
Que despertar maravilhoso. Das poucas horas de sono que foi possÃvel ter a bordo do Falcon, não sei porquê acordei com uma dor lancinante nas costas. Tirando o saco cama com dificuldades, destapando uma toalha de banho que andava por ali nas traseiras, por cima do pneu sobressalente do carro, estava o elemento causador, coisa que não tinha reparado na noite anterior quando tentei fazer com que fosse possÃvel pelo menos esticar os pés. Era o fogão tipo-camping, que o agrupamento muito apreciou no inÃcio da viagem quando ainda havia pachorra para fazer café. Adiante, o bico do fogão, que por acaso tinha a bilha de gás desligada, estava espetado nas minhas costas. Bem me queria parecer que era algo desagradável e de certo modo inquietante, mais ainda que um agrupamento geriátrico alemão que se tinha levantado de madrugada para uma viagem de aventura na Patagónia, a bordo de um camião “high-tech”, que parecia pronto para cumprir etapas do Paris-Dakar, perdão Lisboa-Dakar, perdão Buenos Aires - Dakar, perdão, Buenos Aires - Atacama.
O grupo de alemães madrugadores olhava para nós como se estivessem perante a visão de um grupo de bandoleiros que acabara de acordar na viatura onde tinha feito o assalto na noite anterior. Se fosse assim, tanto melhor. Pelo menos tÃnhamos dinheiro para “desayunar”. Fome sim, tÃnhamos. E também tÃnhamos que angariar cerca de 13 mil pesos chilenos (perto de 15 euros) para poder pagar a travessia do estreito de Magalhães. O próximo multibanco, informaram-nos na noite passada era a 150 quilómetros. Em suma: A coisa não estava famosa. Mas monsieur Pazat tinha no seu bolso mágico parte da solução. Então não é que o nosso “franciú” descobriu perto de dez mil pesos chilenos, distintos sobreviventes da última estada em Punta Arenas, depois do encontro imediato de primeiro grau com uma garrafa de Pisco.

Que coisa maravilhosa dez mil pesos chilenos. Mas ainda faltavam três mil para podermos pagar a travessia. Também havia a hipótese de tentarmos fazer a travessia sem pagar, o que seria muito improvável. Restava procurar no carro se não havia uma ou duas notitas de pesos argentino, que a companhia dos barcos aceita pesos chilenos ou argentinos, mesmo que sejam misturados. Toca, portanto, de vasculhar o carro, até porque dava até jeito retirar alguma parte do lixo acumulado. Foi uma óptima ideia. Conseguimos encontrar três isqueiros nos estofos do 006, alguns jornais em fase adiantada de decomposição, a bilha do gás que pertence ao maravilhoso fogão de “espaldas”, uma moeda de cem pesos argentinos, que pouco ajudava, ainda alguns resÃduos do que outrora fora uma garrafa de água, um mini-canivete suiço todo enferrujado - e eu a julgar que os suiços não enferrujavam -, uma rolha pertencente a uma botelha de Norton Malbec, não fosse dar-nos para fazer um “fondeu”, já para não falar de um guia de Puerto Madryn, algo que dava imenso jeito caso faltassem acendalhas para a “parrilla”. Ou seja, o carro estava um bocado mais limpinhos, mas nós continuávamos sem cheta para o barco e sem a mÃnima vontade fazer 300 quilómetros só para levantar dinheiro. E foi então que alguém disse: “E euros, pá? Não temos alguns euros?” Toca a fazer mais uma vistoria detalhada à s carteiras e rezar para andar por ali um ou dois euros, que era exactamente o que precisávamos. Sucesso: o grupo conseguiu angariar duas moedas de cinquenta cêntimos, mais três de dez. Euro e trinta. Sim senhor. Agora era só convencer a simpática empregada do hotel onde não dormimos, para nos cambiar uma misturada de “currency” para pesos chilenos. TÃnhamos, pois, uns quantos pesos argentinos, umas moedas de euro, ainda uns kwanzas, que não dava para trocar. “Era capaz de nos trocar esta coisa toda e convertê-la em treze mil pesos chilenos, amável señorita?” A senhorita respondeu com uma pergunta: “Vosotros dormiram no hotel?” Não, excelentÃssÃma e amabilÃssima señorita, tÃnhamos dormido no nosso carro, aquele magnÃfico exemplar que está lá fora ao lado de uma camioneta cheia de alemães, vestidos como se fossem para um safari.

