
Tão grande, tão omnipresente, de cores multiplas, espelho de um céu sem fim, absorvendo-o, modificando-o, modificando-se. El Calafate anda ocupada de mais para lhe dar atenção. Ainda bem. Por enquanto, as vias compressoras do “progresso” ainda não estenderam os seus braços subversivos à s margens do lago Argentina, ainda incólumes. Digo ainda porque, a avaliar por El Calafate, os augúrios não são bons. A longa avenida comercial de El Calafate, assim chamado em honra do arbusto tÃpico do sul da Patagónia, tem todos os sinais que a Patagónia provavelmente dispensaria.

Provavelmente, El Calafate não. O seu crescimento só tem a ver com o turismo, o nacional, que viaja em massa da capital federal, e o internacional, que viaja em massa pelos destinos de eleição da Argentina. El Calafate seria provavelmente um deserto sem a dimensão que lhe deu o glaciar mais próximo, Perito Moreno, que por sua vez também não existiria sem o lago Argentina.Nessa teia de natureza, surgiu o paraÃso da artificialidade que é El Calafate. Estávamos de novo aqui, ali, a perder pesos, que não peso, mergulhados na inflacção de verão, com vista para as esplanadas cheias de cromos com mapas detalhados da região no regaço. Esta avenida só termina onde começa a estrada para o Perito Moreno.

Paradigma do chique: Cristina Kirchner, a recém empossada presidente da Argentina, pagatónica de gema, tem em El Calafate a sua casa de verão. No inÃcio de Janeiro honrou a região com a sua distinta presença. À saÃda, disse um até breve. A coisa funcionou como um chamamento.É também ali que fica bem delineada a hierarquia do sucesso. Em casas - tipo chalet nos Alpes suÃços -, telhados esguios, triangulares, “art nouveau”, suficientemente distantes e altivas para que se perceba que é ali que moram os empresários bem sucedidos de El Calafate, que não são forçosamente de El Calafate, nem forçosamente da Argentina. São de toda a parte, são do apelo do lucro, são do planeta da oferta turÃstica, da galáxia do investimento a curto prazo, do micro-cosmos do retorno.

Se fosse ao contrário, não teriam ao dispôr uma panorâmica priviligiada, directamente da sua sala de jantar com lareira automatizada, para as águas do lago Argentina. O lago Argentina, por enquanto, não se importa com isso. Ao longo das suas margens passeiam uns cavalos, nadam uns gansos, passam uns quantos carros, estacionam discretamente algumas “autocaravanas”, com elementos em “dreadlocks” com 12 quilos de pó, gorros com as cores da Jamaica, mortalhas “king-size”, para enrolar aquilo que sabemos.

El Calafate, estendeu-se um pouco para o seu interior, onde ficam as casas dos seus funcionários mais modestos, que não oferecem serviços, mas prestam-nos. Muitos estão a prazo. Voltam à Grande Buenos Aires quando termina o Verão. Estas casas, por isso, já não são como as outras, não têm estacionados jipes ao lado do jardim, nem ostentam sinais exteriores de riqueza, nem exibem extravagâncias “wild duck”, nem colocam cactos de porcelana junto à entrada da casa, nem se vestem diariamente como se fossem para a eucaristia dominical. É ali que vive a classe operária de El Calafate, a sua esmagadora maioria, os que circulam dias inteiros com um avental, equipados a rigor para servir, sorrindo esforçadamente quando lhe pedem menus, servindo simpatia artificial e copos de água com gás, produto andino, juntamente com os cafés.Estão nas traseiras de El Calafate, já próximo das margens do lago Argentina. E não é preciso ser vidente para perceber o que o futuro reserva à s margens delimitadas pelo perÃmetro de El Calafate.

