Dia 42
Diário de viagem

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Madrugada cedeu à manhã. Por causa de uma problemática de burocracia no Stand Los Amigos, onde no início comprámos o carro em Buenos Aires, que sinceramente já gostaríamos de recordar como aqueles amigos que já não são, ainda não os conseguimos esquecer. É que, de desculpa em desculpa, de versão em versão, de teoria em teoria, foram os Los Amigos em conjunto arrastando o envio do documento que precisamos para viajar para o Chile. Celia, a zelosa empregada, responsável pelo sector burocrático do estabelecimento, tinha-nos dito que não seria possível encontrar o anterior dono do Falcon, por este se encontrar a banhos, algures em parte desconhecida, como acontece com muitos argentinos em Janeiro, “out of business”.

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Assim sendo, não era possível ter o documento-magno de quem compra um carro na Argentina e precisa de sair com ele do País, o imprescindível 08. Celia, que nunca dá os seus recursos por esgotados, quando ainda estávamos em Buenos Aires, fez-nos primeiro o ponto da situação em matéria do sector automóvel em segunda-mão na Argentina, para depois nos apresentar a solução adequada ao nosso problema. Para viajar na Argentina, nada mais é preciso do que “tarjeta verde”, conforme pudemos comprovar depois de alguns encontros imediatos de primeiro grau com a policia, que nunca levantou quaisquer entraves ou questões relacionadas com a documentação que transportamos. Mas, ao longo da viagem, muitos foram os que nos avisaram que sem “08″ ou com coisa compatível, os policias chilenos, que não são brandos, jamais nos deixariam passar as suas fronteiras. A coisa compatível, segundo Celia, é um “poder” (vulga procuração), que legalmenrte substitui o “08″, dando-nos, perdoe-se a redundância, plenos poderes para fazer com o 006 aquilo que bem se entender, que no caso é mesmo seguir viagem para o Chile. Quase um mês e meio depois, acrescentando-se algumas ameaças de queixa na policia argentina e no consulado português, Celia, que ultimamente andava com o telemóvel desligado, conseguiu finalmente resolver o problema, prometendo que dentro de dias vai enviar o documento, via aérea, para o aeroporto de Rio Gallegos.
Mas a verdade é que tínhamos mesmo de viajar para o Chile, pelo menos para a cidade mais próxima, Punta Arenas, em plena região de Magalhães. Por isso, convocámos de novo o nosso piloto de serviço, el Dani, para ver se nos podia levar a bordo do seu Ford Ranger para o Chile. Consultado Germán a esse propósito, carta verde. “Off course, chicos!!!”. Que desfizéssemos a tenda, o que não era difícil, pois já estava suficientemente desfeita, juntássemos o necessário para dois ou três dias, que dentro de duas horas tínhamos vôo marcado para Punta Arenas. Por estrada, bem entendido. Dani, o nosso amigo Dani, anunciou desde logo que hoje não estava com ressaca, o que já não era mau princípio. Mas estava pronto a dar o seu melhor, pois tinha de regressar ainda hoje a Rio Gallegos. Amanhã ou, aliás, depois de amanhã era dia certo de ressaca, tão certo como amanhã ter um casamento, do qual era padrinho do noivo. A viagem não era assim tão curta. Até à fronteira do Chile, são apenas 60 quilómetros, mas até Punta Arenas eram mais 200.

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O Falcon ficava em terra, para merecido descanso. Dani, havia lugar para mais um? Mais que um amigo, mais que um “brother”, era já uma indispensabilidade. Se ele não fosse, nós também não íamos. Se ele não estivesse connosco, nós não seríamos nós. Fora uma noite inesquecível, de tanta proximidade, de irmandade, de união, de entendimento, de cumplicidade, de pureza, de comunhão, aceitando, comunicando, colocando todas as partículas químicas numa só equação, livres, como se não houvesse amanhã, por acaso hoje, livres, como se não houvesse depois de amanhã, neste caso amanhã, como se ontem, aliás, anteontem, na verdade ontem, fosse o início do mundo, deste novo mundo, em que já força nenhuma nos pode separar, gorro milenar, gorro da vida, calor, gerador concentracionista, polígrafo, El Gorro, o nosso gorrinho, o nosso alter ego, o nosso nós, o melhor eu de cada um. Dani, o nosso gorro. O nosso gorro, Dani.

