Dia 23
Diário de viagem, Especial Visão 14/FEV

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Para esclarecer que o magnífico parque de campismo em que nos encontramos não é no enorme poço petrolífero chamado Comodoro Rivadavia, mas no lugar onde se dá uso ínfimo aos milhões e milhões de petro-dólares que são sugados da vizinhança. Rada Tilly - não perguntem de onde vem o nome -, é uma cidade, exagero, talvez um pueblo-dormitório, onde profileram petro-filhos e petro-filhas, cujos pais trabalham para lhes proporcionar os luxos que eles próprios não tiveram, tendo-os agora a triplicar.

Rada Tilly é também lugar de eleição para os pseudo-magnatas da Petrolândia terem o seu “chalet” de veraneio. Entre os que ali moram e, portanto, os que estão sintonizados em modo estival, decorre um concurso arquitectónico para a casa mais exibicionista do sítio, sinal de supra-estatuto, em frente à praia de Rada Tilly, de águas temperadas, onde as crianças estacionam as suas moto-quatro, gravitando em grupos de calções de banho de marca, elas deslizando em patins em linha, com óculos escuros Betty Boop, ostentando um indisfarçável orgulho burguês, caminhando ao longo do paredão, descrevendo circulos sobre si próprios, às voltas na pequenez de Rada Tilly, sem mais nada que fazer se não aguardar pela noite para fazer o mesmo em traje semi-informal.

Ao longo desta mini-marginal, em matéria de moradias, uni-pessoais ou não, quem mais pode, mais mostra, como se vigorasse um PDM à portuguesa - vocês sabem do que eu estou a falar -, cada uma diferente da outra, gerando um conjunto desordenado de exemplares “wild duck”, “ad-hoq”, “in-extremis” com extremo mau gosto. Tanto se encontra um projecto, tipo-hacienda mexicana, como uma cópia de residência de sultanato, como uma vivenda clássica de Albufeira, a imitar o árabe, como um trabalho de autor mini-Miami, como uma réplica de um templo romano, com estores eléctricos, como uma casa-modelo norte-americana do interior, com renas em azulejaria e pais natal residuais, com barbecue, como modernices latinas à Ibiza, como exemplares pós-modernos de arquitectura futurista, outra vezes retro-vanguarda, outras em minimal repetitivo, todos para albergar os grandes senhores da proporcionalidade, pequenos, se comparados aos grandes industriais do petróleo, que normalmente o encaminham para a Buenos Aires, capital do centralismo, antes de o exportar para os verdadeiros tubarões, geralmente mais discretos. Jardins verdejantes e veículos topo de gama, full-extras, completam o retrato de neo-realismo invertido que se encontra em Rada Tilly.

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Já o camping onde nos encontramos, está nos antípodas. Para começar, a água que escasseia, coisa que se estende a Comodoro Rivadavia. Depois, o vento que abunda, sobretudo de noite. Ainda a estirpe de campistas que ali abunda. Os que não têm dinheiro para ir de férias para Mar del Plata, ou mesmo para Punta del Este, no Uruguai, ou até Puerto Madryn, mais em conta que os outros. São agrupamentos familiares, da avó ao neto, que deixam o rádio ligado o dia inteiro e as fraldas ao pé do mate, e aproveitam as brasas do churrasco do almoço para o churrasco do jantar, carne e mais carne, para engordar o que já está gordo.

Os balneários, sobretudo pela manhã, são lugares da mais genuína expressão individual de boçalidade, em sonoridade, em ritmos onomatopaicos, sobre os quais não me alongarei, a orquestra de escovas de dentes, a projecção inicial do excedente para o lavatório, a exibição de um à-vontade tão poderoso como se estivessem na sua própria casa, como se fossem pigmeus que nem com um escadote conseguem puxar o autocolismo, como se na sua casa tivessem de coabitar com os que assistem, pelos menos alguns, incrédulos ao espectáculo animal que é o homem em estado bruto, versão toillet.

Os autocolismos, diga-se, ao contrário quase tudo o resto, excepção às “duchas”, tinham água. Encontrar lugar para a “ducha” é uma arte. Há horários, constantemente alterados consoante a chegada de uma camioneta cisterna, mínima, que se esgotava em meia-hora. Era, portanto, uma questão de persistência dentro dos balneários, à espera de água improvável. Ou de mera sorte. Não estávamos para a primeira nem com a segunda. Foi, pois, com higiéne precária que seguimos para a a estação de serviço YPF, onde havíamos de montar escritório, já que era o único sítio de Rada Tilly com internet wireless, que no pueblo bem podia ser o nome de uma galáxia distante. E foi mesmo ali que conhecemos outro anjo da guarda, neste caso com raízes no Algarve. Oscar de Brito, o homem mais prestável e mais simpático da Patagónia central.

