
Que belo despertar. As pernas enfiadas no saco-cama, o pé direito preso entre o acelerador e o travão, o joelho a bater no volante, tipo camionista, do Falcon, a cabeça virada à esquerda, encostada à base do cinto de segurança, que é mais uma menos uma caixa de fósforos das grandes, só que em metal, o que vai muito bem com uma orelha gelada. Lá fora, assim como cá dentro, estava um frio de rachar. À minha direita, monsieur Pazat trovejava, encolhido dentro do saco-cama, com o nariz algo avermelhado a pontificar. Atrás, mister Burch, que é rapaz para 1,85m, teria o melhor compartimento do hotel-móvel se fosse capaz de se estender na totalidade. Ainda tentou, desviando uma panela, que tinha lá dentro uns copos de metal, mais uns garfos e umas facas, que retiveram muito bem a ferrugem ao longo da viagem, uma série de roupa que já julgavamos perdida. Ainda um pneu em boas condições, que tivémos de retirar da mala para efeitos de arrumação, livros, um fogão a gás, de botija, um bidão com água, algumas embalagens de “aceite”, outro bidão de dez litros, muito útil sempre que falta a gasolina, ainda a carcaça de uma carcaça, que tenho a impressão que comprámos numa padaria de Buenos Aires, e tudo o resto que enchia a parte traseira da direita, onde colocámos a nossa tralha numa espécie de efeito de retro-placebo, só porque achamos que ninguém vai roubar unicamente porque está desse lado do carro, só porque desse lado do carro a porta não abre.
Não foi uma operação fácil, esta de reinventar o espaço para poder esticar o esqueleto, coisa que na parte da frente ninguém era capaz de fazer. Estrategicamente tínhamo-nos afastado um pouco da porta de entrada do hotel, recuando para a escuridão, para tentar não ter todas as dificuldades já descritas, juntando um foco de luz bem em cima dos olhos. O nosso arquitecto de interiores fez o melhor que pôde, arremessando tudo o que era arremessável porta fora. De manhã, havíamos de tratar das recolha. Por volta das cinco da manhã, acordei com um gelo na coluna vertebral, que por acaso estava com algumas “chicanes”, adaptando-se à curvatura do interior do Falcon. Não dava para esticar completamente as pernas, nem os braços, não era possível a posição horizontal, apenas tentar reclinar o mais possível o banco frontal do Falcon, que vai de uma porta à outra e, de velho, cede às exigências.
Por volta das cinco e cinco da manhã, tentei mudar de posição, o que não estava fácil pois tinha um braço completamente inerte, não conseguindo sequer obter os primeiros sinais do típico formigueiro, que normalmente se manifesta um pouco antes do sangue afluir de novo. Por volta das cinco e dez, desisti. E, ao som incrível de apneia frontal, perfeitamente orquestrado com a parte traseira, que alternava graves com agudos, com as batidas de pés, incapazes de se esticar para além dos vidros, talvez ainda das coisas realmente sólidas que restam no 006. Talvez esteja a exagerar. Há partes da carroçaria que ainda prometem resistir ao resto da viagem. Embora a estrada que nos esperava em direcção a San Sebastian, onde fica mais uma fronteira, primeiro a chilena, depois a argentina, para reentrada, não fosse nada fácil. Mesmo nada. Era uma daquelas estradas duras, de gravilha e pedras no caminho, impróprias para veículos que não fossem de tracção às quatro rodas, de preferência altas, de preferência modelos com menos de vinte anos e, já agora, que não vá perdendo pedaços pelo caminho, cujos fios não se vão desligando, que não vão caindo peças importante para a felicidade do grupo, que nesta madrugada ainda não estava feliz, só porque tinha a maioria dos seus elementos ainda a conseguir dormir num cubículo chamado Falcon.
Com grande difulculdade tentei acordar a dupla ressonante. Nada. Segunda tentativa. Na parte frontal, um breve sinal de vida. “O isqueiro?”, perguntou monsieur Pazat. Não. Não era isso. Não queria fumar logo assim que abriu a primeira pestana. É que queria ter fumado ao adormecer e não encontrava o dito cujo. Deve ter sido, portanto, um reflexo condicionado, que agora se manifestava. Coisa que, aliás, não durou. Ainda não tinha respondido à pergunta e já o nosso co-piloto prosseguia o seu soninho reparador, tendo mudando de estilo, posicionando agora os seus pés por cima do tablier, o que até dava jeito, porque aquela zona do carro, tal como as outras todas, estavam mesmo a precisar de um “little car keeping”.
