Dia 21
Diário de viagem

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O amanhecer foi uma espécie de entardecer. E, já contado, não foi dos melhores. Uma coisa boa: As malas já estavam feitas e entregues ao âmago do 006. Antes do pequeno-almoço, umas tostas gigantes e café com “leche” – mais vale assim -, a disposição não estava propriamente em alta. Um certo cansaço, umas certas dores lombares, uma ou outra enxaqueca, uma ou outra caímbra, o peito um tanto ou quanto “caliente”, porque o sol estava abrasador, ainda alguns tremores e uma voz ensurdecedora e insistente que dizia: “Vai-te embora”.

Não a querendo contrariar, nem o que estava previsto, fomos. De novo em direcção a Puertto Madryn, embora no caminho desviássemos para sul, rumo a Trelew, cidade supostamente grande e supostamente perto, embora também não fosse suposto o vento reaparecer quando parecia oferecer-nos um dia ameno, como reapareceu, em pujança. A viagem para Trelew, por isso, tornou-se seriamente complicada. Em sentido contrário vinham pesados pesadíssimos, perseguidos por ligeiros ligeiríssimos, todos a espreitar uma oportunidade para invadir a nossa faixa de rodagem. E, nela, não estava fácil rodar.

Estranhamente o Falcon denotava grande instabilidade, guinando à esquerda e à direita, ao sabor do vento falso. À frente, o co-piloto catalão não dava por nada, encostado, nariz ao alto, óculos escuros, de haste única, a tombar, vias respiratórias soltando unidades semi-melódicas roncantes. Atrás, o navegador não estava a gostar da dança. Dizia, em onomatopeias: “Ai, ai, ai”.

Neste momento, o Falcon era uma espécie de “playstation” e nós estávamos perdidos no jogo, atentos à sua disposição, tentando não encontrar a parte frontal dos camiões, nem a gravilha, abundante à direita. “Pasito, pasito!!!” Devagar. Tinha de ser, em direcção a Trelew, porque outra cidade não havia antes. Parar não era propriamente uma opção. Ainda neste dia teríamos de enfrentrar uma estrada secundária – coisa própria para todo-o-terreno -, para chegarmos a Punta Tombo, onde se encontra a maior comunidade/colónia de pinguins da Patagónia central, cerca de meio milhão, no mesmo regime de protecção em que se encontravam as espécies vistas na Península Valdés, portanto, Área Protegida.

Chegando a Trelew, aliás, com grande alívio, reparámos que com certeza se estaria melhor na pele de um pinguim. A primeira imagem da cidade, embora om epíteto seja claramente exagerado, foi uma enorme lixeira, onde jazia uma colecção gigante de sacos de plástico e detritos de toda a espécie, uns sobre os outros, todos atirados à desordem, onde alguns habitantesde Trelew, atléticos, ou nem tanto, aproveitavam para fazer o seu jogging, inspirando lixo, expirando o mesmo, largando por ali as calorias que consumiram dos enlatados que lhe apareciam no caminho.

Trelew é uma enorme terra de ninguém, mas onde aparentemente todos tinham carro. Ruas e mais calles e mais ruas, cheias de oficinas de reparação automóvel, venda de peças a retalho, mecânicos prontos a atender. E nem uma alminha na rua, nem mesmo na calle. Era 15 horas. E pronto. Os argentinos não lhe chamam siesta, mas em Trelew é garantido que a praticam. E, uma vez que tínhamos chegado ao paraíso da avaria, resolvemos perguntar a um especialista de onde vinha o súbito talento “alunos de apolo” do 006.

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Na estação de serviço, um simpático empregado deu-nos uma aula rápida sobre como “manejar” a máquina para encher os pneus, discorrendo sobre a pressão em BAR, que no momento era precisamente o que estávamos a precisar. Aproveitou para demonstrar bons conhecimentos também em mecânica. Ainda debaixo do Falcon, proclamou: “No tiene barra estabilizadora”. Péssimo. Faltava mesmo isto. Então onde que se encontrava uma naquela cidade multi-oficinal? “Bueno, no es fácil”. Bueno, não.

