Dia 52
Diário de viagem

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Está na hora de partir para outro sítio onde já estivémos, para então partir definitivamente para o Chile, outro Chile que não Punta Arenas, onde tínhamos combinado encontro com Gérman, que estava a tratava diligentemente de nos marcar uma viagem, de preferência grátis, através da sua agência, de Puerto Natales para Puerto Montt.
Por isso, não havia forma de contornar a questão. É andar para trás, ou para frente se consideramos que Ushuaia é só o princípio. De novo, a fronteira argentina. De novo, a fronteira chilena. Para chegar, ou para sair de Ushuaia, há que cruzar essas fronteiras, regressando para Punta Arenas, paraíso do consumo, sob a batuta do temível - pelo menos para nós -, peso chileno. Cerca de 560 quilómetros até Punta Arenas, não esquecendo que pelo meio ainda havia que atravessar o estreito de Magalhães. Havia também que sair cedo do parque de campismo, pôr o Falcon em marcha, tarefa que se torna cada vez mais difícil, sobretudo nas manhãs gélidas de Ushuaia, ainda por cima em altitude considerável, onde fica o camping mais bonito onde já estivémos nesta viagem, que nos perdoe mister Gérman. Um café, ou coisa que o valha, que o empregado do camping, ex-trabalhador de boliche, sobrava em simpatia o que lhe faltava claramente em arte para tirar cafés. Também não interessava porque compensa a coisa aquecendo com grande mestria “empanadas” no micro-ondas. Desmontar a tenda, uma rotina que à chuva ainda se torna mais penosa, desarrumar o que já está desarrumado naturalmente na mala do Falcon. Tudo para fora, tudo para dentro. Não sei porquê estava a ser difícil abandonar Ushuaia. Não sei exactamente dizer onde estava o problema. Se é que estava.

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Em autodiagnóstico na noite passada tínhamos chegado à conclusão que o cansaço começava a instalar-se mais fundo. Não era só uma noite de sono que tinha a cura para ele. No entanto, não havia tempo para ficar. Só havia tempo para seguir, porque as luzes do Falcon, ao contrário da caixa de velocidades, e do carburador, não estavam a funcionar na perfeição. Aliás, não fosse a despesa com o motor ser ter elevado ainda faríamos um investimento para arranjar o sistema eléctrico, que anda pelo menos há dois meses com vida própria, desde que o mestre Dani, mecânico-auto de Buenos Aires, tinha resolvido a questão da buzina, avariando o isqueiro do carro, cruzando fios e mais fios, de modo a arranjar a transformar uma buzina que não tocava numa buzina que não deixava de tocar. Para resumir: As luzes acendiam de vez em quando. Às vezes passavam o dia inteiro acesas, mesmo com o carro desligado, mesmo com o botão das luzes desligado, o que não deixa de ser um mistério, coisa para um electricista esotérico, que tenho a impressão que havia de encontrar-se a bom preço na avenida onde tudo se encontra em Ushuaia.

Outra coisa: a chapa de matrícula traseira gritava pelos cuidados de bricolage de monsieur Pazat, que por algum motivo tinha guardado agulha e linha da famigerada operação “cose-tenda”. Com grande mestria, la´se conseguiu remendar a chapa à traseira, que começa, diga-se, a cair aos bocados. Não interessava. Nada disso interessava. O mais importante era mesmo pôr o motor em marcha, que ainda há poucos dias era uma verdadeira impossibilidade. O motor pegou à sexta vez, o que não é mau, para azar da maior parte da rapaziada que tinha alugado uma cabana de montanha junto ao local onde estava estacionado o Falcon, soltando uma ameaçadora nuvem negra, que com o vento a favor se esgueirou precisamente para dentro da casa, de onde sairam alguns elementos esbaforidos, incluindo um alemão gigante, que gostava de ajudar no camping em tarefas como cortar lenha, todos a tossir e a tapar a boca com panos como se estivessem sob um ataque de armas químicas. Pelo inconveniente, pedimos as respectivas desculpas. E, não fosse o alemão ficar com ideias, “bueno, bueno, hasta luego”.

