Dia 40
Diário de viagem

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Onde é que nós íamos? Em Rio Gallegos, onde se encontra em exposição tudo que Rio Gallegos foi, sendo agora qualquer coisa que nem Rio Gallegos sabe bem o que é. Estivémos a trabalhar dentro da tenda até às cinco da matina, porque somos trabalhadores incansáveis, porque conhaque é conhaque, porque sim. Às 06h30: “Chicos, bamos!!!! Gringos, están acordados?” Agora sim, mister Germán, ainda a pensar em que espécie de filme tínhamos acordado. De terror matinal? De série C - de camping? Projecto Blair Witch, mas ainda pior e já ao solinho? O filme do dia, sabíamos, era outro, uma película de temática romântico-pastoril, bucólica, de características fortemente “memézantes”, neologêmos assim.

Tínhamos combinado ir com o Dani, o filho de Germán, a um rancho - tipo Dallas, sem um JR na engenharia financeira, sem um Bobby, uma jóia de pessoa, não desfazendo, sem uma Sue Ellen, a despachar garrafas de Jack Daniels, ou seria Wild Turkey?, ou sem uma Lucy, hiperactiva, que nem com saltos de drag-queen conseguia deixar de bater com a cabeça nas esquinas das mesas -, cuja actividade principal é a criação de ovelhas e gado, a coisa de 200 quilómetros de Rio Gallegos. O rancho pertence à descendência de Augusto Pinochet, “el generalíssimo”, “el ditador”, que dispensa uma série de adjectivações que me ocorrem, mas não direi, mas que Baltazar Garzón, o mega-juiz espanhol, podia sem dúvida enumerar. Adiante.

Dani tem as “espaldas” em estado deplorável desde os nove anos, na terceira ou quarta vértebra, a contar de baixo, onde também repousa uma hérnia discal, por causa do amor pelas corridas de moto 4 que, aliás, ainda lhe morde o coração motorizado. Esteve três meses no hospital, a olhar para o tecto, sem poder mover-se nem para o básico. E foi obrigado a prometer aos pais que nunca mais competia. A promessa nem sempre foi cumprida, o chamamento é muito forte. Mas Dani, que hoje tem 26 anos e o cabelo prematuramente grisalho, já foi obrigado a renovar os votos, perante a sua mulher e em nome da tatuagem que tem no braço esquerdo, a fotografia do seu filho de quatro anos, que gosta de jogar futebol, de correr atrás dos cães, e de fazer o contrário do que lhe diz a avó, que por sua vez gosta de ver filmes e telenovelas, engordou porque deixou de fumar, ressona deitada no sofá, já disse que não se importa de nos cozinhar comidinha caseira um dia destes e é de uma simpatia genuína, daquelas pessoas com quem se gosta de estar. A casa onde vivem, no camping, tem a memória nas paredes, tanta coisa que mal se consegue ver de que côr estão pintadas. Germán em novo, com o seu filho recém-nascido ao colo, Germán quando terminou o curso, o diploma de Germán, notícias que Germán considera importantes para o negócio de Germán, Germán foi lá dentro ver se acordava Dani, que estava ainda a fazer o que nós gostavamos de estar.

Entretanto, “desayuno”, cortesia de Germán, que nos antecipava o que iríamos encontrar no rancho onde ele foi durante muitos anos uma espécie de administrador interino, já que os donos, que têm residência oficial em Buenos Aires, só vão ao rancho no Verão, na época da tosquia.

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Uma hora depois, eis que chega Dani, cabelo desgrenhado, uns magníficos olhos vermelhos, quase vampirescos, transportando uma valente ressaca, grau oito na escala de dez, que um pouco mais tarde confessaria. Não faz mal Dani, é compreensível, os copos enrijecem os bícipes e não são especialmente contra-indicados para as hérnias. Dani não estava com fome, debicou apenas um pedaço de pão com “mantequilla” chilena, que manteiga não é propriamente uma das especialidades argentinas. “Gérman deu as últimas instruções a Dani e foi-se, como sempre, em passo acelerado”. Antes de sair, disse, piscando o olho, um hábito de Germán: “El Intendiente hay gostado mucho de vosotros”. Boa, Germán, nosostros tambien hemos gustado mucho de el intendiente. “Bueno, bueno. Hasta luego, muchachos. Buena trip”. Sim, uma buena trip vinha a calhar, embora já nos tivessem informado que a estrada não era a melhor, um misto de gravilha e pedras, através da Ruta 40, que é lindíssima, tirando as pedras e a gravilha.

