Dia 50
Diário de viagem

Dia 50

Reza a história o que a história de Ushuaia pode rezar. Tábua rasa aos seus nativos intemporais, ocupados a escrever as leis da sobrevivência em território difícil, sem tempo para se datar, sem artes para se descrever. A sua descrição é, pois, uma justaposição no seu tempo e no seu espaço, descrevendo também os seus hábitos e os seus costumes no preciso momento em que estes eram alterados. A população aborígena da Terra do Fogo já era Selkman e Yamana muito antes dos navegadores europeus, no século XIX, afirmarem categoricamente que eles era alguma coisa. Ficaram, portanto, os navegadores a saber que os Selkman, também designados Onas, que eram caçadores recolectores e que habitavam grande porção da ilha da Terra de Fogo, desde as longas planícies ao longo do estreito de Magalhães, alargando-se a sua casta ao então longínquo Rio Grande até ao canal Beagle, próximo de Ushuaia. Ao seu território chamavam Karukinka, Haruwen a cada parcela territorial.

Em ambas as margens do Canal Beagle, os Yamanas eram reis e senhores, estendendo o seu domínio através dos canais até ao Cabo Horn. A sua presença não dava grande saúde à enorme colónia de leões marinhos, já que estes eram a sua principal fonte de subsistência. Os encontros com o “homem branco”, por sua vez, não viriam a dar muita saúde aos Yamanas, que habitavam a região há mais de seis mil anos. Não porque Yamanas e exploradores europeus tivessem entrado em confronto directo, mas porque exploradores e outros exploradores lutavam por uma região que não era sua e, entre combates e naufrágios, reduziram drasticamente a colónia de leões marinhos.
A norte da ilha, território Selkman, não se passou o mesmo. Os colonizadores, que se estabeleceram ali para a exploração de minério, sobretudo o ouro, a partir de 1881, votaram os Selkman a humilhações imperdoáveis. Violaram as suas mulheres, apropriaram as suas terras e, por fim, reduziram as consequências a uma guerra fratícida. A relação entre os exploradores, primeiro espanhóis, depois dos mais variados países europeus, e os aborígenas, como qualquer relação entre explorador e explorado, fez, por isso, com que a demografia Selkman foi diminuindo na Terra de Fogo, à medida que aumentava a importância do estreito de Magalhães e as relações comerciais estabelecidas através desta região. À exploração, claro, seguiu-se a colonização da Terra do Fogo, que se foi implementando primeiro através do criação de gado, depois estendeu os seus braços ao longo de todo o território Selkman, até à conquista total, sinónimo de extinção. Na primeira década do século XX, toda a população indígena remanescente não ultrapassava 350 pessoas.

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Conta a história que em 1972, nasceu em Ushuaia um menino chamado Tomás Depard Bridges, o primeiro branco a nascer na Terra do Fogo. Conta a história em que 1974, morreu a cultura Selkman, com a morte de Angela Loji, uma resistente do independentismo pacífico, a última Selkman a falar a sua língua nativa. Nascimento e morte do que Ushuaia caminhava para ser. Seguiu-se um período de indecisão sobre o que Ushuaia devia ser, sendo que não foi capaz de ser outra coisa se não um presídio, destinado a militares amotinados e condenados de delitos comuns, assim como para os respectivos criminosos reincidentes da Terra de Fogo e, em ocasiões muito especiais, presos políticos, para aqui desterrados para cumprir a pior das penas: A de extremo isolamento. A geografia e a natureza encarregava-se de que não houvesse recurso ou saída. Foi também em 1974 que oficialmente Ushuaia deixou de ser lugar de degredo.

Com a corrida ao ouro, muitos pioneiros foram atraídos para a região. Em 1884, chega à baía de Ushuaia uma expedição da armada argentina, sob o comando de Augusto Laserre, que acaba por inaugurar oficialmente a cidade. Um ano depois, um decreto presidencial designa Ushuaia como a capital da província da Terra de Fogo. E a história de Ushuaia começa a mudar quando chegam à pequena cidade imigrantes espanhóis, libaneses, croatas, lituanos, com as suas familías, ficando, desenvolvendo, criando raízes. Pelas mesmas razões, o território começou a ser atractivo para os próprios argentinos, para os filhos desses argentinos, que ficaram, e para os muitos que continuam a procurar em Ushuaia mais que um fim de mundo, mas apenas o princípio de outro.

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Hoje Ushuaia é ponto de passagem de cientistas multinacionais, que vão em expedição para a Antárctida, ainda inóspita e protegida, mas já um alvo predilecto das agências de viagens que proliferam na cidade, que cobram pequenas fortunas para levar os turistas a ter vislumbres de algo ainda protegido ou para pisar a terra gelada e firme por uma fortuna muito maior. Só numa promoção digna do nome se encontra qualquer viagem à Antárctida a menos de cinco mil dólares americanos. Não é para a bolsa de todos. E, se calhar, ainda bem.
Em Ushuaia, tudo normal. As autoridades da capital da provincial da Terra do Fogo continuam a achar que a cidade continua a precisar de habitantes. Tudo o que não é isto, é turismo. Por isso, vigora uma política clara para atrair gente para a cidade mais austral do mundo. Os apelos são para imigrantes como para os argentinos interessados em mudar de vida. Os preços, das casas, dos carros, da educação, da saúde, do bens de primeira necessidade ou do supérfluo, são mais baixos do que em qualquer parte na Argentina. Desde que as pessoas, como os turistas, não digam “hasta luego” antes de partir para sempre.

