
Detalhe: O posto número três, onde nos encontramos no parque de campismo de Rio Gallegos, chez Germán, não tem o solo propriamente direito, tem uma inclinação de alguns 15 graus, tornando muito “divertidas” as noites dentro dos respectivos sacos-cama, material deslizante, por cima dos colchões, por sua vez em material ultra-derrapante. Quando não é o vento, com o qual pura e simplesmente já não nos preocupamos - se cair, cai -, ou o frio, cada vez mais gelado, obrigando-nos a dormir com três pares de meias e uma boa dose de roupa. Quando não é isto, é a rampa, é a maldita rampa, que nos lança inevitavelmente para a porta da tenda, obrigando-nos a um exercício deveras deprimente, enfiados nos sacos-camas, a galgar terreno aos saltos, meio a dormir, meio-acordados, como numa corrida de ” marmaids”, subindo, sossegando, descendo, acordando, subindo, praguejando, adormecendo, deslizando, acordando, galgando, voltando a deslizar, como estivessem mãos invisíveis a puxar-nos as pernas.

Chakra Daniel também tem uma parrilla de grande qualidade, mas a nossa tenda ocupa quase todo o espaço possível naquele quadrilátero, ou coisa que o valha, com lugar ainda para uma pequena mesa e cadeiras, tipo escola primária, presas ao chão, que o vento não é brincadeiras, já se sabe. Exactamente por isso, não é possível fazer um churrasco, que é algo que nos descontrai. Ou talvez não. Não, talvez descontraia. Não sei. Sei que geralmente a carne é boa e vai bem na grelha. Porém, lenha a crepitar ao vento era quase garantido que havíamos de grelhar a tenda que, aliás, dava sinais de instabilidade. Graças a um golpe de bricolage do nosso “franciú”, também conhecido por “franchotte”, Pazat ou simplesmente Gui, foi possível compôr parte da estrutura que segura o tecto e respectivo duplo-tecto. A estrutura é composta por varetas de plástico com grande elasticidade. O que é que isto interessa? Patavina. Mas tenho mesmo que falar disto, tenho de desabafar, insisto, reforço, saliento: As varetas de plástico maleável, supostamente inquebrável, material comprado no Wallmart, monstro dos baixos preços, paraíso do consumo no paraíso dos consumistas, nos Estados Unidos, servem para vergar, não para multiplicar-se em partículas. Essas peças encaixam todas, unidas por um elástico resistente, julgávamos até ao dia inolvidável que vimos a “carpa” por terra. No entretanto, o duplo tecto começou a romper, de buraco para cratera, permitindo a entrada livre do denominado “briol” patagónico, que ataca furtivamente de noite e só descansa nos ossos. À chuva, era bom nem pensar. Até porque há dias que não chovia, graças a qualquer coisa e mais ao facto de ser verão.

A noite deslizante originou, pois, uma manhã de indisposição geral. “Então e se fôssemos para a rotina do Café Central, onde não se passa nada a não ser emails?” Fomos, para nos comportarmos mais uma vez como alienados - e nisto não estávamos sozinhos -, com headphones de série, em frente a um computador, a gritar “gracias” às empregadas quando nos traziam o primeiro os dez simulacros de café da manhã e a meia-dúzia de “medias-lunas”, mini-croissants, “dulche” ou com sal, whatever. Umas quatro, cinco horas depois, tinham de encontrar um sítio para comprar um elástico com oito metros, uma agulha que coubesse nas respectivos varetas, se é que queríamos dormir debaixo da dita esta noite. Confesso que estava algo relutante com esta operação. Mas, depois de uma investigação de fundo, conseguimos reunir todo o material, para que a técnica francesa de recolocação de varetas fosse posta em prática antes do anoitecer. Tínhamos que nos despachar. Só tínhamos uma dez horas de dia.

Foi com grande espanto e admiração que observámos monsieur Pazat a cozer varetas como renda de bilros, notória expressão artesanal de Peniche, atravessando o elástico com grande mestria, congregando, uma a uma, devolvendo-lhes unidade. Concluída esta parte, havia que dar um nó potente em ambas as pontas, para segurança do conjunto, depois uma boa dose de fita-cola na vareta que colapsou, espetando uma farpa, retirando-a à dentada. E, como diria um canalizador antes de apresentar orçamento: Sim senhor, bonito serviço. Vamos lá então experimentar como se comporta na sua função na arquitectura da “carpa”? Diabos… Tinha a tenda esticado na nossa ausência? Teriam as veretas encolhido? O que era aquilo ali à frente? Parece mesmo uma vareta? E é. É mesmo uma vareta, a vareta que não estava no conjunto. “Muy bien, congratulaciones señor Pazat”, que na circunstância já tinha adoptado a cara número três (entre o amuado, o irado, o stressado e a acumulação dos últimos três factores, gerando um quarto, poderoso, que não vem ao caso descrever), tal como as adaptações franco-portuguesas de meia-dúzia de vernáculos comuns, que se devem ter ouvido no Chile, que o vento estava a favor.

De adaptação em adaptação, a tenda lá ficou de pé. Então e se voltassemos à magnífica urbe de Rio Gallegos, para socialização, para nos integrarmos na paisagem, para pesquisar idiossincrassias, para captar detalhes, para esgravatar assuntos, para dar um bom “walk in the wind”, com os casacos insuflados? Excitadíssimos, lá fomos.

