
Correcção: Perito Moreno não é propriamente o maior glaciar do denominado Parque Nacional dos Glaciares. Mas é mesmo o mais imponente, e de longe o mais o visitado, dado a sua proximidade a El Calafate. Tivémos sorte. O dia começou soalheiro, mas lânguido. Um certo cansaço apoderara-se de nós, talvez porque não estacionamos numa cama há coisa de um mês, talvez porque estacionámos vezes demais no carro, talvez porque este avarie demais, talvez porque continuamos estacionados no chão, ao abrigo de um tenda, desta vez convenientemente abrigada do vento patagónico que, dizem-nos os patagónicos, mais a sul, chega mesmo a enlouquecer as pessoas.
Não era pelo clima o nosso cansaço, era pelo nosso clima, que soprava desfavorável, traduzindo-se em pequenos silêncios, em pequenos nadas, em pequenos detalhes, convertendo-se num tudo, num silêncio maior, por vezes de incomodidade, outras vezes simplesmente silêncio, bom, solitário, solidário. Viagem são viagens. Viaja-se sempre para o ponto de regresso, viaja-se sempre para um determinado ponto, indeterminado, onde mais vez nenhuma se estará, regressando-se sempre ao ponto indeterminado, determinado, onde já se esteve. A linha recta é a descompasso, o cÃrculo nunca se fecha, é sempre arbitrária a ordem dos factores, as predisposições nem sempre determinam as disposições, cedo as fraquezas se revelam, tarde se revela a força, sendo o inverso verdadeiro, sendo tudo aceitável, tendo todos e nenhum a razão que os outros têm. E tudo se resolve. E um café, que não fosse um sucedâneo do dito, podia ajudar.
Pois bem, estavámos no lugar certo. Descobrimos que em El Calafate, como em quase toda a Argentina, vivem muitos descendentes dos descendentes de italianos. E foi mesmo aqui que encontrámos o melhor café que bebemos em todo o território argentino, o “restrito” mais restricto dos rectrictos, o mais parecido que há com a boa da bica. Juntou-se a isto outra raridade: Internet com “wi-fi”, o paraÃso de quem está em viagem, embora com lentidão de molusco “gasterópode”, vulgo “escargot”. Bebemos café atrás de café, como adictos que reencontram o seu veneno, antes de viajar para o Perito Moreno, a coisa de 70 quilómetros de El Calafate. Apesar do calor, o 006 manifestava intranquilidade à primeira ignição do seu fôlego. A longa estrada que nos trouxe a El Calafate tinha deixado marcas.

Já não sabÃamos da maçaneta para abrir o vidro da janela do condutor, o que se resolveu bem, porque tinha caÃdo também a de trás e podÃamos usá-la avulso. A placa de matrÃcula traseira estava prestes a abandonar-nos, mas não havia problema pois tinha aparecido um parafuso à frente, que servia na perfeição atrás. Alguns fios tinham-se desligado por baixo do “tablier”, mas também isto não constituia problemática, pois eles não estavam ligados a nada que funcionasse. Uma das portas traseiras já não abria, agora a outra precisa da força de duas pessoas para a abrir. Não faz mal: Somos três. Ao longo do tablier, existem pelo menos três camadas de pó acumuladas, que ao sol adoptam uma coloração dourada, até atraente, mÃstica. Em El Calafate, o Falcon circula como uma peça de museu em ambulatório, fazendo parar na rua os regimentos de japoneses, armados até aos dentes de material de registo digital, sorriso e vénia. Descobrimos então algo inolvidável. Com excepção dos verdadeiros nativos, perceptores de idiossincrassias, passavámos por nativos para as hordas de turistas que desfilavam na avenida, cruzando-se, desviando-se uns dos outros, interrompendo-se para desprender os seus sacos de compras, arriscando mesmo a perguntar que espécie de lata-velha era a nossa, para onde Ãamos com ela, e por que milagre nela tÃnhamos chegado. “Aceite y água”, caros “come-on”, com “aceite y água” e, claro, sem dinheiro, facilmente se dispensa as viaturas TT que muitos ostentam em El Calafate, passeando som MP3 em colunas de grande potência, olhando para os seus computadores de bordo que os avisam da mais pequena maleita nos seus gama de topo.