A señorita pensou, pensou, pensou. Mas não estava certa da cotação do euro. Segundo as nossas contas, com a colecção de euros já sobrava o dinheiro para o bilhete do barco. Por isso, muy amável señorita, preciosÃssima, encantadora, excelsa e jactante, veja lá se acerta nas contas, de forma a que chegue à magnÃfica conclusão que vamos passar a ter treze mil pesos chilenos. E que grande surpresa. Não só tÃnhamos juntado dinheiro suficiente para o barco, como ainda sobrara mil pesos chilenos.
Resolvido este problema, havia agora que ponderar o outro. TÃnhamos atestado o depósito na fronteira e, desde lá, percorremos cem quilómetros, sendo que eram quarenta até ao barco e mais 240 quilómetros até Punta Arenas. Ou seja, a coisa também estava preta no “tema de la nafta”. E, claro, não havia estações de serviço até Punta Arenas. A estação de serviço mais próxima ficava exactamente ao pé da caixa de multibanco de Porvenir. Seria boa ideia ir lá, atestar e fazer 150 quilómetros? Não me parece. E dada a panóplia de problemas eléctricos no Falcon talvez também não fosse a melhor ideia transportar um bidão de gasolina no interior do carro.
Bom… para a frente. Lá fomos, cheios de fome, cheios de sono, doridos, com o dinheiro praticamente à justa para o barco do estreito de Magalhães, e se um tusto para a gasolina, no caso de haver uma estação de serviço milagrosa pelo caminho. Se não tivesse multibanco, o que seria provavel, servia-nos do mesmo. Chegados ao barco, foi entrar, tomar o nosso lugar entre os camiões, não conseguir sequer sair do carro, tão apertados que estávamos entre os outros e, pronto, dormir. Podia sequer que ninguém desse conta da nossa presença e ainda ficávamos com o dinheiro do bilhete que, suspeitávamos, ainda havia de fazer muita falta.
Mesmo à saÃda, quando já tÃnhamos dado por concretizado o golpe do bilhete, eis que um funcionário que nos acenava para sair, nos acenou para parar: “Lo bolito?”. O quê, senhor funcionário com cara de poucos amigos? O que diz? Não entendemos nada, não somos de cá, somos brasileños, nem sabÃamos que era preciso pagar o bilhete, julgávamos que era de graça senhor funcionário. E agora? Quer que pague? Ã’ Jordi, então não compraste o bilhete? Ã’ Gui?!

Então não era que o senhor funcionário tinha razão: De facto, não tÃnhamos comprado o bilhete, coisa que fariamos de imediato, coisa que fizémos de imediato. Hasta luego. E desculpe lá qualquer coisita. Seguiu-se uma viagem de grande expectativa rumo a Punta Arenas. FicarÃamos a meio do caminho sem gasolina? Ou o Falcon teria escolhido o momento exacto para poupar como um verdadeiro veÃculo ecológico? “Todavia non sabÃamos”. Olha ali Punta Arenas, olha ali duas estações de serviço, uma ao lado da outra. Não podiam ter posto uma a meio do caminho, não?
E pronto, Punta Arenas lá estava exactamente como a tÃnhamos deixado, prontÃssima para receber os nossos pesos, que entretanto tÃnhamos levantado. Passado umas horas encontrámos Gérman, que nos levou de imediato à Navimag, empresa que faz as viagens de cargueiro de Punta Arenas até Puerto Natales. Gérman disse que talvez nos conseguisse uma borla para essa viagem, o que era óptimo. A coisa não se concretizou, mas ainda havia a esperança de falar com a relações públicas da empresa para falar dessa possibilidade. Amanhã terÃamos uma resposta. Hoje, era fazer horas até chegar o jantar, na companhia de Gérman e de um jovem arquitecto, que é familiar de Gérman e estava de férias em Punta Arenas. Pronto: Pisco night.
Pronto, nada. Mister Gérman, que nos tinha falado da possibilidade de podermos ficar num anexo de uma prima em Punta Arenas, não estava para dar por finda a noite. E queria saber se estávamos dispostos a ver a “noche” de Punta Arenas na sua plenitude. É claro que esta pergunta trazia água no bico. É mais ou menos como os casais “gay” que dizem aos pais conservadores que têm uma pessoa.
