
E o parque de campismo amanheceu exactamente como tinha adormecido: Sem água para tomar duche. Por respeito a toda a população do pueblo e da área limítrofre, resolvemos esperar até que a água chegasse. Fosse a que horas fosse.
Dia cheio. Cheio de suor, que o vento nocturno, que quase fazia a nossa tenda voar, dando-nos um banho de areia, aparentemente os únicos possíveis, cedeu lugar a um calor abrasador. De madrugada, fomos acordados pelas rajadas de vento tempestuoso. Tivémos de fazer o que podíamos, colocando pedras à volta da tenda, que parecia cada vez mais frágil. Acordámos, pois, com uma pasta de areia na boca, mas em terra firme. Foi só uma questão de recolher tudo o que voou para longe, ao longo do camping.
Muita actividade, portanto, para este dia que se afigurava longo. Algumas horas na internet na estação de serviço, seguido de uma visita aos campos de extracção de petróleo, onde também fica um enorme parque eólico, que até há coisa de um ano era o mais produtivo de toda a América do Sul. Esta junção de energia eólica, paradigma da ecologia, com as máquinas “sugadoras” de petróleo, paradigma inverso, não deixa de ser um paradigma do antagonismo em que vive Comodoro Rivadavia.
Melhor que isto, explicou Oscar de Brito, o nosso cicerone, só mesmo ser a energia eólica a alimentar a extracção de petróleo, o que já acontece. Há dois modos de ver a coisa: A ecologia a alimentar a exploração do principal recurso natural do sub-solo de Comodoro. Ou, na versão mais optimista - se esta for possível neste caso -, a ecologia a diminuir estatisticamente os malefícios da exploração petrolífera, teoria do mal menor. Em suma, nenhuma das duas é boa.
Tal como não é bom que Comodoro Rivadavia tenha a maior exploração de petróleo de toda a Argentina, onde estão instalados os gigantes petrolíferos mundiais, e a cidade e os seus habitantes não tenha nada do que lhe faz falta. Não há saneamento básico, não há tratamento de águas residuais, os esgotos são directamente encaminhados para as praias de Comodoro, onde nem os pássaros vão beber. A própria arquitectura da cidade, se é que assim se pode chamar ao conjunto desordenadíssimo de casas, está construída para encaminhar estrategicamente os seus detritos para o mar, já que a cidade está sobre uma longa colina, por sua vez sobre um monte, por sua vez sob uma montanha altaneira, onde se tornam pequenas as torres de 45 metros de unidades eólicas.

O facto de Comodoro Rivadavia ser explorada até ao tutano e não colher disso benefícios que se vejam, não é assim tão diferente de outras explorações petrolíferas noutros locais do mundo. É, aliás, uma característica inerente e perversa. As companhias petrolíferas retiram tudo quanto podem, o mais rapidamente que podem, durante todo o tempo que puderem. Mas os milhões, multimilhões, multibiliões que resultam do seu lucro, nuncas ficam. Voam, primeiro para a capital federal, centralista, depois para a procedência do investimento, depois para os imensos destinos do lucro.
Comodoro Rivadavia não está, por isso, contente. O município recebe dez por cento, meros dez por cento, de contas mal feitas, que nem por sombras são espelho do verdadeiro lucro que sai do seu sub-solo. É por isso que Comodoro continua a ser a cidade cinzenta que é, quando deixou de ser o deserto que era. Fez já 100 anos que os primeiros colonos conseguiram que Buenos Aires enviasse as suas sondas, então precárias, e as suas máquinas perfuradoras para procurar o que ainda hoje falta: Água. Ou, então, uma estação desalinizadora. Mas, para gáudio, ou para desgraça da cidade, descobriu-se abundância de petróleo. E tudo passou a girar em torno disso. E girará. Até que o que parecia inesgotável um dia se esgote. E o que já está mau se torne ainda pior.

E Comodoro Rivadavia, que cresceu à força do trabalho imigrante, de portugueses, de italianos, de sul-africanos, de holandeses, de espanhóis, das muitas diásporas que hoje a povoam, tenham que procurar novo solo para habitar, imigrando de novo, deixando Comodoro Rivadavia o deserto que antes era. E seco. Como a falta de água.
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Sem agua e ha tantos dias no Falcon, imagino o odor de jagunco. O blog esta la, marca o ritmo da arritmia.
Boa viagem, irmaos.
Bon reportage qui met le doigt sur l’envers du décor d’une ville pétrolière. Un espoir tout de même : le développement des éoliennes et peut-être un jour de l’énergie photovoltaÏque!!
Je vous souhaite beaucoup de courage pour supporter ces conditions de voyage assez pénibles sans eau sous cette chaleur et avec ce vent…Mais c’est cela “l’Aventura”
Je suis toujpours avec vous…
J’ai oublié de dire aux photographes que leurs photos en noir et blanc complètent bien l’idée que je me faisais de la région aprés lecture du texte.
Continuez!!!
Estou a adorar a vossa viagem!
O vosso calhambeque, as fotos, claro
E fico feliz pelas novas tecnologias não permiterem a passagem de cheiro! Esse banhinho vai ou não??
Boa viagem!!
Terrible realidad!
La realidad es dura pero tambien hay cosas positivas.
PS : Por favor alguna foto linda de Comodoro Rivadavia.
Tomas
Vim no dia 9 de Janeiro de uma viagem organizada que incluiu Buenos Aires,Puerto Madryn, Calafate e Ushuaia. Gostei bastante. Não há dúvida que a vossa viagem mostra-nos bem a realidade de um país imenso. O que nós vimos é o que de facto é mostrado ao turista.Hoteis bem situados, pequenos almoços bons etc, etc. Eu pessoalmente acho mais piada à aventura. Assim conhece-se melhor o país e a realidade do seu povo com todos os problemas inerentes. No entanto, do que vi gostei muito e achei os argentinos muito simpáticos. Continuem a dar-nos mais notícias interessantes e boa viagem.
Infelizmente é este o mundo em que vivemos, seja em que parte for, existe exploração, existe a ideia que o lucro é mais importante que qualquer outra coisa, mas pode ser que as mentalidades comecem a mudar, e por isso digo que tenho uma inveja do caraças de vocês que podem estar nessa bela parte do globo, e falar sobre os seus problemas, que tabém acabam por ser nossos.
Continuação de uma boa viagem
Fisgasse!!