures sobre o eixo esquerdo na traseira do Falcon. De imediato, parámos. E, com grande dificuldade, conseguimos abrir as portas para o exterior que, com força bruta, melhor, Beaufort, nos empurrava violentamente para a procedência. Como cavaleiros do apocalipse, prestes a ficar com a montada avariada, atirámo-nos à intempérie como gato a bofe, embora de boca fechada, para não criar pó. Deitado debaixo do 006, o nosso especialista gaulês, declarou com um ar gravoso, enquanto tossia a poeira da garganta e a sacudia dos olhos: “Não sei, pá!”. Decidimos desde logo convocar uma reunião no “cockpit”, para determinar o que fazer. Para trás, estavam mais de 50 quilómetros, para a frente apenas 20 e a fauna protegida, sendo que seriam 95 contando com a viagem de regresso, sabendo que no centro de guarda-faunas de Punta Norte nada mais havia que um balcão de informações, mais um pequeno estabelecimento de “regallos” e cafetaria.

Bom.. Iríamos tentar em andamento ver o que estava mal , causando aquele barulho insistente e grandes preocupações no trio. Lá saiu o Guillaume, pronto para mais uma refeição de pó, a correr ao lado do Falcon. Diagnóstico: “Não sei, pá!” Todos para fora estender um tapete vermelho que nos acompanha para as ocasiões solenes, debaixo do carro, para que a opinião do técnico francês fosse agora confrontada com outras escolas. “Não sabemos, pá!”. Sendo assim, era unânime, não sabíamos o que fazer. Pá!

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Sabíamos apenas que não tínhamos vontade nenhuma de ficar ali parados, sob uma tempestade de areia e pó, sem visibilidade, sem sermos visíveis. Portanto, para a frente, mais devagar ainda, como se fosse possível. E, para a frente, havia mais do mesmo. Pó, tocado a Beaufort, pó, ao ritmo do mesmo barulho metálico, à espera que qualquer coisa partisse, deixando-nos apeados. E, a avaliar pelo comportamentos dos condutores das carrinhas do turismo e dos outros, quando estávamos parados, não era de esperar auxílio. Também não era coisa para isso: Uma tempestade de areia, um carro avariado, perto de um sitio qualquer e longe de lado nenhum, não seria motivo para alguém parar e perguntar se queríamos ajuda ou se simplesmente gostávamos de andar por ali a engolir pó e a pôr-nos em cima de um tapete vermelho, por sua vez debaixo do Falcon. A todos quantos não pararam, os nossos agradecimentos. Pelo menos por agora, também já não era preciso. O que era aquilo? O centro de “Informaciones” de Punta Norte. Em três horas e meia fizeramos 75 quilómetros. Isto, nem um Beaufort, tipo 2, com muletas.

Estacionámos a suposta avaria, exaustos, e fomos beber coca, para animar. E, só depois, os animais. E os animais lá estavam no seu habitat, uma praia de fazer inveja, só para eles, os leões marinhos de uma só pele, ao longo de uma costa de perder de vista. Tal como o mar que os tinha pela frente. Atrás, estávamos nós, como os outros em frente à cerca delimitadora.

Há mais de cem mil leões marinhos em Punta Norte, embora apenas uma parte se encontrasse visível, comportando-se como os leões marinhos que são, urrando, disputando pequenos pedaços de território, ferindo-se, recompondo-se, prevalecendo a lei do mais forte ou a lei da vida. Ao fundo, haviam dois cadáveres. Ao nosso lado, um turista argentino, lá fora cá dentro, perguntava: “Hay avistado orcas?” Não senhor, senhor turista. Só mar imenso, de um azul só possível em mar ou em céu.

Contemplámos em silêncio a vida que decorria à nossa frente. Até que a hora para as visitas se esgotou e o Falcon, em merecido repouso, ocupou de novo as nossas prioridades. De regresso ao centro de informações, foi então que conhecemos uma guarda-fauna destemida e de grande expediente, tão grande quanto ela era pequena, com os seus caracóis e trejeitos indios, que não conseguia – nem queria – disfarçar com a indumentária oficial. Isabel teve durante muito anos um Falcon e uma nostalgia clara dos tempos em que o tinha, e sabia do que falava quando disse que também não fazia ideia do que podia sofrer o nosso “niño”. Espreitando debaixo, de onde soava o dói-dói, nada. Abanando, nada. Nada sobre nada, vezes nada, igual ao que já tínhamos, somando o senhor Beaufort, que ainda não tinha dado o seu melhor.

Decisão: Retirar o pneu em causa, porque Isabel levantou a hipótese de uma pedra ser a causadora de tanto barulho e tanta preocupação. Altura apropriada para exibir o novo macaco, que não era espécie protegida, made in China, comprado em Azul. Impossível. Nem vinte super-homens alimentados a Cornflakes com “bife de ojo” conseguiam soltar os parafusos, nem mesmo Isabel depois de ir buscar um spray especial para soltar porcas.

Assim sendo, mais uma decisão inevitável. Aliás, duas. Não tiraríamos a roda e partiríamos antes que fosse tarde. Não era possível ter ajuda ou chamar um reboque. “Muy bien, muy bien. Hasta luego, Isabel”. Com “suerte”, não seria a meio da estrada, no meio da tempestade, a meio da noite, que por sorte era dia, embora já não andasse por ali vivalma.

Beaufort e mais Beaufort foi o que nos calhou, a passo de caracol, sobre uma estrada que pura e simplesmente não se via. Chegámos a Puerto Pirâmides precisamente à hora de jantar, todos nenúfar em pó dos pés á cabeça, material incluído. Felizmente, em Puerto Pirâmides, também se janta à uma da manhã. Não convidámos o senhor Beaufort para jantar. Ficou lá fora.

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Comentários

4 respostas to “Dia 19”

  1. Ampiko on January 21st, 2008 12:18 pm

    Ese “vientito” es sólo una muestra del famoso
    “Viento Patagónico” que van a sufrir en todo vuestro recorrido.

  2. Myra Gore on January 21st, 2008 3:27 pm

    Belíssima a foto dos LEÕES MARINHOS!!!
    Já valeu a pena visitar o vosso blogue!!
    Hi, hi.!
    Bem hajam!

  3. oscar eduardo de brito on January 21st, 2008 6:06 pm

    El viaje recien comienza y esta lejos la frontera de la inmensidad pero despacito se llega y se vuelve.

  4. cyberannie on January 21st, 2008 10:39 pm

    J’espère que vous ne souffrirez pas trop des tempêtes de vent qui doit effectivement souffler avec force dans cette région!!!!
    Guillaume tu as pris du sable dans les yeux!!!!!
    Bonne continuation

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