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Lá fomos, directos para a estrada que nos tinha trazido para Ushuaia, que até Rio Grande é uma travessia de um pedaço de paraíso, só interrompido, poucas vezes, diga-se, por coisas ínfimas de civilização como estações de serviço e restaurantes fechados depois das três da tarde, coisa que se confirmou à passagem da primeira cidade, onde antes um rapaz nos tinha tentado aplicar um calote com a venda de pneu em vigésima mão, muito para lá do conceito de usado.

Em Rio Grande, que é uma cidade cinzenta, onde pontifica à saída uma enorme cruz, com Jesus ali crucificado no meio do deserto que se segue em direcção a San Sebastian, onde fica a fronteira argentina, para onde apontámos mal foi possível encontrar qualquer coisa parecida com um restaurante onde nos servissem uma “hamburguesa completa”, que é qualquer coisa semelhante a pequeno-almoço, almoço e lanche, que para o jantar, se as coisas corressem como estávamos à espera, tínhamos planos.

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Por isso, era atestar de novo o depósito por a estrada a San Sebastian era longo e a próxima estação de serviço, informaram-nos era precisamente a coisa de cinquenta metros da fronteira. Perto de duas horas depois, estavámos a atestar de novo. E, de novo, prontos para testar os incríveis poderes do “poder”, ao qual já atribuíamos importância de certo modo relativa.

Chegámos a conclusão, depois de apanharmos um zeloso funcionário aduaneiro, que tinha uma pança do tamanho de um vidrão e não conseguia parar de comer barras de chocalate dietético, que resolveu atormentar-nos com uma questão que claramente ele não considerava de somenos. Seja para entrar na Argentina, seja para sair do país, a fronteira é a mesma. E o nosso homem, julgando que nós estávamos a entrar, resolveu passar à lupa todos os documentos do carro. E, em tom gravoso, declarou: “Muy bien, muy bien. No pueden pasar, vosotros”. Mas como, senhor gordo fronteiriço? “Tenemos um grave problema?” Senhor fronteiras, será que ainda não tinha percebido que estávamos a vir de Ushuaia e não a dirigir-nos para lá? “Que? Pero no podían?”. Pois, senhor aduana, agora era tarde não era? A não ser que quisesse chamar o seu colega para poder castigá-lo ou aplicar-lhe um processo disciplinar, coisa que fica sempre bem entre colegas de trabalho.

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O curioso da coisa é que para circular no Chile não havia o mínimo problema, já que autoridades chilenas mais não precisam que a “tarjeta verde”, o respectivo “poder” e ainda um documento da aduana “chilena”, a carimbar sempre que se entrar e sair do país, coisa que já fizémos vezes sem conta. É claro que o mister aduana nos deixou seguir. É claro que seguimos para a fronteira chilena. É claro que passámos sem grande problemas tecnocráticos ou outros. É claro que nos atrasámos irremediavelmente. É claro que tínhamos uma estrada de gravilha de 100 quilómetros, ainda o estreito de Magalhães, só depois a estrada para Punta Arenas. No total, tínhamos ainda de percorrer para lá de 350 quilómetros. E a noite ameaçava cair mais cedo, pois o céu estava escuríssimo. Tínhamos cerca de três horas até perto da meia-noite, quando anoitece. É um estrada de pó e camiões gigantes, que acham que a estrada lhes pertence e também não gostam muito de travar. Nem a vale a pena dizer o desagradável que seria apresentar-se à frente deles em noite plena com as nossas luzes apagadas. Entre fingir que não nos vêem e não sermos vistos vai uma grande diferença. Mas, para esta estrada dos infernos, que as autoridades chilenas não quiseram alcoatroar, provavelmente porque vai directa a território argentino, falta simplesmente um troço de vinte quilómetros.

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O pior é que já estava de noite. E as luzes teimavam em ficar intermitentes. E eis que chegamos de novo à magnífica localidade de Sombrero, a meio caminho de nada, no sítio preciso onde tínhamos ficado no caminho para Ushuaia. E, precisamente no mesmo sítio, tínhamos encontrado ujm magnífico hotel, com a mesma senhora a tricotar, que ainda lá estava à lareira. E nós, mais uma vez, ficámos no Falcon hotel. Pior que isso só termos gasto todo o dinheiro, “cash”, que tínhamos na carteira, em pesos chilenos e argentinos. Pior que isso, informou-nos a empregado do restaurante, é que o multibanco mais próximo ficar na cidade de Porvenir. E o pior é que Porvenir fica a 150 quilómetros. Por isso, o melhor foi sentar o esqueleto no Falcon, adaptar as costas a tudo quanto tínhamos de nos deitar em cima. E tentar dormir dentro do carro, com um raio de um gato, que também queria um quarto no hotel, que não parava de arranhar o vidro da frente.

