Dia 45
Diário de viagem

ALERTA. AMARELO, ROXO, VERMELHO, LARANJA, AZUL, SOS, SOCORRO, AYUTO, HELP US, PLEASE HELP, AU SECOURS, HILFE.

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É com o coração desfeito que escrevo estas palavras, a quem possa interessar, em Punta Arenas, de onde estamos de saída, em todo o território do Chile, na Antárctida, na Terra do Fogo, na Argentina, na Bolívia, no Qatar, na Sibéria, em Albufeira, na China, no Cazaquistão, na República Socialista da Albânia, no Vaticano, na sede do FC Porto, na Finisterra, aqui tão perto, no paralelo 38, na península cimenteira da Arrábida, no Alaska, em Badajoz, na Feira do Relógio, nos confins desta grande circunferência de coincidências que fez com que ficássemos despojados da nossa alma, de todas as pequenas coisas em pura lã virgem, desse todo tão grande, tão enorme, tão absorvente, na maior parte das vezes anti-aderente, sempre, mas sempre, presença. Até agora, presente que está, nesta ausência dolorosa.

Precisamos de ajuda. Precisamos de interacção planetária, de conjugação cósmica nesta demanda. Não conseguimos ser, não conseguimos estar, não conseguimos pensar, não nos é permitido comunicar se não por esta via, não nos é permitido dormir, é impossível a ingestão de alimentos, estamos encerrados ainda não percebi bem onde mas, ao que nos é possível vislumbrar, trata-se de um lugar escuro, insidioso, de trevas, cheio de monstros não corpóreos, nuvens negras sobre as nossas cabeças, cabeças sobre as nossas nuvens mais negras, o nosso pior chegou para nos atormentar e não temos como evitá-lo, o carteiro do mundo entrega-nos sentimentos de culpa, a culpabilidade rói-nos a alma, desarticula-nos, perdidos & achados, em nenhures, nesse sítio onde só há fantasmas, só memórias, sem futuro, só rewind, só tristeza, só uma infinita sobriedade, esta a que ficámos condenados, em quatro paredes que se comprimem, que nos achatam até ao âmago. Só existe uma palavra no mundo, sem tradução em nenhuma outra língua, em nenhum outro idioma, que exprima tão absolutamente este vazio: Saudade.

Resta-nos brincar às ilusões, resta-nos nós, à sombra dessa ausência, em colete de forças, a bater com a cabeça das paredes almofadadas da civilização, sem rota, sem rumo, sem ruta que nos leve ao reencontro, ao recomeço, ao zero dessa estaca longínqua e tão próxima, nessa ferida ainda aberta, que não esteja neste presente, que não nos solicite a brevidade dos momentos, que não nos remeta para a sua irreversibilidade, que nos deixe quietos no passado, onde ainda anteontem estivémos, tão felizes.

Breve reconstituição: Caminhávamos tranquilamente nas artérias escorregadias de Punta Arenas, queixando-nos das solas dos sapatos e da chuva, cavaqueando sobre o fácil que é uma pessoa ficar sem um tusto no Chile, discorrendo sobre o difícil que é fazer câmbios de cabeça, sobre os monumentos que na verdade não haviam para ver, se guardassemos excepção para a Casa-Museu Sara Braun, uma das primeiras colonizadoras de Punta Arenas, que tem actualmente nas suas catacumbas um bar chamado Taverna, a fábrica de cerveja mais austral do mundo, também é o único sítio do Chile onde se extrai petróleo, mas não é propriamente uma coisa excitante, a praça Muñoz, onde está a estátua de Fernão Magalhães, ou a praça central de Punta Arenas, onde se congregam aos magotes os turistas e os pedintes, que ao entardecer também tem teatro de rua, e performers “hippie-barbudo” a engolir fogo e a cuspir chamas.

Em matéria de turismo, também de salientar que, em mês e meio de Argentina, não conseguimos ver um único turista inglês, coisa que abundava em Punta Arenas, sinal que a guerra das Malvinas ainda está bem fresca. Aliás, por todos os sítios - na Argentina, bem entendido -, se vêem placas com palavras de ordem como: “As malvinas são argentinas”. Óbuses ingleses disseram que não. Mas a Argentina continua a achar que sim. A própria Cristina Kirchner, no seu discurso de tomada de posse na presidência, em dezembro passado, não quis deixar de falar disso mesmo. Mas, onde estávamos? Sim, no Chile. Exactamente naquela rua de Punta Arenas, onde tínhamos escorregado para a vala comum do desespero.

Descemos a mesma rua, em direcção ao preciso sítio onde tínhamos estado, percorremos o mesmo trilho, olhando esperança por todos os recantos, cedendo lentamente ao arbítrio de já não possuir aquilo que não possuíamos, partilhávamos só, descomprometidamente, livres como asas, livres como éramos. Agora não. Agora era só peso, mais pesado que a “currency” chilena. Agora era só nada, rien, patavina, um imenso népia que adormeceu às nossas vidas, traindo-nos, subtraindo-nos, obrigando-nos à reequação. Subimos de novo, a mesma rua, a mesma esquina, o mesmo quiosque onde tínhamos visto com admiração uma “H”, revista generalista argentina, conhecida pela profundidade das suas reportagens, fomos ao “cajero” onde tínhamos levantado o dinheiro que já não tínhamos, passando pelo café onde bebemos seis homónimos, em direcção ao Condor de Plata, quarto 25, onde moravam as nossas memórias mais recentes, também as mais felizes. Não estava ninguém no quarto. Mas já estivera a empregada de limpeza. E foi ali, de súbito e com violência, que nos caiu a ausência. Agora éramos só nós, os nossos infelizes nós.
Foi sem querer, mas tropeçámos no vácuo e caímos neste nada. Onde estás? Como fomos perder-te, gorrinho, el imenso? E agora? E mais logo?