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“Mucho gusto”. Em nome do gorro, igualmente Dani. Dani não era rapaz para levantar problemas a tão distinta presença. Arranjou-se lugar à frente para El Gorro, que tenho a impressão que nunca tinha ido ao Chile e, de tão puro, nunca tinha ouvido falar de um senhor ditador chamado Augusto Pinochet, nem da sua ditadura militar, nem da opressão, nem da exclusão, nem das mortes, nem de valas, nem de espingardas, nem de balas no parietal de inocentes, nem de mães sem filhos, nem de mulheres sem maridos, nem de órfãos, nem de funerais sem corpo presente, nem de exploração, nem da ruta Pinochet, aquela que hoje nos levaria ao Chile, para onde Dani já tinha arrancado com o ritmo do costume, agora que se sabe que o Lisboa-Dakar já não passa por Lisboa nem por Dakar, nem por Senegal nenhum, nem continente outro que não seja este onde nos encontramos, onde Dani é rei, quer no asfalto, quer nas duras estradas de gravilha.

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A etapa de hoje era no asfalto, com umas bermas agravilhadas, por onde Dani gostava de fazer as suas curvas, para não tornar a sua condução num exercício de monotonia a 180 quilómetros por hora. Se duvidassem, o próprio Dani produzia provas em andamento, a conduzir de telemóvel em punho, a tirar fotografias do conta-quilómetros com a sua câmera digital incorporada. “Que tal?”, perguntava. Que tal abrandar, Dani. El Gorro não estava habituado a velocidades vertiginosas. Dani estava noutra, ensimesmado, absorto nas suas artes de condução, uma mão no volante, outra no telemóvel.

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E foi assim, rapidamente, que atingimos a fronteira do Chile. Passaportes em punho, mochilas com todo o material atrás, pois, avisou Dani, tudo tinha que ser declarado. Por uma razão muito simples: Punta Arenas tem uma zona franca, muito apetecida dos argentinos em fim-de-semana, que ali se deslocam para comprar a metade do preço quase tudo o que precisam. Sobretudo, o que não precisam, como os “gadgets” indispensáveis da futilidade, arsenal infinito do consumismo. Foi preciso quase uma hora para cumprir todo os formalismos em frente a uns policias chilenos, a maior parte deles em pós-puberdade, com cara de poucos amigos, de olhar desconfiado, temporizando, à procura de sinais de coisa suspeita. Dani foi o primeiro am despachar-se, claro. Tivémos alguns problemas para incluir na comitiva o nosso gorrinho, que não tinha o passaporte em dia. E, quando voltámos ao carro, estava Dani debaixo dele - o carro -, na traseira, sob o eixo direito, mostrando de novo a tatuagem da cara do seu filho, desta vez em esforço para tentar levantar o pneu, completamente em baixo. Foi precisamente neste momento que vimos a sorte que tivémos momentos antes, a 180 quilómetros hora. Para azar não havia “macaco”, que por acaso, tanto no Chile como na Argentina, é “gato”. Um chileno simpático resolveu a coisa. E seguimos viagem, depois de substituir o pneu furado por outro no mesmo estado, informou Dani, que se tinha esquecido de o mandar arranjar. Que bom, Dani. Se calhar é coisa para ir mais devagar, não? “Si, claro”. Pois. Foi com grande esforço que Dani conseguiu conter o peso do seu pé direito, em muito melhor forma que a sua coluna.

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A viagem de 200 quilómetros até Punta Arenas foi, por isso, de grande expectativa, olhando constantemente para o retrovisor direito para atestar do estado do pneu traseiro, parando algumas vezes para fazer o mesmo. Já próximo da cidade, Dani disse a toda a gente para pôr o cinto. Que passa, Dani? Vais tentar uma manobra arriscada? “Carabineiros chilenos. Muy malos estes”. Ah, esclarecido. Bom, pelo menos chegámos em segurança a Punta Arenas, directos para uma oficina da especialidade pneumática. Já ao fim do dia.

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Dani pensou melhor e decidiu dormir em Punta Arenas. Jantaríamos, saíriamos. Depois de um jantar de “cordero”, nas suas múltiplas formas gastronómicas, umas garrafitas de tinto chileno e de uma sessão de prova da bebida nacional, o Pisco, coisa que os peruanos disputam arduamente, correu a noite animadíssima. Dani, no entanto, mostrava-se algo desanimado: Nunca tinha ouvido falar tanto português, tão depressa, sem perceber patavina. Mera distracção, Dani, “deculpa, perdón”. Seguimos com o nosso gorrinho e com Dani para um boliche local, muito dado à “cumbia”, uma espécie de “reggaeton” e de “reggaeton”, muito mais acelerado que qualquer “cumbia”. Pelo menos assim Dani estava no seu meio, comunicando na sua língua mãe. Mas, azar dos azares, mal chegámos ao dito boliche, começámos a ouvir a língua de Camões por todos os recantos, sobrepondo-se mesmo ao decibéis estridentes do local. Pois era, Dani. O boliche estava cheio de “portugas”, provenientes do norte do Chile, em excursão. Era precisamente o seu último dia de viagem. E, portanto, estavam a gastar os últimos cartuchos. Abraços e mais abraços, agora pago eu, agora pagas tu, agora pago eu, agora pagas tu. Agora o último, agora mais um, outro. Vá, este é o último. O último acabou por ser quando o boliche fechou. E tivémos que ir para o hotel. Estávamos preocupados: El Gorro não se estava a sentir bem. “Listo”.