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Problema: É que há turistas e turistas, protecção ambiental e protecção ambiental. E as duas coisas nem sempre são compatíveis. Ushuaia sabe disso. E já sente isso. Basta passear onde passeiam os turistas, ao longo desse processo lento de “corrupção” ambiental da criancinha que atira um papelinho para o mar, do senhor que apaga o cigarro no chão, do rapaz que despeja o esgoto fora do esgoto, os detritos que o crescimento da cidade vai criando, ao lixo que varre a cidade com o vento gelado de sul, a enorme conjunto de sujidade civilizacional que visita a cidade. Ou que, pura e simplesmente, beneficiou de boas condições para a habitar.

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Comentários

14 respostas to “Dia 50”

  1. cyberannie on February 22nd, 2008 7:59 am

    Ces photos sont trés belles :j’aime latmosphère qui s’en dégage et qui me rappelle des paysages d’Island ou de Norvège
    Merci Luis pour toutes ces données historiques que je ne connaissais pas.
    La Falcon commence à vous revenir cher!!!
    Une idée me vient à l’esprit: Vous devriez contacter Ford pour vous faire sponsoriser car vous accomplissez un exploit avec cette voiture et par là même vous faites de la pub pour la marque…….
    bonne contination
    bisous à vous trois

  2. Myra Gore on February 22nd, 2008 8:59 am

    Que fotos!1Que fim do mundo, esse onde vocês estão!!!

  3. Carla Neto on February 22nd, 2008 9:41 am

    UAU!!!

  4. Carla Neto on February 22nd, 2008 9:43 am

    Hola Cyberannie!!!També não sou fotógrafa, mas estou encantada com esta reportagem!!!Parabéns também ao teu parente!!

  5. Cameraman Metalico on February 22nd, 2008 9:44 am

    Muito interessante!
    Eu acho que aborigenes só há os da Australia… esses deviam ser indios ou indigenas…
    Aconteceu de tudo nas Américas… Boa viagem - CM

  6. Apiko on February 22nd, 2008 10:06 am

    Concordo plenamente con cyberannie (que me gustaba conocer, algún día)!

    Luís, si continúan con los problemas de GPS, yo los puedo ayudar en el sentido que, através del google earth puedo señalar los puntos con las referências geográficas y se los hago llegar via e-mail.
    Estoy a vuestra disposición.

    Por otro lado, Luis, no te equivocaste con las fechas (donde está 197…,no querias escribir 187…)?

    Una curiosidad: Los yámanas hablaban un idioma de una notable riqueza, con un vastísimo vocabulário.
    Sólo decir que, enquanto los nativos de las islas Hawaii se las arreglaban para vivir con apenas 500 palabras, losyámanas tenian más de 30.000, que se salvaron del olvido, gracias al diccionario de uno de los primeros colonos de la Tierra del Fuego: Thomas Bridge.

    Y con esto me despido, con un nauremi naki

    Apiko

  7. cyberannie on February 22nd, 2008 12:14 pm

    Merci Apiko: on pourrait tous prendre un verre ensemble au Barrio Alto!!!
    J’ai eu envie d’en savoir plus sur les Yamanas dont j’ignorais l’existence.Grâce à Googgle j’ai appris que, en plus d’avoir une langue extrêmement riche,ils avaient également une mythologie d’une trés grande richesse et d’une finesse et délicatesse étonnantes(extraits de Thomas Bridge)et que les femmes jouaient un rôle trés important dans leur système économique.
    Génial ce blog !!! on se cultive tout en se distrayant
    A demain

  8. margarida sousa on February 22nd, 2008 5:14 pm

    okei esta optimo muito bem escrito e com boas fotografias, pessoal espero que continuem muito bem

  9. margarida sousa on February 22nd, 2008 5:51 pm

    só para lembrar ao cameraman que aborígene quer dizer natural do país em que vive

  10. tomas de brito on February 22nd, 2008 7:48 pm

    desde la Petrogonia estamos siguiendo la evolucion del FALCCON 006. y disfrutando del relato y las fotos

    Santiago

  11. Carla Neto on February 22nd, 2008 9:04 pm

    Aborígene-”…1- que ou aquele que é habitante autóctone de um país; nativo,indígena
    2- diz-se de ou indivíduo de um antigo povo da Itália central considerado autóctone pelos romanos
    3-diz-se de ou cada um dos autóctones que ocupavam regiões mais tarde dominadas por europeus….”.

  12. Apiko on February 23rd, 2008 10:10 am

    Buendía a todos los companieros de viaje!

    Ok cyberannie está combinado, cuando El Trio llegue nos iremos de copas por el B.A. y conversaremos un poco.

    Fotógrafos,entre la 2ª y 3ª fotografias, se establece un diálogo que resume toda la problemática
    del turismo de masas y las consequencias para el territorio donde se dá. Bravo, me gustó mucho!

    Y yá que estamos en una de romanos (como dice Carla Neto) podemos acrescentar:

    “Homo, hominis lupus”, o sea (Como mi papá-que sabia latin-me decia, para tener cuidado)

    “El Hombre siempre será Lobo para todos los Otros”

    Creo que esta frase define desde hace más de 2000 años lo que se pasa en nuestro planeta e por ende en Ushuaia.

    Buen fin de semana a todos los viajeros y especialmente para nuestro querido Trio y su incomparable 006.

    Nauremi naki, Apiko

  13. Carla Neto on February 23rd, 2008 11:10 am

    Bom fim de semana ;=)

  14. margarida sousa on February 23rd, 2008 2:01 pm

    espero que estejam muito bem pois ia a procura do 51 mas estão em descanso o que esta muito certo, beijinhos para os tres

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