Dia 20
Diário de viagem

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Gargantas ressequidas, corpo dorido, ressaca de pó e de uma viagem de pesadelo, num quarto mínimo a preço máximo, num hostel com as paredes verde alface e três beliches, que não davam para esticar as pernas, qual como o quarto não dava para esdticar os braços. Vencidos pelo cansaço, ficaríamos mais um dia em Puerto Pirâmides, para conhecer a “fauna” local, o que não era fácil de encontrar no meio de tantos turistas. Os pilotos dos barcos de avistamento de baleias são talvez as personagens mais intensas, com os seus bonés e as suas t-shirts à “Querelle”, embora nem o próprio Jean Genet conseguisse em ficção o que se encontrava nesta realidade de Puerto Pirâmides, com as devidas distinções.

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Magotes de turistas aguardavam por eles, seguiam-nos em carneirada, tropeçavam para entrar a bordo, envergando fatos térmicos e coletes salva-vidas. O mar, já se sabe, tem imprevibilidades. Certo, só isto: Só por algum milagre da natureza é que os avistadores de baleias iam conseguir avistar alguma. Se tivessem lido os folhetos turisticos, portanto, a eles destinados, tinham que saber que não estamos na época em que as baleias se avistam. De qualquer maneira, a viagem deve valer a pena. Pelo menos foi o que disseram à chegada os que agora partiam. Na praia, tudo normal. Ao solinho, que estava intenso, estava-se na perfeição. Areia lisa, cremes protectores, banhoca, regresso à toalha, agora a queimar a barriga, agora as costas, talvez jogar umas raquetas, talvez conviver, talvez meter conversa com umas chicas, talvez com uns chicos, talvez não fazer nada disso, fazendo o nada que se faz quando se está a banhos.

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Em conversa telefónica com Alejandro, el Intendiente de Puerto Pirâmides, viemos a saber que as previsões do sector do turismo para este ano iam ultrapassar todas as expectativas. E que o “mayor”, assoberbado, estava exactamente assim para garantir que nada faltasse aos que enchiam o seu pueblo de pesos e dólares. Nunca esquecendo, claro, as espécies protegidas, que certamente por engano terá incluído nas atracções turísticas de que falava. Muito bem, Alejandro, então e a falta de água? E as banhocas de água doce a conta-gotas? E a inexistência de uma estação de tratamento de águas residuais? E quais as preocupações ambientais para além, claro, da cobrança de bilhetes para visitar as espécies protegidas no seu território protegido? E o parque de campismo, sem capacidade para a sobrelotação que tem, sem higiéne, mesmo junto à praia que se quer limpa? “Bueno…” demasiadas questões para um intendiente só. Mesmo, porque o seu assessor estava em missão em Puerto Madryn. Deu pelo menos, para perceber o que já tínhamos percebido. Em Puerto Pirâmides é cada um por si. Cada negócio tem vida própria, cada vida própria trata do seu negócio, como se não houvesse outro verão.

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Comentários

Uma resposta to “Dia 20”

  1. cyberannie on January 22nd, 2008 4:02 pm

    Difficile de conclier écologie et tourisme de masse,surtout si les infrastructures ne sont pas adaptées, ce qui semble être le cas.

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