Bueno… Começou a busca de uma barra estabilizadora e, já que estávamos em modo demanda, também dava jeito um pisca que piscasse, com a respectiva lâmpada e a respectiva protecção plástica amarela. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete mecânicos sem barra que nos estabilizasse e sem um pisca próprio para Falcon. Anyway, por esta altura também já não interessava. Tínhamos encontro marcado com 500 mil pinguins e não seria uma barra estabilizadora a impedi-lo. Isso, só o conseguiria fazer o horário apertado da reserva natural de Punta Tombo, o que não parecia constituir problema dada a relativa proximidade de Trelew, ao longo na inesgotável Ruta 3. Digo relativa, exactamente porque as estradas assinaladas a duplo-vermelho no mapa significam que estas estão em bom estado, pelo menos com uma dose de asfalto. A estrada para Punta Tombo era verdinha, logo, não era bem uma estrada, muito menos uma ruta, era mais um caminho, nem isso, talvez um projecto de caminho onde de futuro havia de estar uma estrada. Por enquanto, concluimos ao lá chegar, haviam só máquinas de terraplanagem, com os seus terraplanadores e os seus capacetes coloridos, e os simpáticos assistentes de estrada, com os coletes laranja a acenar, indicando-nos o caminho para onde nos devíamos desviar, de modo a encontrar o caminho por onde devíamos estar mas que, para todos os efeitos, não era estrada.

Se estivesse vento seria Puerto Pirâmide a Punta Norte a acontecer de novo. Gravilha não faltava, nem à frente, nem nas alas, nem a estalar por baixo do carro. Se fosse essa a única preocupação, já não era mau. Havia o premente assunto do horário, ainda o regresso à noite sem luzes que funcionassem, ainda o facto de estarmos a ficar sem nafta e de não haver estações de serviço ou localidades assinaladas no mapa por umas boas centenas de quilómetros, coisa que o 006, mesmo em modo económico – 15 litros aos cem -, não seria capaz de atingir.

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Enfim… Pinguins. Muitos, aos milhares, debicando, debicando-se, saltitando, percorrendo o seu espaço, saindo de buracos, aos pares, em grupos, a solo, passeando por baixo de pontes de madeira, por onde passavam os turistas, que nunca podem abandonar uma rota traçada de pedras para esta visita. Estão no seu habitat e são indiferentes à presença. Ao longe, avistam-se mais, junto a uma praia de fazer inveja a qualquer estância balnear de luxo. Tínhamos meia-hora para a visita, disse um imperturbável guarda-fauna, que também avisou que se alguém saísse do caminho, tipo pista de karting, outro guarda havia de pegar os prevaricadores.

De novo na estrada, naquela coisa parecida com uma estrada, que no regresso, sem sabermos bem para onde, parecia muito mais longa. Quando caiu o dia, por volta das 23h00, chegou um frio de rachar. E nada disto parecia bom para quem estava a ficar sem gasolina e sem luzes. Pouco antes de atingirmos a Ruta 3, onde seria impensável viajar sem luzes, o navegador franciú conseguiu unir dois fio. E eis as luzes. Que funcionavam desde que o pedal da embraiagem não lhes tocasse. Com cerca de 70 quilómetros de Ruta 3, uma luz, lá ao fundo, a brilhar como uma estrala salvadora. Estava mesmo a fechar o estabelecimento, a tempo de atestar o depósito do Falcon. E, ali mesmo, encontrámos comida e água, que também já não havia. E um hotel de seis estrelas.

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Comentários

7 respostas to “Dia 21”

  1. maria da trindade on January 23rd, 2008 2:23 am

    comentário:

    S A U D A D E

    ps: vocês até sabem, eu queria mesmo era estar convosco e que por ter ficado, o brinde de cada dia é ainda convosco!

    Obrigada.

    Beijos, para os pinguins, claro!

  2. cyberannie on January 23rd, 2008 8:27 am

    lES PHOTOS DES CIELS SONT SUPERBES!!!
    des colonies de pingouins…quelle chance de pouvoir les voir de près!!!
    bonne chance à la Falcon!!!!
    bisous

  3. Cameraman Melon on January 23rd, 2008 8:42 am

    Esse Falcon fica para a história…
    Gostava de saber umas cenas que se estão a esquecer de escrever… os preços!
    Quanto custa um café, 1 litro de gazoza, uma dormida num hotel de 6 estrelas, quanto custou o Falcon… ou não convem dizer?
    E aí há ASAE?
    O meu puto já vem na Bolivia… mais uns dias tá em BA outra vez. Veio desde a Colombia de bus…
    Abraço e boas fotos - CM

  4. myra gore on January 23rd, 2008 9:31 am

    Saudades aos pinguins, “esses simpáticos senhores …de fraque a caminho da ópera….”(sic)
    (parafraseando J.B.).
    Boa viagem!

  5. Ampiko on January 23rd, 2008 1:58 pm

    Ché muchachos, dos fotógrafos y sólo tenemos fotografias de cielos y pinguinos?!?

    A Luis lo veo que escribe, escribe, escribe, ……………………………………..

  6. margarida sousa on January 23rd, 2008 2:14 pm

    desejo que o falcon 006 se consiga aguentar até ao fim , e os tres por favor tenham cuidado convosco, continuaçao de bom trabalho e beijinhos para todos nao esquecendo o falcon

  7. carla neto on February 8th, 2008 11:14 pm

    Os pinguins são muita loucos!!:)

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