Dia 30
Diário de viagem

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A província de Chubut ficou para trás, logo a seguir a Rada Tilly. Se o carro não tivesse avariado, nunca teriamos conhecido “in loco”, provavelmente a cidade mais deprimente da província de Santa Cruz. Puerto San Julian é uma cidade claramente do interior mas, como o próprio nome indica, com porto e uma infinidade de alegorias à rota de Fernão de Magalhães, que por ali assentou arraiais na sua expedição quinhentista. Tudo o que é comércio - e não é muito -, gira à volta do navegador português.Na estação de serviço, onde acordámos ainda de madrugada, em exposição para um agrupamento “borracho” que vinha da discoteca, havia café mas não havia mecânico. Aliás, na cidade havia três mecânicos de serviço. Um, já sabíamos, estaria por esta altura com uma ressaca de cinco estrelas. Um segundo que, informaram-nos, tinha chegado de férias, como nós, de madrugada, e estava a descansar das férias que tivera. E Pepe, que devia de andar por aí.Em Puerto San Julian não se nota a simpatia habitual argentina. As pessoas são mais fechadas, menos comunicativas com quem está de fora, até parecem algo ansiosas de as ver partir. Pode ser um mero disfarce. Pode também ser que o facto de estarmos muito queimados do sol, um de nós ter uma t-shirt a dizer “United Kingdom of Ipanema”, e circularmos de calções e chinelos nos condenassem definitivamente a “brasileños”, que nos desculpem os próprios. Já se sabe que, sobretudo por causa de questões futebolísticas, argentinos e brasileiros gostem de manter uma distância saudável entre si. Em Puerto San Julian não havia de ser diferente. Só pior, dada a pequenez.Foi, assim, por exclusão de partes, que conhecemos Pepe - “el macânico auto” -, que estava à porta da sua garagem, com ar de poucos amigos, com um companheiro e mais o seu cão, ainda “puppie”, que não conseguia estar quieto dois segundos, ao contrário de Pepe, que não parecia minimamente interessado em executar qualquer movimento.Pepe fez o favor de olhar para nós, nada dizendo. “Hola Pepe, que tal?” Nada. Aportuguesando: “És o Pepe?” Nada. “Olha lá, és o Pepe?” A ferros: “Si”. Aleluia, tínhamos conseguido pôr a falar o único mecânico disponível em Puerto San Julian. Já era um começo. Em poucos minutos conseguimos também apresentar o nosso caso, fazendo uma descrição abreviada dos sintomas do 006: “Pega, mas não arranca, Pepe”. Será que o dom Pepe se dignaria a acompanhar-nos à estação de serviço, onde se encontra o “paciente”, com um francês impaciente a bordo.Pepe, magnânime, declarou que estaria lá - a coisa de 500 metros -, em meia-hora. Uma hora depois aparece Pepe “y su muchacho”, o amigo, com um rabo-de-cavalo sujo de multi-dias, barba a acompanhar, roupa em sintonia, sapatos esburacados a combinar, ambos dentro de um Ford Taunus, amarelo, que na frente tinha um símbolo da Ferrari, com uma boneca semi-despida em porcelana. Pepe aproximou-se do “coche enfermo” e declarou, seguro e ríspido: “Abre-lo”. São ordens, dom Pepe, capot aberto para o especialista fazer a primeira consulta. “Dá-lhe”, disse Pepe. “Cerra-lo”, disse Pepe. “Dá-lhe”, disse Pepe. “Cerra-lo”, disse Pepe.

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Diagnóstico preliminar: “Ignicion”. Então quer isso dizer que não era o carburador? Incrível, Pepe, julgávamos mesmo que era. Numa exibição algo temerária, Pepe juntava os dedos a um fio, transformando-se ele próprio em fio condutor. E declarou de novo: “Dá-lhe”. E, logo depois, “cerra-lo”. “Dá-lhe. Cerra-lo. Dá-lhe. Cerra-lo. Dá-lhe. Cerra-lo”. Era a ignição, sim senhor, resultado de “problema eléctrico”. Usando um simples fio, Pepe fez uma ligação directa, dizendo-nos que assim já podíamos levar o carro para a sua oficina, onde ele iria ter depois comprar uma ignição nova. E isso não é caro, Pepe? “Que no?!”. Então, “dá-lhe”. Quatrocentos “dá-lhe, cerra-lo” depois Pepe disse que o carro estava finalmente operacional para a viagem. “Muy bien, Pepe. Quanto te devemos?”Pepe é chileno. Trocou o trabalho nas minas, onde conheceu vários “brasileños”. Mas nós somos portugueses, Pepe, de Portugal, Pepe. Pepe respondeu com uma pergunta: Onde é que isso fica no Brasil? Bom, Pepe, aliás, mau, Pepe, na Europa, Pepe. E, para abreviar a longa história dos descobrimentos quinhentistas, Pepe, assim: Portugal tem o mar atlântico de um lado e a Espanha do outro. Fomos para o mar, Pepe, e descobrimos o Brasil, Pepe. “Vale?” Valia 150 pesos a reparação. “Adiós, Pepe. Suerte, Pepe”. Suerte de volta para “nosotros”, agora que éramos amigos, exemplo perfeito de como uma ignição pode estreitar laços entre os povos.

