
O poder não é só querer. Se fosse, já o tínhamos e já estávamos a léguas de Rio Gallegos, pese embora a simpatia da família da Chakra Daniel, com Gérman à cabeça, Dani ainda em Buenos Aires nas corridas de moto 4, a mulher de Gérman a desenhar as marcas do seu corpo no velho sofá, o neto a perseguir os cães, estes a entrar sorrateiramente em casa, em busca do calor, e os empregados do camping, que andam todos contentes com uns “walkie talkies” top-line, a comunicar aos sussurros, para não se ouvirem falar, já nunca andam separados a distâncias superiores a vinte metros.
Celia, zelosa funcionária dos Automotores Los Amigos, tinha prometido resolver a questão do “poder”, a bendita procuração que necessitamos para cruzar fronteiras ultra-burocráticas como a do Chile, que já experimentámos sem grandes traumas, sem grandes alegrias, sem grandes problemáticas, que não fossem declarar por nossa honra que não éramos traficantes de vegetais, nem coisa que se pareça, nem tínhamos ingerido carne de vaca com BSE nas passadas 48 horas. Para ser sincero, não andamos a comer muitos vegetais, nem fruta. Quanto à carne andamos a fazer de tudo para evitar a BSE, embora nos restaurantes ou nas “carnicerias”, vulgos talhos, em geral não dê muito jeito perguntar se a chicha vem com BSE de série.

Se acreditássemos piamente na promessa de Celia - até porque, segundo a nossa contabilidade, já passava de uma dezena o conjunto de promessas não cumpridas -, ainda hoje testaríamos os poderes do “poder”, sendo certo que sem ele não podíamos. E, por outro lado, já não podíamos esperar. A hipótese era vender o Falcon, mudar os planos e as rotas, utilizar autocarros e comboios, despachar a maior parte da bagagem para Buenos Aires e seguir viagem como fazem os comuns turistas. Certamente que não havíamos de conhecer tantos mecânicos. Paciência. Há coisas piores: Como não ter o “poder” e partir uma perna.
Pensavamos nisto em frente a “desayuno” do Café Central - onde é que havia de ser?! -, médias lunas e cafe con leche, e uma pizza roquefort e uma coca light para monsieur Pazat, que tinha acordado com apetite voraz. E eis que chega um SMS de Celia, que tinha posto o marido a tratar de descobrir o paradeiro do antigo dono do Falcon. Ora bem, dizia Celia, “listo”, tratado efectivado, concluído, concretizado, arrumado e entregue o assunto com carácter urgente na Jet Paq, correios aéreos, directamente para o aeroporto de Rio Gallegos.

Com uma lata do tamanho da Patagónia, Celia informava-nos ainda da necessidade de lhe enviarmos mais 400 pesos (mais ou menos 85 euros) para pagar as despesas do respectivo “poder”. Por unanimidade, decidimos não lhe pagar, embora ela ainda não saiba, pelo mês e tal de atraso, pelos atrasos que nos causou, pelo conjunto de telefonemas que não atendeu, pelas promessas que não cumpriu e ainda pelo facto deste “poder” ter apenas carácter provisório, tendo nós ainda de encontrar o proprietário do 006, para assinar o famigerado documento de compra, para que logo de seguida o possamos vender. Contas de outro rosário.
Agora a questão era meramente técnica. Sem “poder” não havia carro, sem carro havia que reformular a logística, reformulando esta havia que reformular o orçamento, reformulando este, havia que reformatar as unidades neuronais, que por estes dias andam a sofrer q.b., às novas condições que se impunham. Porém, depois de irmos pessoalmente aos escritórios da Jet Paq em Rio Gallegos, confirmar se os códigos que Celia nos tinha enviado estavam correctos, assim como correcta estava a informação que o “poder” ia chegar ainda de manhã. No primeiro de dois vôos provenientes de Buenos Aires. Até que enfim, um pouco de sorte. “Si senõr, llega en dos horitas”, disse o simpático funcionário da Jet Paq, aliás era mais que simpático, era um autêntico santo, aos nossos olhos, à beira da beatificação. Para variar, fomos fazer horas para o Café Central. Monsieur Pazat que, sabe-se lá porquê não estava com grande fome, pediu um café com leite e um par de médias-lunas. Nós, uma pizza roquefort e duas colas-light, combinação de certo modo paradoxal, mas que evita quaisquer contacto com a BSE ou com os perigosos vegetais.

