
Para quem teve alguma dúvida sobre o “Work in Progress”, não se tratava de curar alguma ressaca ou coisa que o valha: A finalizar uma grande reportagem sobre Comodoro Rivadavia, que em breve será publicada na Visão.
Em suma: Mais um dia em Rada Tilly. O dia anterior foi complexo e triste, de resultado à vista do que Comodoro Rivadavia produz ao mundo, encaminhando para a capital federal, à s prestações de toneladas, parte dos 40 milhões de dólares que a cidade produz diariamente para exportar. Foi assim que uma vila piscatória perdeu tudo o que tinha. Caleta Córdoba fica a escassos quilómetros de Comodoro Rivadavia, tÃmida, escondida entre o mar e os enormes silos, como naves alienÃgenas que aterraram numa paisagem de mar, aparentemente lÃmpido, montanhas e uma espécie de vegetação árida que caracteriza esta região da Patagónia central, nos limites da provÃncia de Chubut. É nesses silos que o crude é tratado e transportado para os navios cargueiros que, vistos de terra, rompem o horizonte azul do mar, cruzando-se com o céu.
Foi um desses cargueiros, que passava a menos de cinco milhas, que condenou por longos anos as águas de Caleta Córdoba, agora uma vila piscatória que não pode pescar, que não pode viver do mar, o único meio de subsistência que tinha. O que Caleta Córdoba agora tem é um grupo de limpeza ambiental a retirar da sua praia todo o crude, agarrado como lapas à rocha e ao longo de todo o areal, onde prevalece um cheiro nauseabundo do próprio crude que, juntamente com os milhares de espécies mortas, formam uma pasta pútrida, enrolada em enormes mortalhas absorventes, que até mesmo os funcionários da protecção ambiental argentina, habituadÃssimos a isto e a pior, têm dificuldade em respirar por trás das suas máscaras de cirurgião.
Renée, o representante da vila de Caleta Córdoba, completamente desesperada com os resultados óbvios deste derrame, está mais preocupado com o que não é óbvio. E, como bem explica um dos responsáveis da equipa de protecção ambiental, o grande problema não está em retirar da areia o foco de poluição, mas sim do mar, da enorme praia, cheia de rochas no fundo do mar, que impedem a navegação, impedindo assim a sua limpeza conveniente, como se tal existisse. Resta, pois, acrescenta, “confiar nas propriedades biodegradáveis do mar”. E esperar que o tempo e as marés façam o que o homem não consegue.
Neste caso, o Governo de Cristina Kirchner e as próprias petrolÃferas - que dispõem de um fundo comum para actuar “atempadamente” sobre as tragédias ecológicas que elas próprias provocam -, a reacção foi rápida, para impedir que muitas outras espécies morressem, dando à praia os seus cadáveres. Na zona existe uma enorme população de pinguins, uma das espécies, portanto, em risco. Foi chamado ao local a IFAW (Internacional Fund for Animal Welfare), uma organização global de emergência, que reúne especialistas de todo o mundo, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Grã-Bretanha, Alemanha e, como não podia deixar de ser, argentinos, dos diversos parques naturais, que acorreram a
Caleta Córdoba para se juntar aos que já estavam, com instalações adaptadas num antigo armazém abandonado.

O trabalho da IFAW, que tinha estado por exemplo na Galiza, com o Prestige, ou no Exxon Valdez, na baÃa Prince William Sound, no Alasca. E, ao IFAW, de nada serve comparar a dimensão de desastres ecológicos. Um desastre é um desastre. Ecologia é ecologia. E há incompatibilidade nos termos. O trabalho da IFAW consiste em salvar o maior número de espécies possÃvel e devolvê-las ao seu meio ambiente. No caso de Caleta Córdoba, a maior das espécies ainda ao abrigo do IFAW era em maior número pinguins, que tinham de ser limpos, alimentados, recuperados, para que pudessem voltar ao mar. É claro, a outro mar.
Regressámos em silêncio ao parque de campismo de Rada Tilly, a pensar no que nos disse um brasileiro, coordenador dos trabalhos da IFAW, funcionário da Petrobras. Enquanto houver exploração de petróleo haverá sempre Prestiges e Exxons Valdez e desastres ecológicos e irreparabilidades no planeta, e animais que morrem e homens que sofrem e comunidades que desaparecem e homens que lucram, e máquinas que sugam o subsolo e recursos naturais que se esgotam, e gerações,
e gerações atrás de gerações, que hão-de sofrer com isso. Não há tecnologia que possa valer aos filhos dos filhos dos filhos, nossos, de um planeta que não nos pertence.
A manhã acordou pacÃfica, nós ansiosos de voltar à estrada, em direcção a San Julian, a mais de 450 quilómetros, etapa de respeito para o Falcon, que andava a demonstrar crises de ignição matinal. Houve duche, coisa relevante, e toca a arrumar o que já estava naturalmente desarrumado e o que o vento desarrumara também. A tenda é grande, mas parecia minúscula, já incapaz de conter tanta “organização” horizontal e vertical, em amontoados de coisas ou partes de outras. A tenda estava cheia de areia, atirada pelo vento. Quanto ao pó, igualmente abundante, não tÃnhamos a certeza se fora o vento que o trouxe também ou se meramente o tinha levantado.
A tenda é alta, excelente para andar sem luz aos tropeções à procura da lâmpada-camping ou da lanterna de mineiro do elemento francês, um tanto ou quanto David Lynch, versão Dune. A tenda tem fechos éclair, que prendem sempre. A tenda tem um duplo tecto que pouco protege do frio ou da chuva que ainda não apanhámos. A tenda tinha espigões para poder esticar a sua arquitectura, fazendo, supostamente, tudo o que agora ela não faz. A tenda tem três bolsos interiores de rede. Só para saberem.
As malas e as mochilas foram arrumadas com eficácia profissional, depois limpámos o interior da tenda, depois enrolámos a tenda, depois enrolámos o duplo tecto, depois encaixámos com dificuldade a tenda dentro da sua mala, depois encaixamos a tenda dentro da sua mala dentro de um local especÃfico dentro da mala do Falcon, depois colocámos toda a bagagem, mais os tachos e o tripé e o material, depois o excedente de roupa e toalhas, depois colocámos-nos em cima, para acondicionar, depois tentámos fechar a mala do carro, que parecia pronta a explodir de sobrelotação, depois acondicionámos mais um pouco, depois tentámos de novo. E, só depois, depois da mala do carro fechada, depois de um último abraço a Oscar de Brito, que se tinha vindo despedir de nós, só depois, verificámos que a chave do carro não estava na ignição. Também não estava em nenhum dos nosso bolsos, também não estava nas mochilas de fora, também não estava no chão. Encontrámos quatro isqueiros, dez pilhas, um rolo de papel higiénico, um maço de tabaco terraplanado. E, claro, também não existe um segundo jogo de chaves. Habitualmente, as chaves estão colocadas nos bolsos interiores da tenda. Crise.

