Dia 38
Diário de viagem

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Quatro da manhã, a bordo do Falcon. Regresso a Rio Chico, onde fica o parque de campismo Chakra Daniel, que o energético Germán assim chamou em honra do seu filho, Dani para a família e para os amigos. Fora um jantar tardio, não particularmente saboroso, num restaurante com duas empregadas rechonchudas, sorriso dentífrico, plástico, esforçado, cansado, quase tanto como o cozinheiro com aspecto de mecânico auto, mãos e unhas incluídas, que saiu sem dizer patavina do estabelecimento. O jantar prolongou-se num bar próximo do restaurante, próximo do Café Central de Rio Gallegos, onde oficialmente montámos escritório, próximo do único kiosko, chamado Kiosko, aberto 24 horas, próximo de um supermercado que anuncia mega-poupança, próximo de um outro, que não anuncia, próximo da sucursal do Banco da Patagónia, que fica praticamente ao lado do Banco Nacional da Argentina, que fica por baixo de uma sede de campanha eleitoral do Partido Justicialista, saudosista, peronista, poder, que estava às moscas, mas ainda tinha uma cartaz em branco e azul celeste, que dizia “Pela Vitória”.

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Mais um gin tónico? Pode ser. Lá fora está um vento ciclónico, que fazia vergar árvores adolescentes quase até ao chão, chegando disparados ao bar mais alguns casais, com os seus casacos ainda insuflados, a compôr as suas cabeleiras, procurando um lugar para estacionar, angariando cadeiras para tomar posição na geografia no Belfast - Irish Pub. A noite correu animada, embora a música não variasse muito entre Soft Cell, Duran Duran ou Madonna, na sua fase “like a virgin”. No ecrã televisivo, de canto, passavam golos dos diversos campeonatos sul-americanos, com destaque para o campeonato chileno, onde só se viam no estádio 22 elementos, sem contar com o trio de arbitragem. Aos golos seguiam-se as respectivas análises, feitas por especialistas, penteados risco ao meio, algo calvos, claramente ex-jogadores, ainda a aprender a “hablar” outra coisa que não seja futebolês. Terminando o “fútbal”, mudou-se de canal para terríveis lutas “jiu-jitsu” em quadriláteros com rede, com o árbitro a seguir por fora os gladiadores, que lutavam até que um tombasse e a sineta o desse por KO, naturalmente não OK. Sangue e suor era o programa da noite. O sector masculino do bar, testeronificado e em maioria esta noite, fazia como os empregados atrás do balcão: Todos de boca aberta, para onde, no caso dos primeiros, se iam inclinando mecanicamente os copos de cerveja.

“Chicos, los trago la cuenta?” Sim e não, chica encarregada de servir às mesas. Sim porque na verdade já estávamos de saída. Não, porque na verdade não nos apetecia sair. O vento não tinha amainado. Mas o frio intensificara.

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Quatro da manhã, pois, a bordo do Falcon que, apesar de não ser dado a cedências ao vento, bailava na estrada vazia em direcção ao nosso destino: Tenda, chão, vento, frio. Até podia ser que fosse do plural de Gin, mas a verdade é que nada disso nos parecia incomodar substancialmente. E era bom relembrar que Germán nos tinha convidado para tomar o “desayuno” em sua casa, para depois nos encontramos à tarde com Héctor Roquel, o Intendiente de Rio Gallegos, em muitos sectores do Governo de Buenos Aires, acusado de radical, amigo de Germán de longa data. Não estava fácil encontrar o desvio para a estrada de gravilha que nos leva ao camping. Aparentemente, tinha faltado a luz nas redondezas, tal como no Falcon. Só o cheiro nausaebundo de uma fábrica, que fica muito próxima do camping, muito embora o cheiro não chegue lá, nos orientou. Enfim, o parque de campismo. Enfim, o carro estacionado em frente à tenda. Mas… E a tenda? Faltava ali qualquer coisa a bailar ao vento. Era a tenda que, para nossa grande desilusão, não estava de pé. Os faróis do carro, que entretanto ressuscitaram, mostraram o cenário, que era de tal forma que julgávos que tínhamos sido assaltados, coisa invulgar, e que a tenda, sabe-se lá porquê, tinha sido vandalizada.

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Aparentemente um assalto estava fora de questão, já que se notavam os contornos das mochilas sob o cadáver da tenda. À primeira vista, a tenda cedera ao vento, La Palisse, óbvio do óbvio. Mas era preciso saber o que falhara na estrutura para que abatesse sobre si própria, sem nós estarmos lá dentro, o que até serviriam de cobertor, coisa que nos falta. Diagnóstico preliminar: Parte da estrutura, uns plásticos de grande elasticidade, que se encadeiam e se esticam para segurar tecto e duplo-tecto, à força do vento patagónico, pura e simplesmente, “explodiram”, tendo ido parar à box do lado, felizmente sem ocupantes. Àquela hora da noite, sem luz e com o parque de campismo deserto não havia muita coisa a fazer a não ser improvisar uma reconstituição de tenda, com o material que tínhamos à mão: As partes da tenda. Atar um fio aqui, desatar outro ali, voltar a atá-lo noutro sítio, tentar esticar o tecto, tentar reerguer a tenda, tentar na pisar as múltiplas garrafas de água meio-cheias, ou meio-vazias, que estavam dentro da tenda, porque ninguém estava interessado em dormir em colchões de água, apenas em dormir. E muito. Alguns nós de marinheiro depois, a tenda estava de novo em equilíbrio instável. E o vento continuava sem dar sinais de sossego. Foi, portanto, um adormecer emocionante.