Duas horas depois, havia alegria no balcão da Jet Paq. O nosso funcionário nunca tinha visto ninguém tão contente por receber uma encomenda. Tanto, que não resistiu a espreitar para dentro do envelope assim que o abrimos. Tentámos em vão explicar-lhe os motivos do nossa alegria, enquanto cantávamos um velho tema pop-rap-rap-pop “I´ve got the power!!!”. Pois bem, já cá cantava o dito cujo, a tralha já estava arrumada no carro, tínhamos uma tenda nova, que comprámos a bom preço na zona franca de Punta Arenas, tínhamos o depósito atestado de “nafta”, um mapa actualizado de estradas por actualizar, o Falcon tinha pegado, o sector eléctrico mantinha níveis mínimos de dignidade, ainda cabíamos os três no carro, coisa que começa a ser difícil, dada a quantidade de tralha amontoada, estavamos, portanto, em estado de felicidade da boa.
Fomos dar um último abraço a Germán, que fez questão de não nos cobrar o camping nem todo o conjunto de gentilezas que teve para connosco e, sem mais demoras, toca a andar. Objectivo: Ushuaia, fim do mundo, a cerca de 600 quilómetros de Rio Gallegos. Objectivo realista: Rio Grande, cidade argentina, a coisa de metade da caminho.

Chegados à fronteira, já sabíamos da rotina, acrescentando toda a burocracia relacionada com a passagem do carro. Na primeira parte, nada a comentar. Carimbo e adiós. Ou seja, teríamos de passar ao sector aduaneiro específico para “coches”. Tememos o pior, pouco crentes no “poder”. Apanhámos o funcionário mais simpático de todas as fronteiras do mundo, que não era capaz de estar mais de dois segundos sem dizer uma piadola, em frente a um computador a preto e branco, ao lado de uma televisão a cores, onde passava uma “sitcom” argentina, que lhe provocava mais gargalhadas ainda. Bom… a coisa parecia bem encaminhada. E, às gargalhas, o funcionário informou-nos que era o primeiro Falcon a passar por ali. O primeiro? Como? Hoje? Esta semana? Este mês? Este ano? Siempre? Disse o funcionário que nunca tinha visto ninguém tentar fazer aquele percurso com uma viaura tão categorizada como um Ford Falcon, ano 80, em perfeito estado de imperfeição como o nosso. Não contente de tão contente, chamou um colega para lhe contar a anedota: Estes vão até a Ushuaia com o Falcon e ainda querem subir a Cordilheira dos Andes com ela, disse ao colega, que por acaso estava com cara de poucos amigos e também já estivera a rondar o Falcon lá fora, que eu bem o tinha visto. “Craisy gringos!!!” Aparentemente, este señor não achou piada à anedota do colega. E, com expressão impedernida informou desde logo que não podíamos passar com o carro. Segundo a lei argentina, acrescentou, não é permitido a um estrangeiro sair com um carro argentino da Argentina. Mau Maria. “Bad Mary, señor, então e o poder? Não era melhor ler o que ali estava escrito?” Sim senhor, bela ideia. O funcionário simpático pegou no poder e foi lá dentro falar com o chefe sobre o assunto. O antipático ficou à distância, a saborear não sei bem o quê com uma certa sobranceria.