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Comentários

15 respostas to “Dia 52”

  1. Carla Neto on February 27th, 2008 8:30 am

    UFA!!!

    Gosto muito da fotografia dos Lamas (acho que são) :)

  2. Apiko on February 27th, 2008 11:44 am

    Aleluia, Aleluia!!!! Regresó el “Trio do Calor”

    Ay, AAyyyy, AAAAAAAyyyyyyy!!!! Las empanadas que ricas que son!!!

    Las rutas que van a encontrar ahora son mas o menos las mismas: Duras, con curvas ciegas y muchos camiones.

    Los esperan grandes jornadas!

    La ciudad de Porvenir, significa futuro…. espero
    que les sonría en los caminos de montaña.

    Me gustó especialmente la foto de ACA, parece decir:

    acá no hay nada!

  3. Carla Neto on February 27th, 2008 12:36 pm

    Olá Cyberannie, outras oportunidades surgirão para que nos possamos conhecer…assim o espero…:)

  4. cyberannie on February 27th, 2008 12:43 pm

    Gardez le moral, malgré tous ces petits problèmes matériels!!! Vous êtes partis à l’aventure,ça fait partie du voyage!!!! Bon courage donc pour la suite!!!
    affectueusment

  5. Gil on February 27th, 2008 1:11 pm

    Bem, sao coisas que acontecem.. va va, sem desanimar que sem comer e a dormir sentados nao e assim coisa tao horrivel.

    Abracos e Forca ai malta!

  6. margarida sousa on February 27th, 2008 5:30 pm

    pessoal nada de perder o ãnimo, ja faltou mais para acabar, quando acabar e começarem a contar as peripecias da viagem vao-se rir a valor , descansem e espero que o moral amanha esteja melhor, beijinhos para os tres.

  7. Patrícia on February 27th, 2008 6:36 pm

    Olá muchachos

    Estas fotos são realmente do paraíso! Estas cores apenas existem lá.
    Estou muito contente por voltar novamente à vossa aventura.
    2 dias sem vocês é muito tempo. Já é um ritual diário visitar-vos. Os dias nem parecem os mesmos quando não tenho notícias vossas.
    E é claro que esta viagem não era a mesma sem os funcionários aduaneiros a “torrar-vos” o juízo. Estes funcionários públicos são iguais em todo lado. Especialmente para embirrar com o pessoal, mas o paraíso não pode existir sem um inferno, não acham? Se não as coisas deixam de ter piada.
    Beijinhos e feliz aventura pelo paraíso.

  8. sofia on February 27th, 2008 6:45 pm

    mto bem eskrito!! komo sempre!!

    Mts bjks para tds em especial para o luís!!!

    8D

  9. oscar eduardo de brito on February 27th, 2008 7:09 pm

    La primera foto son Guanacos.
    ACA significa (Automivil Club Argentino)
    es una red de aauxilio mecanico .

    Saludos Oscar

  10. Myra Gore on February 27th, 2008 8:45 pm

    O que é que são Guanacos, sr. Oscar?

  11. cyberannie on February 27th, 2008 9:30 pm

    M. Oscar je ne connais pas la traduction de “guacanos” en Français.Je croyais que c’étaient des lamas? mais apparemment ce n’est pas ça. connaissez vous le nom en français? merci.

  12. cyberannie on February 27th, 2008 9:31 pm

    Perdon!! je voulais dire: guanacos!!

  13. Myra Gore on February 28th, 2008 12:07 am

    Sr Oscar, os Guanacos e os Lamas pertencem à mesma espécie ou à mesma família de mamíferos?
    Obrigada

  14. Carla Neto on February 28th, 2008 1:48 pm

    Ps: porque não dexaram entrar o Gatinho no vosso hotel??!!

  15. Myra Gore on February 28th, 2008 2:34 pm

    Também acho!!!Pobre Bicharoco!! :(

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