Dia 51
Diário de viagem

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Gostamos de Ushuaia? Gostamos ou não gostamos? Estamos ou não indecisos sobre um dos lugares mais bonitos do mundo bonitos do mundo, do seu fim, ou as consequências da sua promoção turistica? Gostamos das montanhas antárctidas que abraçam a cidade gentilmente, imensas, de outro mundo, bem diferente do que o mercado de Ushuaia anuncia? Gostamos da própria cidade, outrora minúscula, depois tão pequena, hoje a espreguiçar-se para onde pode, amontoando-se casa sobre casa como uma favela por sujar?
dia51_5.jpgGostamos da avenida principal de Ushuaia, com lojas e mais lojas e mais lojas a vender até ao tutano para guardar no Inverno? Gostamos da maneira como nos fez lembrar uma algarviada típica em época alta? Gostamos do quê exactamente? Gostamos da marca Ushuaia? Gostamos da maneira desmedidamente promocional como Ushuaia se vende aos que estão de passagem? Ou gostamos das viagens turisticas ao canal Beagle? Ou será que gostamos de ir em carneirada ao glaciar? Ou gostamos do comboio do Fim Do Mundo, hoje a diesel, a marchar a três à hora, como marchava em tempos remotos, quando Ushuaia era uma colónia penal e os próprios reclusos eram muitas vezes a própria força motriz deste comboio que parece de brinquedo? Gostamos da viagem, através do que antes eram bosques virgens e que hoje são chamados “cemitério das árvores”? Gostamos das hordas de japoneses a disparar os seus flashes atentos à mosca que voa? Gostamos dos simpáticos funcionários da Comboio do Fim do Mundo, que servem garrafas de meio-litro de tinto nos mini-vagões, vestidos como irmãos metralha, moda-degredo, às riscas, com grilhões meramente decorativos? Gostamos disso? Ou gostamos mais do Parque Natural, onde tudo está como estava antes de ser visita de turista, onde tudo está como estava mesmo depois de ser visita de turista?

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Há uma grande diferença entre a imagem que se faz e o que é. Por isso, o fim do mundo é uma incógnita entre um cliché mundano e um mundo imaginário de grande superfície, de promoção, de negócio de última hora, de imensos nadas, do paraíso do supérfluo, da abismal diferença entre a imensidão que está à frente e a pequena grandeza a que Ushuaia foi remetida por si própria. E, em si, encerra problemas tão extensos como a Antárctida em frente. Ushuaia está longe de ser o paraíso de fim de mundo que o pintam, assim como está longe de ser uma cidade plena, onde todos os habitantes, reunindo tantas diásporas, se transformam numa espécie de argentinos provisórios, convivendo com os argentinos argentinos, transformando-se todos numa espécie de Argentina global, infinitamente pequena, morta por exportar-se. oferecendo condições óptimas para trazer gente para a cidade e à região, com descontos de tudo o que é quotidiano, para os habitantes desta Ushuaia às voltas à procura de si própria.

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Esta Ushuaia tem, portanto, uma infinitude de problemas que se delimitam à sua pequenez, tão rodeada de grandeza. Se calhar é isso mesmo que a torna pequena. Provavelmente é isso que a torna reduzidamente enorme. Esta Ushuaia tem qualquer coisa que não devia. Tem todos os problemas tão evidentes como os glaciares, ou coisa que o valham, que a rondam com um espião.

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Os problemas de Ushuaia? Bueno, os problemas de Ushuaia enumeram-se pela sua desordem: Pelo atrás descrito, por onde começar? Pela falta de planeamento urbano? Pelo crescimento demográfico descontrolado, ou melhor, muito para lá de descontrolado? Ushuaia tem um estranho condão de ser o que não é. Aparentemente os seus problemas são pequenos, mas a reunião de todos os factores transformam-nos num problema grande: Para começar, os animais soltos. Não confundir com os turistas, vulgo “turistum gastadoris”, atraídos pelos preços livres de impostos, animal vulgaríssimo no câmbio global que é Ushuaia.

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Nos bosques inóspitos de Ushuaia reside o seu enorme pulmão e a sua beleza que, desaparecendo a cidade e o porto do horizonte parece infinita. Mas, daím, atraído pelos residuos que a cidade produz em abundância, começa Ushuaia a ser visita por uma série de problemas, cada vez mais atrevidos, em busca de alimentos fáceis. É óbvio que os animais selvagens que começam a visitar a cidade começam também a gerar uma imensidão de problemas. Primeiro por uma questão de desiquílibrio no seu meio natural, depois porque acabam por contribuir em grande medida para a desorganização geral que já se nota em Ushuaia, cumprindo o seu papel na grande lixeira que são as traseiras das duas avenidas principais da cidade, onde, como seria de esperar, todos os dias leva um “face lift” para turista ver. Um dos problemas mais graves, que as próprias autoridades sanitárias de Buenos Aires apontaram, tem precisamente a ver com os bosques. Convém que os pulmões da região sejam tratados convenientemente, coisa que não acontece. Dizem os técnicos da distante capital que é urgente acabar com o tratamento deficiente dos bosques que se verifica na capital da Terra do Fogo. E, por falar nisso, também não faz grande sentido que uma capital de província não disponha de uma estação de tratamento de resíduos sólidos ou uma rede de transportes urbanos minimamente eficiente. Quando a vista encantada do turista se vai embora, fica precisamente o que está à vista. Os seja, a total falta de planeamento que assola Ushuaia, como se tivesse passado um furacão pela cidade e a tivesse deixado em estado de semi-destruição, que também pode ser considerado de semi-construção.

