Seria tudo muito simples se tudo estivesse dito quando se diz que Comodoro Rivadavia, na Patagónia central, é a cidade mais produtiva da Argentina em matéria de exploração petrolÃfera. É a cidade dos milhões em trânsito. A cidade do negócio, do petro-dólar, de um certo tipo de novo-riquismo e do florescimento de uma nova burguesia, que procurou refúgio na cidade contÃgua, Rada Tilly. É a cidade do sub-solo. A cidade do trabalho. A cidade concentracionista de tantas culturas, de tantas diásporas. E, apesar disso, é a cidade do nada, à procura de uma identidade, à procura de coisas essenciais, encerrada dentro do seu limÃtrofe, perdida no meio da Patagónia, à procura de si num mar de petróleo.
Comodoro Rivadavia já é uma cidade centenária. Os primeiros colonos que ali chegaram, entre eles muitos portugueses, que ainda hoje formam uma das maiores e mais unidas comunidades da cidade, tiveram de desbravar uma região em estado bruto, sem outra coisa se não um imenso mar. Manuel Orlando dos Reis, algarvio, tem 77 anos. E, provavelmente, não é protótipo. Veio com o seu pai para Comodoro Rivadavia ainda criança, no tempo em que ali não havia nada, só dificuldades e torres de extracção de petróleo. Há coisas que não mudam, portanto. Cedo percebeu que não havia nada, no sentido em que tudo havia para fazer. O seu pai trabalharia na extracção de petróleo. O miúdo seguir-lhe-ia as pisadas. Manuel viajou por todo o mundo, muitas vezes clandestino em barcos da Marinha Mercante, muitas vezes em cidades e paÃses que lhe eram desconhecidos. E sempre regressou.
Manuel dos Reis não tem problema nenhum em afirmar o seguinte: “Tenho muitos inimigos em vida. Há muita gente com inveja. Tenho mucha plata”, diz, esfregando o indicador no polegar. “Tenho milhões, não me importo de dizer isto. E não deixo que ninguém, sejam portugueses ou não, me ultrapassem no negócio”. Petróleo, senhor dos Reis? “Claro”. Claro. Exploração? “Não é bem”. Manuel dos Reis é o rei da sucata petrolÃfera. Vende peças para as máquinas de extracção e tem uma frota pesqueira. Enriqueceu assim.
A maior parte dos portugueses de Comodoro, três mil e setecentos no total, não podem dizer o mesmo. Trabalham sobretudo nas petrolÃferas, alguns na pesca, que já foi “chão” que deu uvas, quando as águas de Comodoro eram limpas. Há muitos padeiros portugueses, muita gente na construção civil, ferreiros, pedreiros. A sua descendência já fala outra lÃngua, tiraram os seus cursos, querem mais.
Tal como mais continuam a querer os seus pais e os seus avós, que viviam, pois, como era possÃvel, Tudo faltava em Comodoro, sobretudo o que ainda hoje escasseia: água, o ouro do futuro, a conta gotas na cidade. Foi, aliás, por causa da escassez de água que os primeiros colonos conseguiram que do poder centralista de Buenos Aires viessem sondas exploratórias para procurar lençóis aquÃferos que dessem de beber à cidade, na altura ainda em crescimento moderado. Era então pouco mais que uma cidade fantasma, explorando a subsistência do mar, vivendo sob o frio do longo Inverno, fustigada sempre pelas rajadas tempestuosas do vento impiedoso da Patagónia.
Foram anos de espera, portanto, de seca, pelas tão desejadas sondas exploratórias do regime de Buenos Aires. Foi com festa que os habitantes desesperados da cidade as viram chegar. E, para espanto de todos, em vez de água, encontrou-se petróleo, lençóis e lençóis de petróleo, petróleo como a Argentina nunca tinha visto, e já tinha visto muito. E a vida de Comodoro Rivadavia mudou irreversivelmente.
A cidade dos milhões
Chegaram as grandes companhias petrolÃferas, as multinacionais, os negócios multimilionários, os sub-negócios, os interesses superiores, as máquinas “sugadoras”, implantando-se no território algo que desde logo ultrapassou o interesse dos de Comodoro Rivadavia, desenraizados, cada vez mais isolados dentro do seu espaço. A cidade cresceu depressa, depressa de mais, desordenadÃssima, casa sobre casa, sem planeamento, esticando os seus braços, afastando-se lentamente do mar, para a colina sobranceira, com vista para uma cidade cinzenta e triste, hoje tão desesperada quanto estava antes de o “progresso” se ter instalado, instalando-se uma espécie de colete de forças que lhe trava as vias de verdadeiro desenvolvimento.