Sem outro assunto subscrevo-me com elevada estima, consideração e infinita desolação

Rio Gallegos, 15 de Fevereiro de 2008.

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Comentários

15 respostas to “Dia 45”

  1. Alma on February 16th, 2008 3:09 pm

    Viajo atraves das vossas palavras e sonho com a viagem de sonho que um dia irei fazer também.

    Os meus sentimentos pela perda.

  2. gabi on February 16th, 2008 3:18 pm

    foi o gorro mais bonito que jah vi.
    que triste,que triste!
    mas vai passar.
    como tudo!
    beijos.
    mg.

  3. Marco on February 16th, 2008 3:42 pm

    NOOOOoooooooooo…
    bom.. para sempre ficará a homenagem a El Gorro
    :)

  4. Apiko on February 16th, 2008 4:51 pm

    Eh, Eh, Eh!

    El gorrito se fué, el gorrito se pirou! Escafedeu-se, se tomó las villa diego! PUUUFFF!!!

    O será el perrito que se llevó el gorrito?!?

    Pobrezitos, chiquititos, tomensé un pisquito machitos.

    Hasta prontito y…. no jodan más con el gorrito.

    Y el Falconzito, como anda?

    Apikito

  5. sofia on February 16th, 2008 6:13 pm

    entao o que é que aconteceu ao gorrito, perderam o rapaz , paciencia para a proxim arranjem outro e façam de maneira a nao o perder , sera que nao foi o falcon com ciumes?, beijinhos para oa tres e condolencias.

  6. MARGARIDA SOUSA on February 16th, 2008 6:16 pm

    ola pessoal nao vale pena chorar , o melhor é arrajnar outro e vao ver que tudo passa, muitos beijinhos e saudades para os tres.

  7. Cameraman Metalico on February 16th, 2008 6:49 pm

    Perderam o gorro ou o argentino…. não percebi…
    Na Madeira fazem uns parecidos… don’t worry!
    CM

  8. Albano Pereira on February 16th, 2008 8:02 pm

    SENHORES JORNALISTAS, BOA NOITE.FOI COM MUITA TRISTEZA QUE EU E MINHA ESPOSA OUVIMOS AS NOTÍCIAS DOS SENHORES E SENTIMOS TAMBÉM A DOR QUE OS SENHORES DEVEM ESTAR A SENTIR…A MINHA ALBERTINA ESTÁ INCONSULÁVEL, CHORA PELOS CANTOS, ARRANHA-SE, PUXA OS CABELOS, ESTRABUXA NO CHÃO EU TAMBÉM QUERIA FAZER O MESMO MAS TENHO DE SER FORTE PARA A AJUDAR…ESTAMOS DESFEITOS ESTAMOS PERDIDOS TAMBÉM NÃO CONSEGUIMOS VER O NOSSO FUTURO NEM O DOS SENHORES…
    MAS TEMOS UMA ESPERANSSINHA, UMA PEQUENA LUZINHA DE SOL QUE VENHA ALUMIAR AS NOSSAS VIDAS E AS DOS SENHORES…QUE OS NOSSOS GORRITOS XEGUEM ATEMPO, SABEMOS QUE O EL GORRO ERA COMO UM FILHO PARA OS SENHORES E NADA O PODE SUBESTITUIR,MAS NOSSAS OFERENDAS LEVARÃO UM POUCO DO NOSSO CARINHO E DO NOSSO CALOR PARA OS CONFORTAR NA MESURA DO IMPOSSÍVEL.
    OS VOSSOS DEDICADOS, ALBANO E ALBERTINA.

  9. Carla Neto on February 16th, 2008 8:46 pm

    É pá que cena meus…que mau…mas já viram bem?
    às tantas pode estar no meio da vossa tralha, entreduas peúgas, no sa saco dos chinelos, na caixinha da escova de dentes, vejam com calma…
    Não desanimem que o pessoal precisa de vocês!Não cometam nenhuma loucura!Please!!

  10. Myra Gore on February 16th, 2008 9:16 pm

    Encontros/Desencontros,Amores/Desamores, Gorros/Desgorros…vida perra!!

  11. Fátima Cunha on February 16th, 2008 10:33 pm

    “…feito de lã entrançada
    El Gorro, o Gorrnho
    Tanto o passearam
    que o perderam pl`o caminho…”

  12. Mariana Canto e Castro on February 16th, 2008 10:50 pm

    … sentidos pêsames…
    ;-)

  13. Marina on February 17th, 2008 12:49 am

    eh não posso crer, perderam o gorrito?
    Paciência … a vida é feita de encontros e desencontros.
    Não chorem mais, please, please … amanhã é outro dia, outro encontro, outro gorrito, quem sabe mais charmoso, mais fofinho …

    beijos

  14. cyberannie on February 17th, 2008 10:47 am

    “Una grande tristeza”pour cette perte et tous les soucis de votre quotidien!! Mais ne vous laissez pas abattre. Chaque problème a sa solution!!
    Bisous à vous trois et bonne continuation.

  15. Patrícia on February 18th, 2008 4:30 pm

    ohhhhhhhhhhhhhh!!
    Estou desolada… Perderam El gorrito…
    O inseparável companheiro que vos protegia desse vento frio. Acompanho-vos no sentimento!
    Gostei muito do texto… Plasma com grande emoção a dificuldade da vossa perda. Luis escreves muito bem.
    Beijinhos e continuação de boa viagem.

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