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As casas parecem retiradas de Liliput, onde os seus habitantes mal conseguem esticar os braços. A construção é completamente desordenada, estaca sobre estaca, casa sobre casa, lixo sobre lixo, máquina sobre máquina, detrito sobre detrito, ocupando desenfreadamente o espaço que agora escasseia. É claro que a cidade vai continuar a crescer. Mais do que os habitantes que Ushuaia tenta atrair, a cidade precisa realmente de acolher verdadeiro desenvolvimento. Não parece óbvio que a coisa esteja para breve. A cidade continuar a esticar-se, como uma serpente para as proximidades do seu aglomerado, que já não está confinado ao o seu porto. A cidade começa a “progredir” perigosamente para o pulmão, abatendo árvores, procurando espaço para mais casas e mais lojas e mais coisas, que os turistas vão gostar de ver no verão, prosseguindo a imparável política de desordenamento neste fim de mundo no fim do mundo.

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Comentários

10 respostas to “Dia 51”

  1. Myra Gore on February 26th, 2008 11:13 am

    O problema global, quer seja no princípio, no meio ou no fim do mundo :(

  2. Apiko on February 26th, 2008 12:11 pm

    Una ciudad, de una región, de un país en que nací.
    E que por las peores razones, es igual a tantos otros de este mundo globalizado.

    Con muchísimas “malas prácticas” y unas pocas, muy pocas “buenas práticas”, para vivir en consonancia con el entorno que nos rodea. A qué precio estamos pagando la modernidad!!!

    “homo hominis lupus”, que pena………….

  3. margarida sousa on February 26th, 2008 12:42 pm

    é pessoal ja esteva com saudades vossas, fizeram boa viagem , espero que sim , continuam com a veia artistca em ordem vamos em frente, beijinhos

  4. Patrícia on February 26th, 2008 6:53 pm

    Olá de novo muchachos.
    A descrição do fim de mundo do fim do mundo é claramente o retrato de muitas outras cidades do nosso mundo. Planear aparece sempre no fim da história e não no início (como devia ser). O crescimento desenfreado não se compadece de qualquer planeamento ou do ambiente e isso é igual pelo mundo fora. Além disso somos tão consumistas e acabamos por não ter coisas essenciais como tratamento de resíduos, saneamento básico and so on…
    Tudo isto é igual tanto no fim do mundo como no princípio ou mesmo no meio.
    Beijinhos para os 3 e boa aventura.
    Nos cá aguardamos sempre notícias vossas, as imagens e os textos lindos.

  5. margarida sousa on February 26th, 2008 8:56 pm

    ESPERO MAIS TEXTOS E BOAS FOTOGRAFIAS COMO É VOSSO HABITO, BEIJINHOS

  6. Carla Neto on February 26th, 2008 10:45 pm

    Muito bem!!

  7. Carla Neto on February 26th, 2008 10:51 pm

    Boa noite Cyberannie, como tem passado?Espero que bem! Por razões profissionais vou ter de me ausentar do país de 20 de Março a finais de Abril, pelo que não vou estar em Lisboa quando a Cyberannie chegar e não vou poder entregar-lhe pessoalmente a Visão, tal como havíamos combinado…assim, falei com a minha amiga Myra Gore (ela também escreve para aqui)e ela encontrar-se-á consigo para lhe dar a revista, ok?
    Um abraço.

  8. Myra Gore on February 26th, 2008 11:18 pm

    Combinado!

  9. cyberannie on February 27th, 2008 10:44 am

    Carla, ce n’est pas un problème pour la revie Visão, car j’ai de la famille à Lisboa et des amis qui m’en ont gardé un numéro. “muito obrigada”.Je regrette de ne pas faire ta connaissance….
    Luis , j’aime bien ta vision réaliste.Tu ne nous fais pas une description idyllique d’Ushuaia,mais tu cernes bien les problèmes de la planéte qui ne sont pas spécifiques à la patagonie. mais c’est triste que le tourisme de masse continue à se développer dans une région si fragile.
    Et comme dit Apiko: L’Homme est un loup pour l’Homme” et tant qu’il y aura des enjeus économiques et du profit il en sera ainsi!!!!

  10. cyberannie on February 27th, 2008 10:45 am

    désolée pour les lecteurs en français: j’ai fait une faute d’orthographe: lisez enjeux et non enjeus!!!!!!

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