
Último dia em El Calafate. Ritual de pesada monotonia, porém realizado com grande profissionalismo: Arrumar as mochilas, retirar da tenda toda a tralha, reagrupar o puzzle, recolher o lixo que a matilha de canídeos nocturnos desarrumou, em busca de pitéu, só encontrando maços de tabaco vazios, uma pilha de garrafas de água sem água, um pacote de mostarda a meio, porque não era de Dijon - ainda temos reservas de dignidade -, ainda uma toalha de banho, que servia agora para limpar a tenda no que era possível e para puxar a alavanca do capot do Falcon - El 006, que começou a abrir com dificuldade depois de três elementos robustos - nosotros -, se terem deitado em cima para ver as estrelas. A propósito, a dona do camping, que capturava como “photomaton” toda a actividade nocturna e diurna do grupo, veio até nós antecipar a cobrança e propôr um negócio, cujos contornos foi desvendando lentamente.
Atente-se na delicadeza do inquérito: Se o Falcon era nosso? Quanto tinha custado? De onde vínhamos, já sabia. Para onde íamos? Se tínhamos intenções de voltar a “su camping”? Sim, era nosso. Tinha custado oito mil pesos, inflaccionámos, o que fica sempre bem em El Calafate. Íamos seguir para Rio Gallegos, destino imediato. Quanto a voltar, contundente não.
Sendo assim, a senhora sorriu com a sua meia-dúzia de dentolas, nenhuma ao lado da outra e vaticionou que, como tantos que andam em viagem durante longos períodos, o mais provável era ficarmos sem dinheiro. Bom… Podia ser da hora da manhã, fase pré-copofone, mas a matrona tinha uma certa razão. Quando lhe dissemos que ainda seguiríamos até ao fim do seu mundo a bordo do “distinto”, subindo depois a difícil cordilheira dos Andes, foi um pagode. Mais recomposta, a nossa senhora, salvo seja, compôs ligeiramente o cabelo desgrenhado e afirmou-se preparada para nos comprar o “coche”. Oito mil pesos, sinceramente achava muito. Mas estava em condições técnicas de nos oferecer três mil pesos, a pronto, “cash”, “efectivo”, já (Para Cameraman Metálico: 652 euros). No melhor castelhano-argentino, dissemos: “É poco. Biste, loca?!”. Para traduzir-nos: Que não, “señora”, não podia ser. Mas se mantivesse a proposta de pé até ao fim da nossa viagem, seria com certeza com enorme prazer que faríamos negócio. Teria é que ser em Buenos Aires, onde tínhamos comprado o magnífico exemplar, que a senhora contemplava como se o carro tivesse incluído uma adega de série.

Disse a senhora, com tristeza estampada nos olhos - ou seria ressaca? -, que assim não podíamos negociar a propriedade do Falcon. Para além disso, nunca tinha ido a Buenos Aires. E também não seria desta. Ora bem… Como o negócio tinha ficado oficialmente inviabilizado, de repente a senhora lembrou-se que outro campista acidental, que entretanto “ya se marchara”, deixara o seu contacto, manifestando interesse em nos comprar o Falcon. Aparentemente, no parque de campismo toda a gente estava com a impressão que queríamos vender o carro. Este potencial comprador, que a senhora dera cognome de “el gordo”, era de Buenos Aires. Que o contactássemos quando estivéssemos de partida para Portugal, exactamente, aquela província brasileira. Sendo assim, cara senhora, a quem já tínhamos explicado pelo menos quatro vezes onde fica a Europa, demos por “listo” o assunto e a nossa presença em tão nobre camping. “Mucha suerte, señora”. Já que tinha pelo menos três mil pesos para gastar, talvez não fosse má ideia investir num mapa mundo. “Que dicén, muchachos?”. Nada, nada. Adiós e buena pinga. “Quê?” Nada, nada. Hasta siempre. “Tchau chicos”.
No entretanto, mister Jordi, fora a pé a El Calafate, para um encontro com uma rapariga chamada Cristina. Calma, calma, não é o que estão a pensar. Só havia duas possibilidades em El Calafate: A Cristina e a Daisy. A Cristina foi recomendada por mim. Era muito discreta, levava a sério o asseio, deixava tudo limpinho no final, administrava uma massagem capilar e só levava quinze pesos, pelo menos para deixar a cabeça com apenas três milímetros. O “chico” luso-catalão optou então pelo Cristina, salón Cristina, peluquera categorizada, embora tivesse um olho para nordeste e outro para sudoeste. O nosso Jordi não estava para cortes radicais, pois, inconfidência das inconfidências, entende que tem a cabeça muito grande, o que também não lhe permite grande variedade de escolha em matéria de “gafas”, vulgos óculos escuros.
