Dia 36
Diário de viagem

dia36_1.jpg

Que amanhecer estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e bem-estar, parece que engolimos uma dose industrial de cereais com aqueles agregados sintéticos de magia, que pôem as árvores a fazer jogging, capazes de transformar um elefante numa campeã romena de patinagem artística. Para começar não se via uma réstia de sol. Depois, chovia como se um dilúvio se tivesse abatido sobre Rio Gallegos.

Só para confirmar, o dono do camping continuava um mestre de cerimónias sem chá, esbrutificado talvez pelo peso da sua própria presença, querendo pagamento antecipado pelos serviços que claramente não prestava. Por acaso, a sua casa tinha um jardim. E o nosso homem, certo dia se há-de ter lembrado que o seu jardim daria um camping e que o camping lhe daria uns pesos-extra, parte dos quais ele agora reclamava. Por partes: Apesar da chuva, tudo em redor era pó, nem sequer o odor debitava o tradicional cheiro a terra. Para isso, claro, era preciso que esta terra - que me desculpem os milhares e milhares de Patagónia virgem - estivesse em estado de se cheirar.

dia36_2.jpg

Se calhar nem era por isso. Se calhar foi porque, na madrugada passada tivéssemos inadvertidamente instalado a nossa tenda mesmo junto às casas de banho, termo claramente exagerado para estas instalações que nos se deparam, neste amanhecer estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e de bem-estar, parecendo que tínhamos engolido uma tonelada de Prozac, capaz de tornar o infeliz feliz e o feliz infeliz, capaz de pôr uma girafa a passear no arame, capaz certamente de nos fazer obedecer à nossa própria vontade de nos pôr a milhas do sítio. Mesmo perante este amanhecer estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e bem-estar, parece que tínhamos engolido duas toneladas de âmpolas de felicidade, como noivas a levitar para o altar.

Havia água quente na casa de banho. E pronto. Fica tudo dito quanto ao que havia. A não ser que que nas existências se incluam paredes bombardeadas, com azulejos a tombar de podre, só compatíveis com o podre das sanitas, tão podre que pareciam já vestígios arqueológicos, sem tampa, para relembrar que os Neanderthal, nossos parentes próximos, não precisavam de puxar autocolismos nem fluxómetros. No perímetro quadricular da casa de banho havia vestígios arqueológicos recentes por toda a parte, ou mesmo partes da parte que eram, na sua plenitude perfeitamente dispensáveis.

dia36_3.jpg

Onde é que íamos? Que amanhecer estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e de bem-estar, daqueles capazes de pôr um rádio a pilhas a funcionar sem pilhas, em som estereofónico com uma única coluna. Havia água quente. Mas, não sei explicar porquê, não nos apetecia tomar banho. Haviam alguns companheiros de camping, também não sei porquê: Um casal apaixonado, que sorria a tudo e a nada dentro da sua tenda individual, como convém. Um jovem que tinha enfiado uma boa dose de papel higiénico numa narina que sangrava. Ainda um triunvirato argentino, um dos elementos sem meias e com os pés encharcados, salvo por umas meias usadas do Jordi, com esperança de chegar à boleia a Ushuaia, à volta de 500 quilómetros da imensa casa de banho que era este camping.

Felizmente, o amanhecer estava estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e de bem-estar, parecia que tínhamos engolido três toneladas de esteróides anabolizantes, capazes de nos pôr a correr cinquenta quilómetros, só para bater o recorde mundial dos cinquenta metros.

dia36_4.jpg

E foi perante esta manhã, já alta, mas ainda estonteante, magnífica, jactante, parecia que tínhamos engolido quatro toneladas de cola-coca, capaz de nos ainda desatar a compôr a 10ª Sinfonia de Chopin, para “violino”, em sintonia com a “naturaleza” e coisas assim, que o Falcon se pôs de novo em marcha, atestado de tudo quanto temos, que parece cada vez mais, mesmo com a sensação de já termos perdido uma série de coisas.

Como diria um político qualquer perante uma pergunta difícil: Ainda bem que me faz essa pergunta. Como é que estava o entardecer? Bom… Estava estonteante, magnífico, jactante, parecia que tínhamos engolido cinco toneladas de psicotrópicos catalisadores, capazes de nos impelir a colocar pontos finais nos livros de Saramago ou de Faulkner e, ao mesmo tempo, ler de trás para a frente a obra completa de Margarida Rebelo Pinto, que por “supuesto”, é para ser folheada.

dia36_5.jpg

De todo o modo, estava um entardecer estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e bem-estar, parecia que tínhamos engolido quatro toneladas de anacondas da Amazónia, sendo capazes de fazer números de contorcionismo no circo La Folie, no Sul de Espanha, retirando ainda doze pombas do cabelo e mais um canário, que se chama Adérito, que dança a valsa e faz malabarismos dentro de uma panela de pressão, nunca ficando cozido.

