
Sob os auspÃcios de Oscar de Brito, que fez questão de nos ir buscar cedÃssimo ao parque de campismo de Rada Tilly, fomos à descoberta das idiossincrassias de Comodoro Rivadavia. Oscar é daquele género de pessoas que outra coisa não há fazer se não gostar. Tem prazer em planear o nosso itinerário, marca horas, agenda encontros, organiza entrevistas. Quando soubémos, tÃnhamos uma visita marcada numa rádio local, num programa chamado Música de Portugal, feito e apresentado por uma senhora multifacetada, chamada Maria Amado de MartÃn, que para além da actividade radiofónica também é “presidenta” da Associacón Portuguesa de Comodoro Rivadavia. “Muy bien, Oscar. Disponha”.
A caminho da Rádio FM 95 Plus, de Comodoro, Oscar sintonizou a voz aguda de Maria Amado, ou simplesmente Maria, como é conhecida entre os amigos. E, esforçando-se para apresentar o seu melhor português, Maria recebeu-nos de braços abertos, juntamente com o marido, que é argentino, não gosta de rádio mas, como o colaborador de Maria meteu férias, estava a cumprir serviço “voluntário”.
Maria, que também é algarvia, como a grande maioria dos portugueses de Comodoro, veio para a capital do “petróleo e do vento” quando tinha apenas três anos. Pelo que as memórias de Portugal só as recuperou quando há pouco tempo teve oportunidade de visitar a sua terra natal, Boliqueime, “a terra do vosso presidente”. Pois é, de vez em quando é impossÃvel disfarçar aquelas distracções, aquele sentimento de abandono prolongado, só possÃvel em estado prolongado de abandono a que os imigrantes são condenados, não tendo de Portugal - leia-se Governo português, leia-se Secretaria de Estado das Comunidades -, um qualquer sinal de que eles, mesmo fora e tão distante, existem e ainda são portugueses, à s vezes mais portugueses do que os portugueses de Portugal. É claro que Maria, como grande parte dos imigrantes em Comodoro, já não são propriamente imigrantes. São, sobretudo, cidadãos argentinos. Orgulham-se disso, embora do Governo de Buenos Aires, tradicionalmente centralista, não recebam coisa diferente do que recebem de Portugal. É, portanto, uma comunidade habituada a viver fechada entre si. Mais a sul, não há nada remotamente parecido com uma comunidade. A norte, só há estrada para lado nenhum, embora rumo a uma Buenos Aires, mais distante do que a mera distância que os separa.

Não é, por isso, de estranhar que Maria Amado fale correctamente o castelhano argentino, cheio de particularidades, mas não consiga falar o português algarvio que lhe deixou as raÃzes longÃnquas. Que a desculpassem, portanto. Não havia nada a desculpar. A culpa não era sua. Nem de ninguém como ela, desenraizada e sem meios nem tempo para encontrar o que lentamente foi perdendo de portugalidade. Nunca a música, senhores ouvintes, nunca isso. Quando viajou a Portugal com o seu marido, Maria conheceu pela primeira vez Lisboa. E foi directamente para a Rua de São Bento, onde está guardado o espólio do seu coração, na Casa-Museu de Amália Rodrigues. A sua rádio, que Maria Amado faz questão de manter como era dantes, quando ela começou a fazer o programa, já vai para lá de uma década. Há coisa de um ano que o programa começa com um mini-episódio da vida de Amália Rodrigues. E, desta vez, antecipando a nossa entrevista, versava um concerto inesquecÃvel da diva em Itália, cantando em italiano. Foi algo estranho ouvir Amália em italiano, quase tão estranho como a sensação de que tÃnhamos andado à s volta na tômbola do tempo, aterrando décadas antes, noutro Portugal, neste de Comodoro, que ainda fala de Beatriz Costa e de Tony de Matos, dando-lhes uma vida que eles em Portugal já não têm, se não na ocasião em que lhe dedicam respeitosa efeméride. Pois bem, com Maria e com os seus ouvintes dedicados, não era assim. Até porque Maria Amado sempre resistiu estoicamente à s tentativas de uns jovens, que viajaram, como ela, a Portugal e regressaram com ideias - “modernices” - de remodelar o seu programa com música ligeira dos nossos dias. Não senhora. Aliás, não diz a senhora.