Uma hora depois, estavamos a sair da fronteira argentina. Cinco minutos depois estávamos a parar na fronteira do Chile. Para grande espanto, não foi muito demorado, cerca de uma hora. O mais curioso é que os funcionários chilenos mal quiseram olhar para o poder, olharam, sim para a papelada que nos tinham fornecido o sector congénere argentino. Fatava agora a inspecção ao Falcon, com a presença de um “canídeo esnifador” em busca de drogas ou vegetais ilícitos. Mal o funcionário aduaneiro abriu a mala do carro, esta quase que explodia como as caixinhas de supresa, em que salta do interior um macaco molaflex ou bicharoco que o valha. A verdade é que o funcionário achou que ia ter uma trabalheira desgraçada. Preferiu olhar-nos como que a dizer: “Vá confessa, se tens a confessar alguma coisa, se não ainda me obrigas a ter de trabalhar”. Se tínhamos alguma coisa a declarar? Não. Se trazíamos vegetais? Não. Não e não e mais não, señor fronteiriço. “Muy bien”.

Depois de tantas histórias acerca das autoridades chilenas em geral nem queríamos acreditar. Já estava. Agora, em território chileno, havia que seguir caminho para atravessar o Estreito de Magalhães - sim Magalhães -, ainda hoje. O local de travessia fica a escassos 60 quilómetros e há barcos de hora a hora. Cruzámos, pois, o Estreito de Magalhães, dentro de um barco carregado de camiões e de outros carros, modelo recentes, onde quase não se conseguia sequer caminhar para comprar o bilhete ou para chegar ao convés, onde a vista era magnífica e os golfinhos faziam exibições ao lado do barco. A travessia não leva mais de meia-hora. Chegámos à outra margem, ainda Chile, em plena Tierra del Fuego, praticamente ao cair na noite. E, quando a noite caiu, verificámos que não tínhamos luzes. Ou, aliás, tínhamos, mas estavam com vida própria, acendendo e apagando ao acaso. Não estava grande coisa. Ainda por cima numa estrada povoada de camiões em sentido contrário. Nem o Guillaume conseguiu fazer um milagre com o alicate a torcer todos os fios soltos disponíveis no Falcon, e são inúmeros. Era meia-noite e muito. E, pronto, estávamos na estrada sem luzes. E foi então que descobrimos um hotel óptimo, mesmo à beira da estrada, ainda a mais de 100 quilómetros da San Sebastian, onde fica a fronteira para se reentrar na Argentina. Lá dentro do hotel devia estar quentinho. No hotel Falcon, onde dormimos, estava um frio desgraçado.