O passeio marginal já está em cimento, já ali estão os banquinhos com vista para o lago. Vêm aà os restaurantes, os bares, as lojas, os ornamentos comerciais. El Calafate prepara-se para se esticar de novo. E, como não é provável que se alargue em extensão, está-se mesmo a ver que vai ficar à beira lago, transportando para ali o lixo que todos os dias se produz na avenida mais concorrida das redondezas.Há quem diga que não faz mal. O pedaço em questão é uma parcela mÃnima de natureza, que o homem ocupará. O lago Argentina é o maior do paÃs, e o terceiro maior de toda a América do Sul, tem uma superfÃcie total de 1560 quilómetros quadrados, muitas vezes protegidos pela sua própria curvatura, uma longitude de 125 quilómetros, variando a sua largura entre vinte e quarenta quilómetros. Ali repousa uma das maiores reservas de água doce do planeta. Espera-se que assim se conserve, conservado, protegido dos interesses, públicos e privados que, com delicadez falsa, já vasculham a região. Muitas vezes, através de falsas intenções ecológicas, até manietando ONG´s. Semente para outra lavra. O corpo principal do lago Argentina origina várias ramificações, navegando estas para os glaciares mais importantes da região: Perito Moreno, Upsala, Spegazzini e Bahia Onelli. Os braços do lago Argentina são o Upsala, o braço Norte, e os braços Rico e Sul, que se unem com o caudal principal do lago através do Canal de Los Témpanos, que por sua vez passa em frente ao Perito Moreno, desaguando ali, redimensionando sempre o glaciar.

A profundidade do lago Argentina varia entre os 35 e os mil metros. As suas águas dão origem ao rio Santa Cruz, que percorre toda a provÃncia com o mesmo nome, enorme, ao longo de uma região inóspita, visitando ocasionalmente pedaços de civilização ao longo do seu curso, desmaiando no oceano Atlântico. O famigerado calor das águas do lago Argentina, comentadÃssimo nas comunidades passageiras de turistas, deve-se ao chamado “leite glaciar”, uma invisibilidade delicada, produto da junção das águas de glaciares diferentes.O lago Argentina podia perfeitamente chamar-se lago Filberg, não estivesse o marinheiro Filberg perfeitamente baralhado quando ali chegou em 1873, julgando que tinha chegado ao lago Viedma, onde Viedma já tinha chegado em 1782. Confuso, Filberg recusou-se a baptizar o lago. Quatro anos depois, foi Francisco Moreno, pai de baptismo do Perito Moreno, na companhia de Carlos Moyano, que colheram os créditos da descoberta, nomeando então o lago Argentina de Argentino, sendo renomeado mais tarde de Argentino para Argentina. Seja como for, é o lago da vida desta Patagónia que, sem ele, seria outra. Ou, simplesmente, não seria.

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adorei tudo, sobretudo o azul…
continuação..
…….Y pensar que en 1990, El Calafate estaba indicada en los guias como una agradable villa de 1770 habitantes…..
Boas fotos!!
Excelente texto.
Óptimo trabalho!
Já agora, será que podem dizer qual é a altura do glaciar.obrigada
espectacular o texto e as fotografias , parabens
Magnifique camaïeux de bleus. bravo les photographes.
Merci Luis pour toutes ces précisions et ces informations sur la ville , le lac et le glacier
Bon travail
Continuez ainsi
Affectueusement
“…A IMENSIDÃO DO AZUL BRINCA COM A NOSSA ILUSÃO DE INFINITO E ETERNO…”
Bom dia de trabalho!!!
Entrar pelas vossas pupilas adentro e alojar-me quentinha e quietinha num canto da vossa retina!!
Ou transformar-me em Falcon e rolarmos os 4 por essas estradas fora!!!Sem limites!!
Sr. Luis tenho de lhe felicitar por sua escrita ao mesmo tenpo irónica, brincalhona, mas séria, inconformista e denunciadora de dÃspares realidades, como a beleza natural e humana e a “mesma” humana necessidade sequiosa de tudo possuir e destruir…penso que vai no bom caminho, eu estou consigo!!!
Muy bien… quasi en Chile? Y lo coche?
Abrazos desde Lisboa - CM
Pois é. O desenvolvimento turÃstico que se tem dado ultimamente e que no futuro será pior, deve-se ao facto do novo aeroporto ter sido construÃdo há somente 6 anos (agora já se torna pequeno para a afluência de passageiros que tem). O outro ficava a largos Kms de Calafate e era bem mais difÃcil lá chegar. Parabéns pelas fotografias que me fazem relembrar essas paragens. Continuo a acompanhar com entusiasmo o relato da vossa viagem. Força.
Fabulosas as fotografias. O texto, interessantissÃmo. Sinto-me um bocado angustiada, porém, de tão boa que é a descrição, pois imagino exactamente o ambiente social artificial e duro que está em causa. Ao lado de forças da natureza tão magnifÃcas como o lago e o glaciar parece que esta tacanhez que a mentalidade e o comportamento humanos à s vezes assumem, ainda se salientam mais, não é…?