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Poucas horas depois, Germán estava à porta: “Gringos. Chicos, hora de desayuno”. Já vamos, Germán, é só voltar ao sono e assim ficar mais umas três horas, depois já vamos lá ter. “No puede ser, el Intendiente está llegando”. Bom, sendo assim, é só voltar ao sono e assim ficar mais umas duas horas. Também não podia ser. Pronto, pronto, toca a levantar o bom-humor, directamente para um duche frio, aliás, gelado. É que, entretanto, o camping enchera-se de gente, famílias e mais famílias, que vinham para o fim-de-semana, prontas a estacionar junto às “parrillas”, a grelhar ao sol as suas carnes, advertindo a criançada para não atirar a bola para o fogo ou para a avó.

Feito o despertar, tomado o pequeno almoço, eis que chega el Intendiente, homem robusto, embora pequeno, de olhar inteligente e com um ar tranquilíssimo, de quem gosta de pausar. Cumprimentou Dani com um beijo, coisa habitual na Argentina, pediu-lhe o mate. E, só depois da primeira dose, iniciou a entrevista ao contrário, perguntando: “No tomán mate?” Não, somos todos cafeínomanos.

Germán deixou-nos a sós, embora relutante, pois estava em pulgas para ouvir a entrevista. Héctor Roquel explicou-nos na hora e meia seguinte, o que no fundo já sabíamos: Que hoje em dia a actividade principal de Rio Gallegos é a gestão da província, sendo que essa actividade não pode ser explicada ao detalhe, de tão vaga ou tão multifacetada que é. É claro que a cidade está em grandes dificuldades, nem que fosse pelo facto de serem os escassos “ganaderos” a garantia o seu pouco desenvolvimento, não conseguindo mais que o seu próprio lucro. E, quando a conjuntura e o tempo o permitem. Diz o Intendiente que não é só Rio Gallegos, mas a província de Santa Cruz que se ressente da estagnação a que foram condenadas as explorações mineiras da província. Mas, ressalva, também compreende e defende os motivos porque fecharam grande parte das minas da região. A razão, diz, é muito simples: O seu neto e os netos que hão-de ser do seu neto merecem ter uma Patagónia sem poluição e sem os condenar a doenças prematuras.

Héctor Roquel, o radical, não defende regionalismos, nem um centralismo exacerbado, como hoje acontece. Defende, sim, a criação de políticas ambientais “reais” de prevenção. O Intendiente sabe que há muita gente a sair de Rio Gallegos à procura precisamente da vida que ali tinham. Mas também sabe que a actividade mineira vai voltar. Espera só que em segurança e sob a alçada de leis rigorosas contra os prevaricadores. Quatro doses de mate depois, “mucho gusto e hasta luego”.

O resto do nosso dia foi gasto em actividades de grande utilidade, mas pouco atraentes: Trabalhar, ingerir “dobles cafes com leche” e encontrar uma retrosaria para tentar remendar o que se tinha partido ou rompido, ou as duas, na tenda. Que, por algum milagre patagónico, estava de pé quando chegámos.

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Comentários

6 respostas to “Dia 38”

  1. Apiko on February 9th, 2008 2:43 pm

    Ese es el gran dilema de nuestra sociedad contemporánea.

    Vivimos mejor hoy o cambiamos de actitud con respecto al planeta en que vivimos y tenemos la voluntad y la fuerza para encontrar soluciones que permitan vivir mejor a nuestros decendientes.

    Lo que logremos hacer hoy, se repercutirá mañana.

    Pero también es muy facil hablar así desde el primer mundo, no?

    Mea Culpa

    Apiko

  2. cyberannie on February 9th, 2008 3:52 pm

    Quelle horreur l’histoire de votre tente. Pour avoir fait moi-même du camping et avoir été confronté à des situations un peu épiques je compatis vraiment!!!!
    Je suis tout à fait d’accord avec ce que dit Apiko
    concernant le dilemme de la société contemporaine!

  3. MARGARIDA SOUSA on February 9th, 2008 6:35 pm

    pessoal alguma vez o vento da patagonia fazia da sua, mas quem arranjou a tenda, estao com sorte o amigo do parque deve ter arranjado a tenda espero que sim, boa sorte e juizo para os tres, beijinhos

  4. Carla Neto on February 9th, 2008 7:25 pm

    É pá esta cena é BRUTAL!!Altamente viciante!
    Já agora, não querem uma gaja porreira para vos aquecer a tenda e proteger do vento patagónico?!;)
    Think abouta that!;)

  5. Eric Blair on February 9th, 2008 9:15 pm

    invejo-vos, invejo-vos, invejo-vos.
    Cuuuuuuuuuuuurtam.
    Amanhã vou prá Serra da Freita andar até que os ligamentos me doam.
    É tudo quanto está ao meu alcance…
    Patagónia por um canudo

  6. tomas de brito on February 10th, 2008 1:58 am

    la energia eolica tiene sus desventajas para el turismo en carpa ( tenda )
    Suerte. animo que mucha gente los acompaña.

    Tomas

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