Dani, mais recomposto, entrou a bordo do seu Ford Ranger, um parente muito afastado do Falcon, viatura poderosa, 4×4, própria para territórios inóspitos, como o que nos esperava. De nós, mister Jordi era o que estava melhor, ainda na tenda, a dormir, tecnicamente inviável. Tinha desistido da viagem umas horas antes, antecipando o sono que ia ter se o acordassem. Sendo assim, era moi même, monsieur Pazat e el Dani, um triunvirato a cair de sono. Estação de serviço para comprar uma arsenal de garrafas de água e estrada com eles. Dani desde logo demonstrou como “maneja lo coche”, com pinta de piloto experiente de todo-o-terreno, pé pesado, mãos leves, como acariciando o volante. Não nos conhecíamos bem. E também não seria logo. Eu, atrás, dizem-me, fui perto de 50 quilómetros a bater com a cabeça no vidro do carro. Quando acordei, pensando que o Gui estava em missão de socialização, verifiquei que só não estava a bater com a cabeça no vidro porque colocara “el cinturón”. Olhando através do retrovisor em frente da cara de Dani, também se lhe notava grande sonolência, a coisa de 120 quilómetros por hora. Então e que tal se trocássemos? Gui para trás, eu para a posição de co-piloto. Dani ofereceu um rebuçado, a única coisa que estava capaz de comer, e acelerou de novo. E só aqui pude perceber que o Lisboa-Dakar, afinal, não tinha sido cancelado, apenas mudara de sítio. A etapa estava longe de ter chegado ao fim. E Dani acelerava por montes e vales, numa estrada sinuosa, uma paisagem lindíssima, vasta, castanha, verde, com pequenos rios, onde pescadores solitários esperavam pela truta, onde cavalos selvagens bebiam, onde tudo parecia intocado, não fossem as vedações, o ferro-carril desactivado da Patagónia, uma placas a anunciar ranchos de alguém ou as pedras que voavam da traseira do nosso carro.

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Dani não tirava o pé do acelerador, nem para travar. E começava a fechar os olhos, a tombar frontalmente, travando um terrível combate com a soneira. “Dani, não é melhor parar para dormir? Eu cá não me importava”. Dani apresentou a resposta clássica, que não era preciso, que estava bem, que conhecia bem a estrada. Bom, está bem Dani, mas então vamos falar de qualquer coisa. Pode ser intelectual, que vai sempre bem com as ressacas ou, então, futebol. Que tal, Dani? Dani não estava para grandes conversas. Queria dormir. E queria conduzir. Mas talvez não conhecesse assim tão bem o caminho para o fazer de olhos fechados. Então e os jogadores argentinos a jogar em Portugal, Dani? E a selecção argentina, Dani? E a tua vida, Dani? E o que fazes no Inverno, Dani? O que é aquilo, Dani? Como é que se chama este sítio, Dani? Dani… Dani… Ó Dani, não queres um rebuçado dos teus? Dani, agora a sério, não é melhor parar para dormir. Dani cedeu, ao pedido e ao sono, mal estacionou na berma. Durante duas horas, dormimos.

Dani acordou fresco que nem uma alface ressacada, esfregou os olhos, engoliu meio litro de água, tirou mais um rebuçado, e fez-se à estrada com o mesmo espírito competitivo, disposto a recuperar o atraso. Mas, Dani, não ia ninguém à nossa frente. Nem atrás. Aliás, há horas que não se via um carro, Dani. Foi uma viagem emocionante até ao rancho, perdido na paisagem, com a cordilheira dos Andes à vista. Não se pode dizer como se chama o rancho, por ser de familiares de Pinochet, nem falar de nomes, pela mesma razão. Apenas se pode dizer que fica próximo da cidade de Rio Turbio. O dito rancho tem o tamanho de um país pequeno, 66 mil hectares de território, 120 mil ovelhas para tosquiar, 40 mil cabeças de gado, cinquenta homens, uma escolinha rural para educar as crianças. Casas na imensidão, onde parece que o tempo não passou, onde passam a cavalo os últimos “gaúchos”, espécie em vias de extinção na Patagónia.