Maria estava algo stressada com o facto de três “periodistas” portugueses estarem prestes a irromper na programação do Música de Portugal. Maria estava à procura de um pretexto para nos apresentar a seguir ao tema de Amália e aos pedaços da sua história que o marido ia lendo de interlúdio, com voz esforçadamente radiofónica. E o pretexto estava encontrado: A passagem por Comodoro Rivadavia, há coisa de duas semanas, de um navegador solitário português, que está a dar a volta ao mundo e ali fez escala, para recobrar forças e fôlego, antes de dobrar o Cabo Horn. GenuÃno Madruga, o navegador, tinha-nos envido um mail para que nos encontrássemos precisamente em Comodoro. Mas, as nossas coordenadas não se encontraram. Maria ia ler uma mensagem emocionada da mulher de GenuÃno Madruga, carregada de saudades do marido e muito sensibilizada com a forma como a comunidade portuguesa de Comodoro Rivadavia o recebeu. Foi, portanto, em clima de grande emoção, que Maria Amado nos apresentou ao seu auditório.
Dissemos ao respectivo ao que vÃnhamos, porque estávamos, o prazer que era ali estar. Como se impunha, trocámos galhardetes. “Obrigado, Maria, pelo amável convite que Oscar fez com que nos fizesse. “Y muchas gracias, obrigado, a vosotros, a vocês”.
Pronto, para os amantes de Amália Rodrigues e do Música no Mundo, a notÃcia estava espalhada. Havia três portugueses em Comodoro, mais precisamente em Rada Tilly, mais precisamente na estação de serviço. Para quem não tivesse ouvido o que disse Maria, Oscar trataria de lançar o alerta. Até porque de seguida fomos visitar a bodega - cuidado: estabelecimento de comes e bebes -, de um português, e passar pela “peluqueria” (barbeiro) de um português, pelo hotel de um português, conhecer o português que antes ocupava o cargo de Maria Amado na associação, ainda um português que conhecia outros, que trabalhavam na panificação, no petróleo, nas mil actividades que fizeram com que se tornassem numa das comunidades mais importantes de Comodoro que, em boa verdade, não tem nativos, nem mesmo aborÃgenas, que não viram ali lugar para viver, dada a inexistência de água, que em Comodoro é muito mais cara que a gasolina.

Consultando a agenda de Oscar de Brito, engenheiro, que trabalhou muito anos na indústria do petróleo e actualmente dá formação na arte de extrair petróleo, empenhadÃssimo em organizar a nossa vida, verificámos que para o dia seguinte tÃnhamos um encontro formal na Associação Portuguesa de Comodoro, para conhecer ao vivo e a cores como são os nossos portugueses daquele reduto tão austral. Passou-se o dia nisto. De português em português, de Comodoro Rivadavia a Rada Tilly. Até que fomos para o nosso escritório, nas bombas de gasolina. Antes de ir para o parque de campismo. Newsflash: Não havia água.
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Des rencontres bien sympathiques.Pour être moi-même une déracinée je comprends l’émotion et le plaisir qu’ont du éprouver Maria et Oscar en accueillant avec cette chaleur des Portugais du Portugal.
Quant à Amalia c’est l’icône qui incarne le Portugal pour les gens de ma génération!!JE l’ADORE.
Bravo Luis pour tout ce travail..Est-ce que tu as le temps de souffler un peu!!
Tem esquecido as marcas no mapa…
CM
voces têm feito um optimo trabalho , toca a continuar assim
Parabéns aos 3 aventureiros, pelos textos deliciosos, imagens lindas, pela partilha de experiências, por tudo isto e muito mais.
Directo para os meus “favorites”.
O Falcon é o 4º elemento mais cool da equipa.
Asta
Laura
Fogo meus o preto e branco fica mesmo a matar!!Comé que só hoje descobri esta cena???!!
É pá vocês deviam anunciar isto na tv senão a malta não sabe!!