A estrada para a fronteira só tinha compatibilidade com a estrada que tínhamos feito em direcção a El Calafate, embora neste caso a etapa só tivesse 100 quilómetros, que tinham início pouco após a nossa saída do largo em frente ao hotel onde não ficámos. Já que os companheiros de viagem não emitiam quaisquer espécie de reacções, o melhor era mesmo seguir viagem sozinho, salvo seja. Calma, atrás havia reacção. Mister Jordi parecia querer ganhar o despertar ao concorrente francês, que tinha definitivamente mergulhado de novo na piscina do sono. Falso alarme: o concorrente catalão limitou-se a abrir o vidro, de forma a poder esticar as pernas.
Muito bem, em frente. A estrada podia ser dura, mas tudo em redor era de uma beleza, tenho a impressão que só possível nesta imensa Tierra del Fuego, na inesgotável Patagónia. Cavalos selvagens, pedra, aridez, vegetação, água, seca, enorme, parecia sem fim, um cenário só interrompido pelos camiões que se cruzavam connosco ou que tinham estacionado á beira da estrada para fazer o que fazia o cliente de trás. À frente, um sinal: “Dá-me um cigarro!”. Afinal, o pequeno-almoço deitava fumo. Perto de quatro horas e algumas peças depois, estávamos na proximidade da fronteira, a tomar o verdadeiro pequeno-almoço no único estabelecimento em que isso era possível no espaço de 90 quilómetros. Ou seja, a viagem.
Cruzar as fronteiras, desta vez foi facílimo. Não houve perguntas, nem questões formais a levantar, apenas carimbos e desejos de saúde à saída.
Breve paragem na cidade de Rio Grande, que é grande e tem um grande rio, seguindo para Ushuaia em toda a velocidade que o Falcon permitia. Aparentemente, a viagem na estrada de gravilha não tinha deixado grandes máculas. Aparentemente. Os cenários iam mudando à medida que nos aproximávamos do fim do mundo, sempre com as montanhas cheias de neve no horizonte. A escassos quilómetros de Ushuaia, antes de entrar nas estradas sinuosas que nos levam à cidade mais austral do mundo, eis que paramos só para contemplar um cenário idílico, um lago enorme, envolto em montanhas, emersas em neve. Ainda bem que parámos. Nem tínhamos reparado que o pneu frontal esquerdo estava furado. E também não tínhamos reparado que o nosso “macaco”, comprado numa loja de chineses, não tinha a capacidade de levantar o carro na altura necessária para colocar o pneu. Experimentámos uma pedra, experimentámos um pau. E missão cumprida. Só não foi possível comprar outro pneu nas cercanias. Não havia. E onde havia, sabendo exactamente da situação vantajosa, um rapaz quis vender um pneu a peso de ouro.
Seguimos a rezar para que não houvesse mais surpresas em matéria de pneumáticos. A Ushuaia chegámos com grande alegria, de imediato para um parque de campismo lindíssimo, que tem incluído de série uma pista de esqui, que é a sua função no inverno. A noite caiu tão bem como um rodízio de “cordero”.
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Que noite, que dia!
Mas, pelo que vejo nas fotos, valeu mesmo a pena!
;=)
Take 1
Volvé Luis, estás perdonado!!!
Gracias muchachos, por esta fotografia de entrada.
Sí, sí, sí! Las Malvinas son argentinas!:
La cuestión sobre la posesión de las malvinas se
remonta muy atrás en el tiempo. Solo decir queespañoles e ingleses se “agarrararon a pinhas” desde siempre por causa de las islas.
Cierto, cierto es que fué un holandés que en 1600 les dió el nombre de Sebaldinas, después vinieron franceses de Saint-Malo em 1700 y le dieron el nombre de Malvinas. Después un inglés que descubrió el estrecho entre las islas, a que le dió el nombre de Falkland Sound, em 1764 los franceses se establecen en una de las islas, pero los españoles propestan y los francius se escafeden, em 1765 los “gallegos” (nombre por el cual son conocidos los españoles en argentina) se establecen con un destacamento militar.