E, depois de meia-dúzia de cafés, por cada unidade de nós, saÃmos, julgávamos, para o Perito Moreno, que há milhões de anos não era um todo, mas a parte do enorme glaciar que era o Parque Nacional dos Glaciares. No seu avanço imparável, este rio de gelo foi moldando a paisagem em pinceladas de erosão, escavando na montanha os seus vales, escorrendo escarpas, hoje escaláveis pelos mais corajosos, os mais apetrechados ou os mais inconscientes. O Perito Moreno é uma enorme parede instável, à beira do lago Argentina, 5 quilómetros de largura, 60 metros de altura. Os barcos que ali fazem viagens turisticas, sob o calor intenso que se sente no Verão, não arriscam chegar muito perto. O risco de derrocada, os famigerados “rompimientos”, é muito real. Tão real como o aquecimento global, que tem reduzido a extensão do Perito Moreno, tão real como as explorações mineiras que, ainda distantes em quilómetros, lentamente se aproximam, subversivos, poluindo o ar e as águas lÃmpidas que ainda rodeiam os glaciares, afinal o que dá vida à região e o que deu vida a um lugar chamado El Calafate, onde ainda estávamos, de olhos postos nos dois pneus traseiros, ambos em baixo. Pois era. Não era. Não seria hoje que havÃamos de fazer a desejada viagem ao Perito Moreno. Fomos antes de “viagem” para um feiticeiro dos “pneumáticos”, que olhou para o que nós já tÃnhamos visto e disse, jactante: “No tienes solo um furo. Tienes dos”. Então até já, vamos almoçar e talvez ingerir mais umas boas doses de cafeÃna, enquanto o Falcon ficava entregue aos cuidados de “pedicure” de um distinto senhor, com uma boina gaúcha, ainda com pedaços do seu almoço no canto da boca.

Posto isto, em El Calafate ficámos, a fazer o que fazem que os turistas que ali ficam: Nada. À espera que a noite chegue, lá para a meia-noite, que aqui é mesmo meia, espreitar o boliche local, onde há animadores do Quebec a dançar sobre um palco minúsculo, os vereaneantes argentinos se misturam com os estrangeiros e os chilenos se misturam com os chilenos. Tudo à mistura, chega a manhã. E com a manhã chega o café. E com o café estamos prontos para partir. Para o Perito Moreno. Finalmente.
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Ne vous laissez pas abattre, les gars; ce sont les imprévus d’un voyage qui font par la suite de bons souvenirs!!!
attention aux palpitations cardiaques et aux insomnies avec toute la caféine que vous absorbez!!!
bon courage pour la suite
Felicito-vos por todas as crónicas diárias que têm feito e que tenho lido com agrado. O meu especial interesse em acompanhar-vos é o facto de no inÃcio do próximo mês poder disfrutar do cruzeiro que me conduzirá de Buenos Aires até ValparaÃso, durante 15 dias, tocando lugares por onde essa equipa está a passar (Calafate é um dos que não poderei disfrutar). Desejo-vos uma boa continuação e …boas crónicas.
Já agora, digam-me como é possÃvel conciliar o verão que está a decorrer aà … com o frio dos glaciares… que tipo de roupa deverei levar?
ouvi,uma vez,um tirano dizer que se trabalha melhor sob pressao. deve ser verdade.voces estao muito inpirados!o stress vai passar. o que estao produzindo vai ficar.para sempre!sem tiranizar,quero mais!!!beijos.
mg.
Cheeeeee! No se dejen agarrar por la “locura patágónica”, cyberannie tiene razón!
LPC, que escrita, loco! muy buena!!!
Siempre encontrarán decendientes de italianos, en todos lados…hasta en Portugal!
Y este site está cada vez mejor, hasta “Jony Palito”aparece!
Atención a las rutas de montaña que son muy traicioneras…. hay que darle bocina, muchachos!
Repito mais uma vez… não deixem de ir a El Chalten.
Venho por este meio, ba bari ba, informar que ao lermos os vossos artigos, vivemos um carrocel de emoções que nos leva à quinta dimensão.
Sem mais de momento,
os nossos cumprimentos.
ba bari ba
Vini, Alice e Rosarinho
É pá, vocês são fixes, mas um gajo não consegue ver os vÃdeos, podiam pôr essa cena mais á mão:)