Os gigantes petrolÃferos, a começar pela Repsol, que recentemente se tornou accionista da petrolÃfera argentina, só têm em Comodoro Rivadavia um único interesse: aquele que as máquinas de extracção - que só no perÃmetro da cidade são mais de 1 100 a funcionar -, retiram ininterruptamente. Na provÃncia de Chubut estão instaladas mais de 50 mil, extraindo até ao tutano os seus recursos naturais, desafiando a sua inesgotabilidade. Há coisa de um ano, a provÃncia de Chubut conseguiu ultrapassar a de Neuquén, que detinha todos os recordes na exploração de crude. Em 2006, Chubut produziu cerca de 10 milhões de metros cúbicos de crude.
Os números, em termos nacionais, são estes: Neuquén, já remetida para o segundo posto, nove milhões de metros cúbicos anuais. Chubut, dez milhões de metros cúbicos. Santa Cruz, oito milhões de metros cúbicos. Mendoza, cinco milhões de metros cúbicos. No total da Argentina, a exploração de crude ficou acima dos 38 milhões de metros cúbicos. Dito.
A cidade do paradoxo
À cidade de Comodoro Rivadavia tudo falta. Não há saneamento básico, não há ensino digno do nome, não há tratamento de águas residuais, os detritos que a cidade produz são pura e simplesmente encaminhados para o mar, outrora fonte de riqueza. Onde antes era praia limpa, hoje nem os pássaros se aproximam. Não existe sequer o óbvio: uma estação de desalinização, para tornar o imenso mar defronte em água potável. Nem isso. Comodoro Rivadavia é, portanto, uma cidade ocupada e simultaneamente ao abandono e simultaneamente sitiada por ele. Maior paradoxo não podia haver. As companhias petrolÃferas retiram do subsolo da cidade um lucro diário de cerca de 40 milhões de dólares.
Desse montante, aparentemente, a “municipalidad” só recebe Ãnfima parte, com cálculos feitos muito por alto, supostamente dez por cento de um bolo, que na verdade é mil vezes muito maior. O petróleo segue para as refinarias dos arredores, é colocado nos enormes cargueiros, depois encaminhado para a capital federal, para o restricto sector da imensa Buenos Aires, para depois ser exportado para as inúmeras ramificações do lucro, multiplicado vezes sem conta. Comodoro Rivadavia não é diferente de tantas outras Comodoro no mundo, riquÃssimas e a vegetar em pobreza.
A cidade do contra-exemplo
A sua outra riqueza, o imponente parque eólico que espreita altivo toda a cidade, é o exemplo oposto do que Comodoro Rivadavia podia ter sido sem ter que perder. As hélices gigantes, no topo de torres de 45 metros, foram até ao ano passado as mais produtivas de toda a América do Sul. E, paradoxo dos paradoxos, alguns sectores da extracção petrolÃfera já são alimentados pela energia eólica. A ecologia a alimentar a máquina propulsora da fonte poluidora, aspirador da região, é um exemplo de contra-exemplo, a vigorar numa cidade que, mais que exploradora, é explorada. A maior parte dos habitantes de Comodoro Rivadavia só têm uma de duas alternativas: ou trabalham no petróleo, ou trabalham no mar. E a segunda, por causa da primeira, nem sempre é compatÃvel.
O anterior presidente argentino, Néstor Kirchner, declarou na vigência do seu último mandato uma guerra “teatral” aos desastres ecológicos, que vezes demais ocorrem na costa ou ao largo de Comodoro Rivadavia, arremessando à opinião pública uma campanha de penas pesadas contra os poluidores do ecossistema argentino. A sua primeira-dama, Cristina Kirchner, é hoje a presidente da Argentina, e fala do mesmo. Mas o mesmo acontece, com o marido, ex-presidente, a assistir ao curso das suas polÃticas, as mesmas que falam de meio-ambiente enquanto fecham negócio com as multinacionais em nome dos postos de trabalho.
É óbvio que a mecânica imparável das máquinas extractoras de petróleo nunca será capaz de impedir focos poluidores. É óbvio que nem mesmo os últimos modelos, de tecnologia de ponta em matéria de extracção, que consiste em submergir as máquinas “sugadoras”, também não serão capazes de impedir pior do mal que já fazem. Muito mais óbvio é que os petroleiros vão continuar a derramar, que alguma coisa vai sempre falhar, e quem alguém vai sempre pagar. Quem? Já se sabe.

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