Como los británicos se establecieron en otra isla, tuvieron que ser deslojados, desde ahí que hay un qui pro quo. Como la Argentina se independizó de España en 1810, las islas desde allí hicieron parte del nuevo Estado, que fué reconocido por Inglaterra en 1825, sin formular ningún tipo de reserva sobre el archipiélago. En 1831 los “Yanquis-Gringos” tentam su suerte y finalmente los “ingleses-piratas” en 1833 desalojan a las autoridades argentinas e imponen la soberania británica (después de haber reconocido el nuevo estado con todo su territorio!) Desde entonces la Argentina utilizó todos los recursos diplomáticos a su alcanze. Como no resultaron, los “militares_gorilas” se meten en la triste aventura de la “Guerra de las Malvinas”, con los resultados que todos sabemos. Pero también fué el inicio de su salida de la gobernación del país.
desde esa altura todo se reencaminó para la via diplomática…Para que conste!!!
Amigos, nauremi naki,
Apiko
Apiko, tenemos lo mismo problema aqui con Olivença… y ninguen nos liga… nin Socrates…
Asi va lo mundo!
Saludos… Un dia Malvinas seron Argentinas… CM
Si, Apiko,”Las Maldivas son Argentinas”.La guerre des Malouines (c’est comme cela que l’on dit en français)a permis à Margaret Tathcher de réaffirmer sa popularité qui était en baisse à ce moment là.
Avec la démocratie établie en Argentine aprés cette triste période il faut que les Anglais entendent raison: l’époque coloniale est terminée et je souhaite de tout coeur que cet archipel revienne dans le giron de l’Argentine
mt giro e bem eskrito
Ushuaia!!La ville mythique!! j’espère que vous n’avez pas trop froid:j’ai vu que le minimum est environ 6°!!!
Faites nous de belles photos pour nous faire rêver davantage
Bisous
“BOM DIA SENHORES JORNALISTAS”…
Com os devidos respeito e desculpa pela intromissão, recomendo CPAP aos Senhores Pazat e Burch!…
Take 2
Buenas tardes, señores, o buenas noches.
Llegué a casa y al son de ManuChao me pongo a mirar el google earth y allí está USHUAIA!!! Fin del mundo, princípio de todo!
adonde están ustedes? Yo estoy a 561 metros de altura y estoy en el punto 54º47´45.45´´S
68º16´38.80´´W
desde aquí arriba se vé un techo que dice sanyo, junto al Canal Beagle, que por casualidad es la “marca” de un canídeo (que no es del mio)- no será uno de esos que se llevó el gorrito.
Déenle al pisco que calienta el pecho y abre las ideas!!!
Nauremi naki, otra vez!
A todos por vuestra compania, luis, pazat, jordi, cyberannie, cameraman, espero que algún dia estemos todos juntos.
Madre Mia, que emoción!
p.s. efecto del fin del mundo, de manuchão e de otras cosas más…..
Apiko
Se trouxerem o 006 de volta a Buenos Aires, talvez ainda vos fique com ele. É uma questão de pesos!!
Desta forma mantemos o Falcon em reduto Tuga e quem sabe ainda poderá contar mais uns km de futuras historias.
Que vos vaya bien!!
Frederico
´”…vai ser vendido
o Falcon Que anda na estrada
calma aí Pessoal
Qu`eu tenho direito de pernada!!!::”
Então, hoje não há nada, para animar a malta??
Si Rematan el 006 en buenos aires , no me dejen afuera. quiero participar,
Si no le falta agua , aceite y gasolina estoy seguro que el falcon llega bien.
Tal vez FORD de un apoyo a esta reliquia que esta dejando muy bien a la marca.
Santiago de brito
Desde Comodoro los estamos acompañando con toda mi familia y la colectividad portuguesa
Alô! Alô! ¿Qué pasa?
Há 2 dias sem noticias, perderam-se?????
Encontrem-se por favor, por favor
jocas
2 jours sans nouvelles!!!
J’espère que tout va bien
Bisous
MISS U!!
BE SAFE!!
Eu também estou com saudades…
QUÉ PASA!?!
EL CORDERO LES CAYÓ MAL?
ANDAN PERDIDOS EN LA NIEBLA DEL FIN DEL MUNDO?
MUCHACHOS, QUIEN SE ESTÁ QUEDANDO PERDIDO SOY YO,
SIN LAS AVENTURAS DEL TRIO CALOR!!!!!!!!!!!!!!!!
APIKO