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ALELUIA! deus é grande - CM
Buendia, …..buendia para mí (para ustedes deve ser madrugada, alta, será?
Bravo, que grande imagen de entrada
…….Grandíssima imagen de LPC….Bravo, otra vez!
Bravo, veo que no pierden humor, a pesar de las contrariedades.
algún dia les contaré las simpatias entre argentinos y chilenos
On Board, brothers!
Nouremi Naki
Apiko
Fase 2:
Perdonen-me muchachos, pero Rio Grande está en Argentina…… si, yá lo sé, que Chile, que Argentina…..bla,bla,bla.
Pero en los mapas viene del lado argentino, está sobre el Oceáno Atlántico.
Ushuaia es que queda junto a la frontera con Chile!
Para que conste!
Apiko
Sem duvida essa tal audacia deu frutos.. Parabens e continuacao.. Que nada nem ninguem faca parar tamanha ousadia (le-se confianca) em mecanica automovel. A chapa ainda e do melhor, embora goste mais de acreditar que e tudo forca de vontade..
back on the road! assim é que é. Go go Falcon!
palavra que vou ficar admirada se o falcon 006 conseguir chegar ao fim e poder ser vendido novamente, deus queira que sim, luis pedro está feliz ao receber a papelada, e bem feito nao terem mandado o dinheiro para a celia , beijinhos para todos.
A force de passer laes frontières vous ne savez plus où vous ëtes?? je confirme ce que dit Apiko/ Rio Grande est en Argentine. mais je suppose qu’il s’agit d’un lapsus.
Bon vous voilà enfin en régle avec la Falcon: j’approuve votre décision de ne pas avoir payé Célia!!
remplissez bien vos yeux des paysages mythiques de Ushuaia
Bonne continuation
Lindíssimas fotos!!
Caro Apiko, pois é evidente que tens razão. Lapso. Rio Grande é na Argentina e não no Chile. Perdón!!!
E um abraço
Que bueno já estão na Terra do Fogo, fixe. Em breve o Falcon levar-vos-à até Ushuaia, onde sol, mar, montanha, floresta, neve e cidade estão no mesmo lugar.
Ushuaia, é uma palavra yamana e quer dizer: “baía que mergulha no poente”.
Em Ushuaia, a paisagem é fantástica, tem um cenário montanhoso inacreditável com a grande Cordilheira dos Andes desabando no mar.
São os cumes dessas montanhas que formam os estreitos golfos e canais marítimos onde se refugiaram belas e diversificadas formas de vida.
A região abriga os únicos e últimos bosques antárcticos do planeta, não esqueçam!
A cidade que nasceu para “assegurar a soberania” passou de uma pitoresca aldeia de uns 6.000 habitantes em 1970, a mais de 60.000 na actualidade, sendo que metade da população local tem entre 15 e 40 anos. Tem a mais alta taxa de natalidade e a mais baixa de mortalidade, por cada 12 pessoas que nascem morre 1.
Pessoal matéria para escrever não falta, espero pelas próximas reportagens (a visão já está reservada no quiosque).
Ps:
1-atenção ao buraco do ozono
2-obrigatório comer santolla na cantina fueguina do freddy (inf:a merluza negra vale o preço)
3-beber um vino caliente no refúgio de montanha do Glaciar Martial
4-olhar a vista do hotel del glaciar
5-… 6-… 7…….
Olá rapazes
Fico contente que tudo tenha corrido bem. À excepção da questão eléctrica, mas não seria a mesma viagem sem um pequeno contratempo. Coisas bem piores já ultrapassaram.
Gostei muito da reportagem da Visão. Fui comprá-la para a mostrar ao meu irmão (ele trabalha como geólogo em poços de petróleo, na Líbia). Quando ler a vossa reportagem vai subir aos arames. Não faz mal, todod temos que conhecer diversas visões sobre o nosso trabalho. E muitas vezes nem sempre são as mais positivas.
Beijinhos e continuação de boa viagem.
Tenho saudades do gorrito!
HORA DO ADEUS.
BOA NOITE SENHORES JORNALISTAS.
ALBANO JOSÉ COSTA DA SILVA PEREIRA E ALBERTINA JOSEFA DA SILVA PEREIRA,VÊM PELA ÚLTIMA E DERRADEIRA VEZ PARA SE DESPEDIREM DOS SENHORES AGORA QUE PASSARAM PARA LÁ DA FRONTEIRA.DESEJAM QUE OS SENHORES CONTINUIEM A FAZER BOAS VIAGENS E QUE VOLTEM EM PÁS E SAÚDE AO NOSSO PAÍS.APROVEITAM ESTE TRISTE MOMENTO PARA AGRADECER AOS SENHORES TODAS AS COISAS BUNITAS QUE NOS MOSTRARAM E DICERAM ASSIM COMO TODA A AJUDA E COMPRESSÃO QUE TIVERÃO PARA COM A GENTE.
QUEREMOS TAMBÉM DIZER AOS SENHORES JORNALISTAS QUE ESTAMOA MUITO FELJZES QUE A MINHA ALBERTINA ESTÁ DE ESPERANÇAS E QUE VENHA PERFEITINHO E COM SAÚDE E QUE SE FOR MENINO VAI-SE CHAMAR LUIS GUILHERME E QUE SE FOR MENINA JORDANA MARIA.
OS FRANGANITOS ESTAM CADA VEZ MÁS LINDOS E NÃO ESTAM ESQUECIDOS DOS SENHORES E QUE DEPOIS VÃO TER AO SITE DA VISTA.
ATÉ SEMPRE, OS VOSSOS DEDICADOS ALBANO E ALBERTINA.
Se trouxerem o 006 de volta a Buenos Aires, talvez ainda vos fique com ele. É uma questão de pesos!!
Desta forma mantemos o Falcon em reduto Tuga e quem sabe ainda poderá contar mais uns km de futuras historias.
Que le vaya bien!!
Frederico