Dia 22
Diário de viagem

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Sejam bem-vindos ao Falcon Hotel, seis estrelas. Há uma suite para o condutos, por baixo do volante, esticando as pernas entre o pedal do acelerador e do travão, entre este a embraiagem, entre esta e a porta, opcional. Há vista panorâmica para a plenitude das bombas de gasolina, banco dificilmente reclinável, saco-cama até ao pescoço, garantia de uma noite mal dormida, vigilante. No quarto ao lado, mais luxuoso ainda, havia mais espaço, pouco, com um conjunto de sacos por baixo dos pés. Comida mesmo ao lado, sensação inigualável de dormir sentado, sóm compatível com a sala de espera das urgências de um hospital.

No quarto das traseiras, igualmente exíguo, era uma cama de casal: Mister Jordi e o nosso pneu sobressalente partilhavam aposentos. O pneu, que ainda não recorreu a cirurgia estética, está, diga-se, em excelentes condições e foi ali estrategicamente colocado para libertar a bagageira. Tem por companhia dos bidões de água, roupa acumulada, usado ao ritmo do sol e da sua ausência, e outros objectos que, como um saco de mate, “aceite”, tachos e panelas, pratos metálicos já inutilizados pela ferrugem e outros objectos que, embora nãom parecendo, se tornam essenciais.

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Do pouco que se vai dormindo, o serviço de despertar é a luz do dia, que rompe por volta das cinco da manhã. O pequeno almoço são as sandwiches que sobraram do jantar. Em frente à loja da estação de serviço, ainda a mais de 300 quilómetros de Comodoro Rivadavia, aguardava-se com expectativa - e já não estávamos sozinhos -, que abrisse para usar a casa de banho, para beber um café. No hotel do lado, outra relíquia do parque automóvel argentino, que tinha chegado de madrugada, esfregavam-se olhos e fazia-se o mesmo. Mais distante, alguns camionistas. E, aos primeiros raios de luz, um solitário dentro de um Renault em péssimo estado de consrvação, para não destoar.

Nesta longa recta que é a Ruta 3, sempre que há uma estação de serviço, convém parar. Sempre que é possível, também convém atestar. E, depois de dois dias de calor e frio intensos sem que o corpo tenha contacto com a água, também convinha não se pensar muito nisso, tornar minimamente confortável o desconforto e relativizar. Mas a verdade é que já dava jeito que a loja abrisse. E, para todos quantos tinham chegado entretanto à estação de serviço, era fundamental que, com ela, abrissem as bombas abastecedoras. Foi por aqui que verificámos a sorte que tivémos na noite anterior, quando fomos os últimos clientes a abastecer, a minutos de tudo encerrar. Caso as luzes se tivessem apagado esses minutos antes, nem sequer teríamos visto a estação de serviço e não tínhamos gasolina para muitos quilómetros mais. Valeram tanto esses minutos como valia agora um duche ou mesmo um sucedâneo de higiéne.

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Mais contentes, pelo menos que os outros, seguimos viagem. Soubémos entretanto, que as bombas-hotel não iam abrir nesse dia. Lamentámos a todos quantos não tinham saída se não ali ficar a secar ao sol, mas tínhamos quilómetros para percorrer e, para variar, o depósito cheio para percorrê-los. Em direcção, pois, a Comodora Rivadavia, cidade do petróleo.

De dia, a estrada é tão complicada quanto é à noite. Quilómetros e quilómetros de recta, cenário árido, à espera que o John Wayne nos passe a galope. É hipnótica esta estrada, causa dormência, sobretudo quando já se está com sono, sobretudo, quando os partners da frente e de trás já mergulharam nele. O esfalto transforma-se numa espécie de espelho convexo, simulando água, diluindo-se lentamente na paisagem. Lentamente. Lentamente. Lentamente.