E foi nas artérias nuas e desconsoladas de Rio Gallegos, que a nossa vida mudou sem retorno. Para citar a canção: “Engraçado como por vezes o encadeamento lógico de acções, ao princípio banais, atingem por vezes proporções gigantescas”. Estava ao frio, abandonado, girando ao sabor do vento impiedoso, preso nas mandíbulas da fera, mas mantendo toda a sua graciosidade, não perdendo a compostura, esguio nas orelhas, acolhedoramente quente, três listas verdes, doces, gastas, recusando espampanância, beleza invulgar, misto de bordeaux e branco sujo, emerso na poeira dos tempos, aos tempos resistente, pompom altivo, um pouco desgastado, mantendo intactas as suas cores originais, lã virgem, sossegado na boca do animal, de certo modo entregando-se, nisso demonstrando certa irreverência, uma certa jovialidade, que tão bem combinava com a sua palidez geral, lindo, sólido, porém, tímido, tímido, porém, sólido, convergência de tantas belezas, querendo voar como um condor da Patagónia, tão inocente, tão sabedor, pureza secular, amplitude milenar, ali, só para nós, como um sinal divino, adivinhando-nos companheiros, adivinhando este amor no primeiro olhar, pedindo-nos que o resgatássemos para a inseparabilidade. Tinha de ser com a voz segurança, não nos podendo permitir qualquer hesitação: “Canídeo, larga!!!!”. Obediente, a besta alimária largou a presa, combalida, feliz. “Como te chamas? Queres ser nosso? Queres partilhar-nos, El Gorro? Palavras desnecessárias. Era nosso, tal como nós somos dele. Não nos separaríamos mais, como casais octogenários em frente à televisão, como prótese dentária e gengiva, como unha com carne, como carne com batatas, como batatas com sal, como sal e pimenta, como pimenta e ovo estrelado, como ovo estrelado e feijão, como feijão e chachupinha, como cachupinha e grogue, como grogue e garrafas de plástico, como plástico e varetas, como varetas e tendas. Para onde voltámos os cinco. Nós, o Falcon, que estava com ciumeira, e El Gorro.


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- Dia 2 - 01.02.08
- Dia 1 - 01.01.08


Logo leio o texto mais logo… tem-se esquecido das marcas no mapa…
Abraço - CM
Grrrrrr,Grrrrrrr,Grrrrrr!!!!
Uauf, Uauf, Uauf!!!
Goooorrrrrroooooo!………………
………………rir a bom rir……………..
até as lágrimas!
Durmam bem e não fumem tanto!
Les joies du camping!!!!!
ola pessoal , nao percebi, se é o cao o 5º companheiro ou o gorro de orelhas?, de qualquer maneira espero que estejam todos bem, que tal as saudades deste nosso cantinho e ja sabem que o dakar vei passar na patagonia?, parece incrivel nao é, beijinhos para os 5 da via airada.
Je voulais savoir si vous étiez partis en éclaireurs pour le Dakar 2009 qui se déroule en Argentine et au Chili
Petits cachottiers!!!!
Que coisa!!!Três marmanjos de volta de um pobre perrito para lhe roubar o gorro, provavelmente o único consolo na sua vida de canídeo. Não ficam culpabilizados com o frio que ele possa ter??Porque não adoptaram o bichano?Pobrecito!!;=)
El Gorro é muito bonito!
Deve ser óptimo para o frio que se sente aí. Mas será que não vai ser um problema partilhá-lo entre os 3 aventureiros?
Nunca tinha pensado que semelhante achado poderia mudar o curso das coisas? Às vezes são as coisas mais insignificantes que mudam a nossa vida. Neste caso com o frio que está provavelmente El gorro muda muita coisa, nomeadamente uma orelhas “geladas”.
Beijinhos e continuação de boa aventura. Agora mais quentinha.
Espero que a tenda resista depois de semelhante trabalho de costura!!!
ps: e um irmão talvez que fizesse bem ao Falcon…vocês mimam-no muito, deve estar a ficar um menino insuportável!!!Ele é so “…o nosso Falconito, o nosso menino…o Falcon isto, o Falcon aquilo”, as gracinhas do Falcon, as diabruras do Falcon “…seu maroto”, dizem vocês com um brilhinho nos olhos e um contentamento babado semi-disfarçado…!;=)
“O gorro que te dei
não foi tecido por mim
foi antes arrancado
das fauces de um mastim”
BOA NOITE SENHORES JORNALISTAS,EU E A MINHA ESPOSA FICÁMOS MUITO ENTRISTECIDOS POR SABER QUE OS SENHORES TÊEM PASSADO MUITO FRIO E TÊEM DE ANDAR ATRÁS DOS CÃES PARA APANHAREM UNS GORRITOS QUE VOS AQUECAM DE NOITE.TAMBÉM NÃO SABÍAMOS QUE AÍ OS ANIMAIS ANDAM DE GORRO, MAS AGENTE ESTÁ SEMPRE A APRENDER…A MINHA ALBERTINA JÁ ESTÁ A TRICOTAR TRÊS BARRETES DE LÃ E CAXECOIS A CONDIZER QUE VAMOS ENVIAR PARA OS SENHORES…COMO NÃO SABEMOS AS CORES QUE OS SENHORES GOSTAM ESCOLHEMOS O MARRON GLACÉ QUE FICA SEMPRE BEM…QUANDO ESTIVEREM PRONTOS ENVIAMOS PARA ESTE SAITE QUE É MUITO RÁPIDO E DEVEM XEGAR A TEMPO.
OS VOSSOS, CONDOÍDOS, ALBANO E ALBERTINA.
bravo Albano et Albertina pour votre humour!!!