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Comentários

9 respostas to “Dia 42”

  1. Apiko on February 13th, 2008 9:46 am

    Buen dia, muchachos!
    Por más que cuando estoy escribiendo por vuestras latitudes debe ser madrugada.
    Estarán dándole al Pisco todavia?!?
    Me pueden traer una botellita de ese nectar de los dioses (Incas???)? Que recuerdos de mi adolescencia…..

    Miren, ustedes encontraron en este viaje, las dos caras de la misma moneda que es la Argentina:

    Los “piolas”, los “vivos” (os expertalhões em português vernáculo) con esta historia del Falcon
    (y que se concentran en grande número en Buenos Aires)
    y la Amistad y Solidaridad (así, con mayúsculas) de las personas simples y trabajadoras que hacen que el país sea grande….y no sólo en espacio.

    Buen viaje, brothers!
    Apiko

  2. oscar eduardo de brito on February 13th, 2008 10:23 am

    Cuidado el pisco y ls 180 Km / hora no son
    compatibles. Viajen despacio

    Oscar

  3. Albano Pereira on February 13th, 2008 11:45 am

    SENHORA(o)CYBERANNIE EU E A MINHA ESPOSA FICÁMOS MUITO SENSIBILIZADOS COM O COMPREENSÃO QUE DEMONSTROU PARA COM A GENTE. OS SENHORES JORNALISTAS NÃO NOS TÊM RESPONDIDO, COITADOS DE TÃO OCUPADOS QUE ANDAM, MAS É SEMPRE BOM SABER QUE AS NOSSSAS RALAÇÕES SÃO SEMPRE OUVIDAS.
    OS SEUS ALBANO E ALBERTINA.

  4. cyberannie on February 13th, 2008 11:55 am

    J’approuve totalement ce que dit Apiko. Mais ce n’est pas spécifique à l’Argentine de rencontrer des gens comme le garagiste et Celia!!!!
    Par contre des Dani ou des Oscar on n’en trouve pas tous les jours et je trouve que vous avez eu beaucoup de chance de rencontrer ces personnes qui donnent une image trés sympathique de leur pays et font honneur à l’Argentine;
    je suis un peu inquiète pour la suite du voyage avec la Falcon!!!!!
    Bonne continuation
    bonne chance

  5. cyberannie on February 13th, 2008 12:48 pm

    Albano et Albertina continuez à me sfaire sourire avec vos commentaires…Je suis sûre que les “senhores jornalistas ” les lisent même s’ils ne répondent pas, pris , je suppose , par leurs multiples occupations!!!

  6. MARGARIDA SOUSA on February 13th, 2008 1:56 pm

    rapaziada é preciso muita calma com as velocidades, espero que consigam resolver rapidamente o problema do falcon , pois nao tinha graça nenhuma ficarem a meio por um problema que nao é vosso , continuem muito bem e cuidado com os copos demasiado cheios, beijinhos.

  7. Patrícia on February 13th, 2008 4:31 pm

    Então a ressaca?
    E El Gorro como está? Espero que bem pois ainda não deve estar habituado a tanto “andamento”, nem de carro nem de “noite”. Tenham cuidado com ele e tratem-no bem, não deixem que lhe puxem nenhum fio. E vocês aventureiros? O vosso corpo já se deve estar a ressentir de tantas agressões (falta de sono, bebida a mais, dormir no chão…).
    Mas “quem corre por gosto não cansa” ou cansa? O melhor é reservarem já uma estadia num SPA.
    Beijinhos e boa viagem por terras do Chile!!!

  8. Patrícia on February 13th, 2008 4:32 pm

    Então a ressaca? Foi má
    E El Gorro como está? Espero que bem pois ainda não deve estar habituado a tanto “andamento”, nem de carro nem de “noite”. Tenham cuidado com ele e tratem-no bem, não deixem que lhe puxem nenhum fio. E vocês aventureiros? O vosso corpo já se deve estar a ressentir de tantas agressões (falta de sono, bebida a mais, dormir no chão…).
    Mas “quem corre por gosto não cansa” ou cansa? O melhor é reservarem já uma estadia num SPA.
    Beijinhos e boa viagem por terras do Chile!!!

  9. Mariana Canto e Castro on February 13th, 2008 11:30 pm

    Adoro as fotografias.

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