Quando mister Jordi chegou já todos os assuntos estavam arrumados na mala do carro. Se mais delongas, “all a bord”. Restava atestar o carro de “nafta”, verificar a pressão “bar” dos pneumáticos e seguir viagem em direcção a Rio Gallegos, a coisa de 320 quilómetros. Próxima paragem: Esperanza.

Que bem que soube este mergulho na estrada. Foi como tivéssemos invadido o cenário de um “western”, que abundava em tudo o que não era estrada, para variar, convenientemente alcatroada. Planaltos cediam lugar a serras, estas com vista para as montanhas longínquas, pintadas de neve no topo, como certo bolos com chantilly. Seco e árido. Seco e com vegetação. Seco e duro. Seco e com o lago Argentina sempre emerso na paisagem. Só animais e viaturas 4×4 em velocidade estonteante, poucas, se cruzavam connosco. Sabia bem esta forma de isolamento, depois da “movida” de El Calafate.
Esperanza tem uma bomba de gasolina. Melhor ainda: Esperanza tem uma bomba de gasolina com gasolina. E também tem um campo de futebol, com balizas com uma cruz acoplada, balizas abençoadas, pois são talvez as únicas que conseguem sobreviver à vida em Esperanza, um ponto habitado no enorme deserto que separa Calafate de Rio Gallegos, onde chegámos tarde, por causa da polícia. Calma, calma II. Não é o que estão a pensar. Por questões meramente fotográficas, parámos ao fim do dia à beira da estrada, em frente ao que julgámos ser um cemitério, deveras invulgar, com uma longa escadaria metálica em “s”, até ao topo de uma serra, onde pontificava uma cruz. Em baixo, imagens “naif” de santinhas e santinhos, alegorias etéreas, representação mística, cada vez mais, à medida que se apagava a luz do dia e se acendia a dos candeeiros pós-modernos, em amarelo gema de ovo, ao longo da escadaria. Estávamos nisto - moi y Jordi -, quando ouvimos o navegador francês, que preferiu ficar no carro, assobiar com todas as forças ao vento patagónico. Vistas bem as coisas, o 006 tinha umas luzes azuis, em modo “girophares”, provenientes de um jipe da policia.

“Pérdon, señor policia, não foi de propósito. Foi a emoção que nos fez parar”. Se soubéssemos o que era não tínhamos parado. Chegando ao topo daquela parafernália, concluiu-se que, afinal, não era nada. Um nada místico, para sermos mais exactos.
Bom… passaporte, carta de condução, “trajeta verde”. Podem seguir. Podemos? Não há multa?, não perguntámos. Não. Então, “hasta luego”. Luego foi em coisa de dez minutos, quando chegámos ao posto policial, que fiscaliza as entradas e as saídas de Rio Gallegos, a meros 25 quilómetros. “Alto!”. Passaporte, carta de condução, “tarjeta verde”. “Muy bien”, disse o zeloso polícia. “Alto!”. As luzes traseiras não funcionavam. Não, senhor policia? Não tínhamos reparado, mas íamos tratar imediatamente de repará-las. Não sabíamos era como. Puxámos um fio aqui, outro ali, depois a maneta das luzes, que só funcionava quando queria. E, desta vez, quis. “Bueno. Bueno”. Hasta la vista. Traseira.
À frente, tínhamos Rio Gallegos, que de noite escondia bem o seu esplendor, coisa que, à primeira vista, é bem capaz de acontecer durante o dia. Levámos exactamente três horas para encontrar um parque de campismo, numa estrada de terra e de pó, numa zona industrial da cidade, plena de sucatas e fábricas desactivadas. Encontrámos primeiro um camping fantasma, que vinha anunciado num guia de viagem, depois uma placa, que estava no chão, virada ao contrário a dizer: “Camping”.
Foi assim que encontrámos o pior camping de Rio Gallegos, se não de toda a galáxia, com um senhor antipático, actuando como se tivesse um camping de luxo. Mal chegámos, a cair de cansaço, montámos a tenda. Com uma só certeza. Amanhã íamos desmontá-la. Ali não ficávamos. E não estamos propriamente em maré selectiva.

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Buenos dias,lembro-me que o meu amigo Manu Chao também fez uma “Próxima Paragem” em Esperanza…bonita, por acaso!!!
Bonne voyage!;)
SENHORES JORNALISTAS,EU E A MINHA ESPOSA SÓ A DOIS DIAS VIMOS QUE AVIA ESTE SAITE E ADAMPS A VER O VOSSO DIARIO.ESTAMOS MUITO ORGULHOSOS DOS SENHORES E ACHAMOS QUE O QUE ESTÃO A FAZER É MUITO IMPORTANTE PARA O NOSSO PAÍS, QUE É PRECISO MAIS PESSOAS ASSIM COMO OS SENHORES.