Pois bem, a meio da noite andávamos nós à s voltas de carro, parando junto a casas que tinham cortinas decorativas em roxo. A primeira estava fechada, informou-nos o anfitrião. A segunda tinha mudado para um espaço mais amplo. Não era longe dali, declarou Gérman. Entrámos então numa estranha casa, um espécie de porão, onde quase todos os homens tinham especial mau-aspecto - não nos querendo excluir de tão digno agrupamento -, e todas as mulheres pareciam extremamente abordáveis, querendo espumante barato carÃssimo, denotando olhares de matreirice libidinosa, esticando-se deliberadamente por cima de nós, em trajes reduzidos, uma ou outra lantejoula a decorar. “Que passa Gérman, estas chicas estão vestidas como se fossem deitar?”. É claro que sabÃamos onde estávamos. Estávamos numa multinacional do amor. Peruanas, paraguaias, nicaraguenses, equatorianas, colombianas, argentinas e chilenas, gordas, altas, magras, baixas, muito baixas, muito gordas. Por baixo um bola de luzes, havia dois sofás vermelhos, muito bonitos, que tenho a impressão que não eram Ikea. Mais ao fundo, uma porta que dava para um corredor, que tinha quartos improvisados, com a intimidade possÃvel de uma cortina meio-transparente. “Que haces aqui, capo?”, perguntou uma senhora robusta, na companhia de um cabeludo, barbudo, barrigudo. “Bien, procurava los baños, excelentÃssima”. “Fuera!!!”. Fuera por quê? Já não era? “No. Fuera!!!” Ah, era para sair.

No “hall”, a festa animara ao som latino de Ricky Martin. E eis que a supervisora do bar, quando me viu sentado no sofá, irresistÃvel, junto da rapaziada, se aproximou sorrateiramente, depositando-se em cima de mim. “Me pagas una cerveza, bonito?”. Bom, señorita, tinha acertado em cheio no problema: “No tenemos plata”. O seu olhar terno, infinitamente compreensivo, mudou como da noite para o dia. E saiu a frase mais intensa de toda a viagem, que adoptámos como lema: “Sin plata, no hay amor”.
Correcto.
Tal como a prima de Gérman, estas senhoras não estavam dispostas a dispensar um anexo para podermos dormir. Por isso, numa das ruas de Punta Arenas, descobrimos um belo hotel, baratÃssimo: Falcon Hotel.
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E eu a pensar que em lado nenhum trocavam moedas… enganei-me!
Va la haver multibanco… abraços - CM
Já estou mesmo a ver… umas t-shirts “Sin plata, no hay amor” hahaha
E pa.. ta a ficar cada vez mais emocionante.. assim que da gosto..
sem adrenalina nao ha ca historias boas de se contar aos netos, ou so a nos… boa sorte ai pa, e forca nas canetas.
Nem “SIN PLATA”, NEM COM OURO!!
o pessoal vejam onde se metem nao se esqueçam da sida, muitos beijinhos e boa viagem
Buueeeno, Buuueeeeno! (para leer con sotaque porteño, muchachos)………. Se metieron en un gran quilombo, que lo parió!
Lo de las preguntitas me recuerda la famosa frase de un conocido mio y de Luis: “Tem cágado em casa? Não tenho c.gado no jardim!” Buen viaje….. si fuera con el patrocinio del ACA, seguramente viajaban en 1ª!!!!!
Hastaaaaaaaaa
Ai és tão BOA!! ” MASÉ QUÉS MÊMO”!!
De um gajo deixar os periquitos no poleiro!!
Ps: e o que seria dos nossos netos se “UM GAJO NÃO FOSSE GAJO”??!
Ps: outro tipo de exploração e de comércio, também de dimensão global e idêntico no princÃpio, meio e fim do mundo…mas este dá vontade de rir e brincar, não é !!!???
Muchachitos que aventura ha!
Esta foi “por los pelos”. Quase sem dinheiro e sem nafta.
E também ñ acabou lá muito bem pois não? Dizerem-vos que “sin plata no hay amor” é como reduzir as nossas emoções a um vil metal. Ou não?
E pior ainda tiveram que dormir novamente no hotel Falcon. Deixem lá as coisas podem melhorar!!! Espero eu!!! Beijinhos e boa viagem.