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O melhor é parar. Não era já, mais um pouco à frente. Se os olhos não me enganavam era outra estação de serviço. E, por estar atestada de carros, estava aberta de certeza. E foi aí que se fez quase tudo o que era necessário, de pormenores perfeitamente dispensáveis. Ingestão de café, água fresca, estrada de novo. De novo, a imensidão, de novo a tornar-se pequena, em túnel, em dormência, quilómetro após quilómetros, após quilómetro, após quilómetros. De modo que, era melhor parar de novo, para esticar o esqueleto dorido, para lavar a cara, para recuperar os sentidos, para voltar à estrada, para suar com o calor extremo, para olhar de novo para a linha divisória sem fim, interrompida pela velocidade dos camiões, perigosamente rotineira. A coisa de 70 quilómetros de Comodoro, vencera o cansaço. E eis que Jordi acordou fresco de quem uma alface do deserto, pronto para tomar posição ao volante. Fui lá para trás divertir-me com o pneu. Mas, ainda não tinha fechado os olhos e já estava a dormir. Acordei com vista para uma enorme máquina de extracção de petróleo, sobranceira a uma cidade cinzenta, rude. Eis a cidade mineira de Comodoro Rivadavia, onde há dois parques de campismo, nenhum deles com água. Isto prometia.

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P.S: Perguntam vocês, leitores informados, excelentíssimos, maravilhosos, internacionalmente atentos, dignos, nunca acríticos, mas magnânimes, nunca maliciosos, mas contundentes, sempre, mas sempre, bem intencionados, excelsos ainda, profundos conhecedores das imensas realidades, por que raio é que o tema da ecologia, o mesmo que nos levou a embarcar nesta viagem, ainda não foi tratado com a profundidade que vós mereceis?
Ora bem… A verdade é que a distância que nos separava dos temas era grande, maior ainda a bordo do nosso 006. É por isso que nos próximos dias verão que, na realidade, já há temas a ser tratados, como foi nossa promessa, com a profundidade que o planeta merece. Desde exemplos de boas políticas ambientais, adoptadas na Patagónia, aos inevitáveis crimes ecológicos, pelos sugadores de recursos naturais, só interessados nisso, completamente desinteressados do resto. O resto, somos nós. Não nós, NÓS.
É só uma micro-espera, portanto.

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Comentários

10 respostas to “Dia 22”

  1. Cameraman Metalico on January 23rd, 2008 7:58 pm

    Yo estoy por aqui… y tengo tiempo!
    CM

  2. gabi on January 23rd, 2008 8:28 pm

    yo también !!!
    meus respeitos e tudo o mais!!
    mg.

  3. joana on January 23rd, 2008 9:54 pm

    Ola
    Força e boa viagem. Aguardamos todos noticias vossas.

  4. cyberannie on January 23rd, 2008 10:11 pm

    Des conditions de voyage vraiment difficiles et pas toujours trés confortables; C’est vraiment l’aventure. Mais bravo Luis , tu gardes ton humour et je vous promets d’être un peu plus patiente.. mais je suis tellement “addict” de votre blog!!!
    Bisous à tous les trois

  5. eugenio silva on January 24th, 2008 12:26 am

    Bravo pela viagem, apesar das duras condições de viagem a paisagem é realmente magnífica

  6. oscar eduardo de brito on January 24th, 2008 11:30 am

    Yo lo voy acompañar en el viaje desde la pagina
    mucha suerte, esto recien comienza.

    oscar

  7. Apiko on January 24th, 2008 12:17 pm

    Bravo LPC, lo has entendido bien1
    No se ofendan que lo que les digo no es por mal, al contrario. No tengo ninguna duda que le tema está siendo bien tratado.

    Es solo que yá soy un Falcon-adicto, y yá no paso sin mi dose diaria!!!!

    Yá se hicieron más de 1800 Kms. Y en esas condiciones es obra!

    “Desculpem qualquer coisinha….!”
    Apiko

  8. Cameraman Metalico on January 24th, 2008 7:53 pm

    Pasan a Chile o se quedon en Argentina?
    CM

  9. tomas de brito on January 24th, 2008 10:03 pm

    Estan don quijote y Sancho Panza quien es el burro

    Estan locos pero me encantan los locos

    Santi

  10. carla neto on February 8th, 2008 11:12 pm

    O vosso carro é bué da fixe!!

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