VIMOS TAMBÉM QUE AS VEZES TÊEM PROBLEMAS COM O RONCAR DE NOITE, A MINHA ESPOSA TAMBÉM(ELA É FORTE, COITADA)E O MÉDICO DEU VÁRIAS MEDIDAS QUE PODEMOS ACONCELHAR:
1-NÃO BEBER MUITO ANTES DE IR PARA A CAMA
2-DORMIR DE BARRIGA PARA BAICHO
3-POR FITA GOMADA PARA APERTAR O NARIZ, MAS SEM TAPAR OS BURAQUINHOS
4-SE ACORDAREM IREM DAR UMA VOLTA, BEBER MUITA ÁGUA E VOLTAR PARA A CAMA
5-AS VEZES QUANDO ELA ME ACORDA COSTUMO ASSOVIAR BAIXINHO E ELA CALA-SE
ESPERO QUE RESULTE.
OBRIGADOS
Trés surréaliste ce gigantesque escalier éclairé au milieu de nulle part!!!!
Bravo pour l’art de débusquer les campings les plus minables d’Argentine!!!
Bon Courage
Man, fazer parte do texto é uma honra!
O outro dia um gajo pintor (famoso no UK) pintou-me a tromba e vou estar exposto com mais 38 caras do rock portugues… bem… só me falta sair o euromilhones (130 milhones) esta sexta… se sair prometo que vou ter com voces e levo um 4×4 novinho em folha com caravana atrelada!
Abraços e boa viagem - CM
Felicitaciones , Muy buen trabajo
Oscar
Fantásticas as fotos!!!
Esa rampa es para recibir a los próximos OVNIS que aterrizan por los lados patagónicos…..
……….en esos campings puede ser que encuentren a los fantasmas de Butch Cassidy, Sundance Kid, Etta Place……..que desaparecieron después de asaltar un banco en Rio Gallegos, hace cosa de un siglo +/-
Dios Mio
Esse camping é digno de um filne de terror. Obrigada por fazerem um roteiro dos piores campings da Argentina. Assim já sabemos onde nunca ficar.
Acompanho a v/viagem desde o início e tem sido hilariante. A minha viagem de sonho é ir à Argentina, mas agora é como já tivesse ido, uma vez que a descrição é muito realista (bom e mau).
OBRIGADA POR TUDO. Cá fico a acompanhar a aventura.
Estou a ver que por esses lados grandes aventuras continuam.. E assim mesmo, agarrem ai o touro pelos cornos (ou devo dizer o Falcao pelo bico?) Bem, continuacao de boa sorte.
Pour Esperanza….proxima estacion!!! vous auriez pu nous faire entendre Manu Chao!!!
Também gostei da fotografia da vossa senhora, salvo seja…pena é estar em estado pré-tremens…
ola pessoal , nem sei como conseguiram dormir nesse espelunca, continuam a fazer um optimo trabalho em nome de Portugal obrigado pessoal, beijinhos
Olá!
Há vários dias que acompanho as vossas aventuras.
Parabéns pelos textos sempre acompanhados de excelentes fotografias.
Continuem em grande.
a beleza apesar das cicatrizes!
ou por causa delas!
voces jah se tornaram imperdiveis!
BOM DIA SENHORES JORNALISTAS!! EU E A MINHA ESPOSA
FAZEMOS VOTOS DE QUE TENHAM DORMIDO CONFORTÁVEIS!!
PASSÁMOS A NOITE NUMA GRANDE EXCITAÇÃO E ATÉ ACORDAMOS MAIS CEDO, MAS NÃO AVIA NOVIDADES DOS SENHORES…A MINHA ESPOSA DIS QUE DEVEM TER TIDO ONTEM UM DIA MUITO ATAREFADO E EU YAMBÉM AXO.
ESTIVEMOS A VER COM ATENÇÃO AS FOTOGRAFIAS DOS SENHORES E VIMOS QUE GOSTAM MUITO DE ANIMAIS,NÓS TAMBÉM!!
gOSTÁMOS MUITO DAS GAIVOTAS PRETAS E BRANCAS QUE ANDAM EM PÉ E QUE OS SENHORES CHAMAM PIGUINS!
EU E A MINHA ESPOSA FAZEMOS CRIAÇAM DE AVES DE CAPOEIRA E ESTAMOS A CRIAR COM MUITO CARINHO 3 GALINACIOS QUE GOSTAVAMOS DE OFERECER AOS SENHORES QUANDO OS SENHORES VOLTAREM DA VOSSA VIAGEM!
GOSTAVAMOS QUE OS SENHORES NOS DICESSEM DEPOIS O SAITE PARA NÓS ENVIARMOS OS BIXOS.
A MINHA ESPOSA PERGUNTA SE OS SENHORES PASSAM NA INDIA PORQUE ELA TEM LÁ PESSOAS AMIGAS MAS EU JÁ LHE DISSE QUE OS SENHORES NÃO DEVEM PASSAR PORQUE FICA MUITO LONGE E OS SENHORES NÃO DEVEM TER TEMPO.
MUITO OBRIGADOS.
Fogo! vocês não param…ganda cena!!