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Era o último dia da tosquia, pelo que toda a gente estava atarefadíssima. Ali, o horário era diferente. A presidente Cristina Kirchner mandou adiantar uma hora ao relógios para a nação poupar energia eléctrica, mas o “patrón” mandou que a hora ficasse na mesma, ganhando mais uma hora de trabalho. Disse-nos o “patrón”, pessoa muito simpática e de fino trato, que o maior problema do seu rancho e da região são as alterações climáticas, espaçando muito o período das chuvas. Pode até chover muito, mas não chove regularmente. E o vento patagónico trata de secar as terras.

Foram horas bem passadas no rancho, junto aos trabalhadores, que encontraram tempo para nos sorrir, para nos explicar coisas, acolhendo-nos de forma calorosa e simples, coisa que só a terra transmite. Por falar em terra, Dani estava outra vez ao volante, pronto para as curvas. A viagem de volta decorreu exactamente como a de ida. A meio, Dani quis parar para a respectiva soneca, desta vez coisa de uma hora. E chegámos ao camping por volta das 22 horas, em plena luz do dia, da mesma forma como tínhamos acordado: mortos para dormir. O nosso amigo Jordi dormia. Mas, sabe-se lá porquê, acordou muito bem disposto. E sem sono. E, para relembrar apropriadamente a velha máxima de um anúncio de pesticidas: “Há raros dias de felicidade na vida de um agricultor”.

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Comentários

6 respostas to “Dia 40”

  1. Apiko on February 11th, 2008 9:35 am

    Hola, buen dia!

    Al levantarme hoy (temprano porque me espera un dia muy atrajinado) me encuentro con este trabajo fantástico de LPC y PAZAT, felicitaciones!

    Están en la mítica Ruta 40 de la Patagonia (así como la Ruta 66 de América), a lo largo de ella se pasan muchas cosas, buen viaje.

    Por otro lado, estas tierras del fin del mundo atraen a mucha gente de las franjas grises de la sociedad mundial, dictadores, nazistas, grandes aglomerados financieros, grandes empresas de exploración de las riquezas ajenas, como por ejemplo:
    Familias Benetton, Bush, Pinochets……

    Así es, lo mítico es para consumo turístico, el resto es para exploración dura y cruda, sin importar nada ni nadie, que se joda la tierra y las personas…..

    Continuación de buen trabajo, hermanos!

    Apiko

  2. cyberannie on February 11th, 2008 10:15 am

    Un proverbe français dit:”la vie appartient à ceux qui se lèvent tôt”. Merci à German de vous avoir tiré de la tente de bonne heure pour ce reportage trés intéressant.
    Deux mondes opposés:les gros investisseurs étrangers ( entre autres ceux cités par Apiko) et les ouvriers qui font tourner ces “entreprises”et vivent dans des conditions d’une autre époque….même s’il y a une école pour leurs enfants!!!
    Bravo LPC pour ce texte et Guillaume pour les photos et la vidéo

  3. Joao Mesquita on February 11th, 2008 1:36 pm

    Tem razão o Apiko naquilo que escreve, a Patagónia tal como outras regiões do mundo, é um espelho do melhor e pior que temos neste mundo, melhor pela beleza natural, e também pelas pessoas simples que tem, o pior está bem identificado pelo Apiko, sendo que infelizmente o pior subjugará o melhor, pelo menos por agora, espero que não seja assim para sempre, quero acreditar que não…

  4. oscar eduardo de brito on February 11th, 2008 4:53 pm

    La patagonia esta lejos de Todo. y para visitar una estancia se necesita todo el dia.
    ( Cuantas veces entra portugal en la Patagonia??? )

    OSCAR

  5. Myra Gore on February 11th, 2008 6:10 pm

    A abstinência de ontem foi bem compensada pela belíssima reportagem de hoje!!

  6. António Pinho on February 11th, 2008 10:25 pm

    Boa Noite

    É a primeira vez que entro para ver vossa aventura, e gostei; tambem sou um Portuga aventureiro, amante da natureza e de conhecer outras culturas!
    Já me esquecia sou um apaixonado por fotografia!
    Ano passado estive em El Calafate, lugar maravilhoso, adorei a librobar, o fabuloso lago argentino com seu reflexo como um espelho da montanha, a viagem por entre os icebergs, o perito moreno igualmente deslumbrante nos deixa sem palavras para descrever.
    Como fiquei viciado este ano voltei á patagónia, desta vez pelo lado chileno, onde conheci o estreito de magalhaes, os lagos espectaculares e as fabulosas torres del paine.
    Não esquecer de visitar o Monumento Natural Cueva del Milodon.

    Continuem e nos enviem as fabulosas noticias!
    António Pinho

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