Monsieur Pazat denotava boa dose de stress. Mas estava ainda pouco consciente do stress que havia de ter quando percebesse o grave que era a crise, coisa que ainda não tinha percebido. As chaves estavam provavelmente dentro da tenda e a tenda estava dentro da mala do carro e nós, portanto, estávamos sem chave para abrir a mala do carro, para retirar todas as malas, para assim chegar à mala da tenda, voltar a abri-la e retirar as chaves. Era só isso, portanto. E isso não era pouco. Reunião de emergência, debaixo da sombra de uma árvore.
Ultrapassou-se rapidamente a primeira ideia, de pura e simplesmente arrombar a mala do carro. Bom… não havia muito a fazer, se não retirar o banco traseiro. O que fizémos, com sucesso. Agora era só tentar abrir uma das mochilas e despejá-la lentamente, depois outra, mais uma, até chegar aos confins da tenda e, com um ferro em gancho, tentar puxá-la para nós. Foi uma operação penosa - a cargo do nosso espeleólogo francês, sem a sua lanterna de parietal -, devidamente colocada num saco no fundo da mala, que demorou mais de uma hora. E a chave lá estava, no seu bolso. E Oscar fartou-se de rir com o filme, mais tarde, nas bombas de gasolina, quando nos julgava já em viagem. Seguimos caminho, em direcção a Puerto San Julian, onde chegámos já de madrugada. A menos de um quilómetro do parque de campismo, resolvemos parar numa estação de serviço para tomar um café e comer qualquer coisa. O Falcon tinha reservada uma surpresa: Não pegava. E, pronto, eis o hotel Falcon “all over again”. Não havia mais dores para ter no corpo. Por sorte, havia um mecânico na estação de serviço. Por azar, estava com os copos. E, julgando-nos “brasileños”, declarou que estava de férias. E, depois de uma tentativa frustada para desmontar o carburador, a única coisa que sabemos fazer, restou-nos dormir.

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grande reportagem!todos os elementos presentes: aventura,informacao preciosa,imagens incriveis e,de quebra,o senso de humor inquebrantavel!!
estamos juntos!
mg.
Hola compañeros, les tengo que decir que me gustó mucho vuestro trabajo.
Muy buen texto!
Muy buenas fotos!
Ah, y yá me olvidava! Grande “Falconazo”, que personalidad!
Y ahora también grande “Carpaza” (Tenda).
Una sugestión, porque no se cuelgan las llaves en el cuello?
Cuidensé, muchachos!
Acompanho diariamente essa fantástica viagem por uma terra que desde há muito sonho visitar. As fotos são de muita qualidade, o que não é de estranhar por serem de dois excelentes fotógrafos, e os textos traduzem muito bem o que aparenta ser o ambiente do grupo - humor, descontração e curiosidade jornalÃstica.
Creio que a escrita se faça directamente para o blog, sem grandes cuidados de verificação da ortografia, mas por vezes não são só as gralhas que ocorrem, os acentos graves e agudos andam baralhados. Senhores, um pouco mais de cuidado só vos ficaria bem. Não há por aà um corrector ortográfico?
http://corta-fitas.blogspot.com/2008/01/nas-vsperas-do-30-dia.html
Superbes photos!!!texte à la fois trés informatif et interessant quand il s’agit de traiter un sujet sérieux et trés humoristique quand ilest question de décrire les péripéties du départ!!!!
Je suis d’accord avec Apiko pour ne pas perdre vos clés attachez les autour du cou!!!!
Un grand bravo.
ola pessoal continuam a escrever e a fotografar como gente grande so espero que continuem com esse humor e camaradagem bejinhos para todos principalmente para o Guillaume