Enfim, chegou o anoitecer, estonteante, magnífico, jactante, pleno de energia e bem-estar, parecia que tínhamos engolido cinco toneladas de algodão-doce, sendo capazes de caminhar sobre fogo, engolindo cinzas, facas e garfos, dos nossos, bastante sujos, regurgitando colheres de chá em prata, da loiça da avó.

dia36_6.jpg

E a noite caiu no seu manto negro, noutro camping de Rio Gallegos, incomparavelmente mais camping. Chegou a madrugada, estonteante, magnífica, jactante, plena de energia e bem-estar, parecia que tínhamos engolido todo o cansaço do mundo, capazes somente da incrível proeza de adormecer na posição bípede, enquanto a tenda se montava sozinha, martelando as suas estacas, e os sacos-cama se despiam só para nós, convidando-nos a entrar. E só então pensámos: Porra! Há dias assim, estonteantes, magníficos, jactantes, plenos de energia e bem-estar que, parecendo o que parecem, não são. Parecia que alguém, sob o efeito de qualquer uma das sugestões prévias, tinha serrado a base de uma aldeia palafítica. E nós, lá dentro, aterrámos de novo no chão, estonteados, magníficos, jactantes, enquanto a tenda bailava à inquietude do vento patagónico.

Anterior: Dia 35 | Seguinte: Dia 37

Comentários

9 respostas to “Dia 36”

  1. oscar eduardo de brito on February 7th, 2008 4:38 pm

    La foto del CASINO es una muestra de los que hay en todas las ciudades de la patagonia.

    Fuerza muchachos hay que seguir viaje todavia falta mucho.

    OSCAR

  2. Cameraman Metalico on February 7th, 2008 5:28 pm

    O que é que voces andam a fumar?
    CM

  3. cyberannie on February 7th, 2008 7:01 pm

    C’est le vent qui vous rend fous?A moins que comme le dit Cameraman Metalico vous n’ayez fumé quelque substance illicite?
    bonne continuation

  4. Apiko on February 7th, 2008 7:49 pm

    Ettééééé…..no entendí,
    al final fué un buendia o nó?!?

    Diviertansé muchachos!
    apiko

  5. Fátima Cunha on February 7th, 2008 8:13 pm

    “…mil palavrads, mil luzes…mil segredos que se escondem!”
    “…de que cores de que sabores serão feitas as vossas noites??”

    “…três rapazes simpáticos
    às voltas na Patagónia
    Tiram fotos, escrevem textos
    que nos contam uma estória”

  6. Fátima Cunha on February 7th, 2008 8:38 pm

    “Ave da Patagónia
    se eu fosse pinguim
    estaria concerteza!
    mais pertinho de Ti!!”

    “Cordilheira dos Andes
    espinha Latino-Dorsal
    Vocês a chegar ao Chile
    E eu aqui em Portugal!!”

  7. Albano Pereira on February 7th, 2008 11:53 pm

    BOA NOITE SENHORES JORNALISTAS.VENHO POR ESTE MEIO E COM ULMIDADE PEDIR AJUDA AOS SENHORES PARA UM PROBLEMA CÁ NA NOSSA CASA.
    A MINHA ESPOSA TEM ANDADO MUITO ALTERADA E ALOCINADA COM A VIAGEM DOS SENHORES. TEM PASSADO O DIA A REZAR AOS SANTINHOS E À NOSSA SENHORA DE GUADALUPE!
    DIZ QUE VAI AÍ TER COM OS SENHORES QUE VAI FAZER AS MALAS.EU NÃO AXO BOA IDEIA POIS OS SENHORES SÃO 3 E 4 DEVE SER MUITO.PARA MAIS ELA É PARA FORTE E NÃO DEVE CABER NO VOSSO FALCONE…
    DE NOITE FALA UMA LÍNGUA ESQUISITA E CHAMA-ME “MEU LUIS”!!
    EU NÃO SOU SIUMENTO, MAS PREOCUPA-ME A SAÚDE DELA.É UMA PESSOA DOENTE E NÃO SE PODE ENERVAR.É EPILETRICA, TEM UMA URSULA NO ESTOGAMO E ANDAM-LHE A NASCER GROVILHAS NO ÉNES.
    TENHO MEDO QUE LHE DEIA UMA CRISE DE APOLEQUESÍA E QUE FIQUE ENTREVADA NUMA CAMA.
    TALVEZ OS SENHORES COM A VOSSA ESPERIENCIA ME POSSAM ACONSELHAR NP QUE POSSO FAZER PARA RESOLVER ESTA SITUAÇÃO.
    ATENCIOSAMENTE, O VOSSO ALBANO.

  8. carla neto on February 8th, 2008 10:37 pm

    É pá, porque é a última foto está desfocada???
    Será que não se pode ver um gajo à maneira???;)

  9. Joao Villalobos on February 9th, 2008 12:20 am

    Grandioso texto, este! Um dos meus preferidos até agora. Um bocado Hunther S. Thompson, quiçá :)

Escreva um comentário




Anterior: Dia 35 | Seguinte: Dia 37

Entradas Relacionadas Diário de viagem

Apoios
© 2008 Estação do Calor, fotografia e textos | website produzido e mantido por nelson d'aires