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Depois de um almoço de “cordero patagónico” e uma garrafa de tinto, à estrada sem mais delongas, para percorrer mais uma boa fatia de Ruta 3, para depois apanhar a estrada para El Calafate, o nosso destino do dia. Atestar o carro em cada estação de serviço que víamos pelo caminho, porque, embora não estivéssemos à espera, já que o mapa informava que a estrada para Calafate era “duplo verde”, supostamente boa. Era, afinal, uma estrada de 200 quilómetros de deserto, um deserto banhado ao longe pelo rio Santa Cruz, atravessado de nada, lamas, avestruzes, cavalos e ovelhas. Beleza em estrado bruto, só compatível com a dureza da estrada, com o sol intenso e, um clássico, tínhamo-nos esquecido de comprar água. Havia, pois, que rezar para que o Falcon não avariasse nesta estrada sem-fim, de montes e vales de perder de vista, de cores que alternam como em “slide show”, sítio de tantos sítios, solitário, imenso.Esquecemos a possibilidade de avaria e acelerámos. Não seria bom apanhar a noite. Levámos perto de seis horas para fazer esta estrada, até que esta apanhasse a Ruta 40, asfaltada, para El Calafate. Instantaneamente, fomos acometidos de alegria juvenil, cantando êxitos portugueses pop-pimba, como crianças no intervalo da escola. Até o Guillaume cantou uma versão afrancesada do “larépipú”. E eis que chegámos a El Calafate, uma avenida de turismo, para os turistas. Havia três parque de campismo ao dispôr: Um da polícia, que dispensámos, não fosse alguém lembrar-se de fazer uma inspecção ao carro. Aterrámos num camping semi-selvagem, de um simpático casal de bebedolas e uma filha menor. O homem avisou-nos logo: Não há água à venda no camping. Só cerveja. Ficámos.

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Comentários

7 respostas to “Dia 30”

  1. cyberannie on February 2nd, 2008 8:20 am

    Bon alors cette fois-ci c’est un problème d’allumage si j’ai bien compris.
    Superbes photos mais il ne faudrait pas que la Falcon vous lâche entre deux villes!!!!
    Décidément les Brésiliens n’ont pas la côte en Argentine.
    Bonne continuation

  2. Cameraman Metalico on February 2nd, 2008 12:08 pm

    Nunca mais chegam ao Chile… quanto são 150 pesos? E quanto custa atestar? Continua o Verão?
    Aqui já faz algum calor de Primavera…
    Abraços - CM

  3. Apiko on February 2nd, 2008 5:39 pm

    “……descendiendo con el motor en ralenti hacia San Julián, Fabián se sintió hastiado. Todo lo que hace dulce la vida de los hombres se agrandaba hacia él: sus casas, sus pequeños cafés, los paseos…..”
    Antoine de Saint-Exupery, “Vuelo Nocturno”

    Um poco de mi Patagónia mitológica

    Un abrazo
    Apiko

  4. sofia on February 2nd, 2008 7:38 pm

    cada vez que venho ler cronica do dia de viagem fico em pulgas para ser como estão e sobretudo como se portou o falcon 006, se conseguirem chegar ao fim com esse caRRRO QUANDO CHEGAREM A pORTUGAL SAO HEROIS MUITOS BEIjINHOS SOBRETUDO PARA LPC

  5. MARGARIDA SOUSA on February 2nd, 2008 7:40 pm

    OLA PESSOAL COMO VAO ESSES OSSOS, ESPERO QUE ESTEJA TUDO DO MELHOR, POS ESPERO QUE CHEGUEM AO CHILE O MAIS RAPIDO POSSIVEL NAO VA O FALCON FAZER DAS DELE MUITO BEIJINHOS PARA OS TRES

  6. Edgar on February 3rd, 2008 5:11 pm

    Se precisarem de mecânico na Patagónia para o carro recomendo a garagem “El Portugués” em Bajo Caracoles… Não se esqueçam de ir a El Chalten, vale bem a pena!

  7. carla neto on February 8th, 2008 11:30 pm

    Fogo meus, não há lá gajos mais giraços!!:(

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