Estava na mesa ao lado, na companhia da sua filha mais nova. E, mesmo assim, começou com o pé esquerdo. “Brasileños?” Não, excelentíssimo desconhecido, portugueses. E foi aí que se soltou em Oscar um sorriso amplo, sem disfarçar alguma ponta de nostalgia. “Tenho família no Algarve”, exclamou efusivamente. Boa, Oscar. Há muita gente assim, sobretudo quando são algarvios. E Oscar apressou-se a explicar que Comodoro tinha nem mais, nem menos, que a comunidade portuguesa mais austral do planeta, três mil e 700 portugueses, intimamente ligados à história de Comodoro Rivadavia. E desde logo combinámos encontro no nosso escritório para o dia seguinte, no qual Oscar seria voluntariamente cicerone. No resto deste dia, fomos passear de carro, coisa que, dado as condições de falta de água e demais imperativos de viagem, nos confundia inevitavelmente com um gangue.

Fomos conhecer a cinzenta Comodoro Rivadavia. Pelos visto, um reduto português. A nadar em petróleo.

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Comentários

9 respostas to “Dia 23”

  1. Cameraman Metalico on January 25th, 2008 10:02 am

    Há sempre boas surpresas… Boa estadia. Abraço - CM

  2. cyberannie on January 25th, 2008 10:29 am

    Apparemment aucun plan d’urbanisme:chacun pour soi et la loi de l’argent…comme partout!! Mais c’est un peu décevant que les responsables d’une région aussi fragile ne prennent pas des mesures pour protéger l’environnement.
    Il y a encore du chemin à faire avant que “les citoyens du monde” prennent conscience des dangers qui nous menacent tous.cette prise de conscience passe sans doute par l’éducation
    Ceci dit bonne continuation

  3. Apiko on January 25th, 2008 11:42 am

    Cómo es posible que no haya agua!
    Y que la nafta sea racionada!

    Me acuerdo que hasta la carne, hubo un periodo que estuvo racionada….

    Grandes portugueses, por el mundo afuera.
    Siempre encontrarán un alma amiga.

    no se pierdan “El Gorosito”

  4. Apiko on January 25th, 2008 12:52 pm

    La Villa tomó el nombre del marino español Francisco Everardo Tilly y Paredes, que durante los años 1794 y 1795, combatió y batió a la Armada Portuguesa en el Río de la Plata. Sin embargo, la realidad indica, que fue el marino español Juan de la Concha, el que al mando de un bergantín fondeó en Rada Tilly.

    Una curiosidad, para ustedes!

  5. SS on January 25th, 2008 4:19 pm

    “Dei# com om v/ blog e fiquqi interessado em vos seguir…
    Acho, no entanto, que estão a ser demasiado intimistas na aproximação ao país e ao percurso. E as fotos reflectem isso mesmo!
    É uma opção.
    Mas é pena, porque daqui não se vislumbra, pelos v/s olhos, a verdadeira realidade da v/ estrada(sempre parcial, obviamente).
    Viajar é descobrir e contactar uma realidade diferente do n/ quotidiano. E há sempre coisas novas para ver e relatar.
    Mas quando se está mentalmente engajado e cheio de preconceitos estereotipados dificilmente se enxerga mais além do que o próprio umbigo…
    Vocês estão a tentar descobrir alguma coisa ou a tentar provar uma ideia preconceituosa de suposta superioridade ocidental?…
    Cuidado…

  6. oscar eduardo de brito on January 25th, 2008 6:41 pm

    bem vindos a la capital Nacional de petroleo y del
    viento ( Comodoro Rivadavia)

  7. margarida sousa on January 26th, 2008 6:58 pm

    realmente os portugueses quando estao fora do nosso pais sao fantasticos e como sempre souberam atende-los como deve ser bem hajam

    é verdade o falcon 006 ja esta arranjado ou nao ?

    beijinhos para todos e continuaçao de optima viagem

  8. cyberannie on January 27th, 2008 9:53 am

    Merci Apiko pour ces précisions

  9. Joao Mesquita on January 27th, 2008 11:46 pm

    Neste texto esta um pouco descrito umas das coisas que mais gosto num português, o facto de ser um aventureiro, de ir para longe, procurar o que não tem, mas mantendo sempre aquele pequeno sentimento de ser português, e isso de facto nesta sociedade actual é de louvar.

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