Dia 54
Diário de viagem

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Por sorteio, fiquei com o lugar de co-piloto para dormir. Nem sempre é o melhor do Falcon Hotel, mas encostando a cabeça ao vidro da janela, abre-se a possibilidade de esticar as pernas e colocar os pés no tablier. O Gui, no compartimento traseiro, aproveitou para esticar as pernas por cima do meu encosto de cabeça. O Jordi tentou acomodar-se ao incómodo do lugar de condutor, que não é mau para conduzir, mas é péssimo para dormir. E, não fosse um grupo de adolescentes americanas, desinibidas por uma garrafa de pisco - que ainda transportavam, o que era perigoso -, a acordar-nos para perguntar se não havia mais três lugares para dormir no nosso hotel, tinham sido quatro santas horas de sono. Nem vale a pena dizer que o despertar foi dorido, da cabeça aos pés. Ainda por cima chovia. Ainda por cima torrencialmente. Ainda por cima, por dentro. A imperbeabilidade do Falcon tinha sido testada e falhara. Não faz mal. Não se pode querer tudo de um carro tão virtuoso. Para além disso, lá fora, para onde saímos com os pés previamente molhados, estava sensivelmente pior.

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Esperava-nos um dia longo. E, pese embora ainda não soubéssemos, de grande tristeza. O nosso orçamento, junção dos orçamentos pessoais, não anda propriamente em maré desafogada. E por isso mesmo depositavamos grandes esperanças nos conhecimentos que Gérman dizer ter, para que fosse possível fazer a viagem de cargueiro de Puerto Natales, a 250 quilómetros de Punta Arenas, para Puerto Montt, por sua vez a mil e 500 quilómetros. Grandes esperanças haviam no contacto que fizémos para o gabinete de relações públicas da Navimag, a companhia que ni verão transforma os seus cargueiros em autênticos “love boats” numa viagem de sonho, ao longo do Chile, através dos míticos canais patagónicos, por entre ilhas e glaciares. Se não fosse possível obter três bilhetes de graça, mais o respectivo lugar para o 006, a coisa ia ficar muito difícil. É que regressar à Argentina, pura e simplesmente, não era opção, desde que soubémos que afinal o poder-procuração, nem sequer dava para termos saído da Argentina. No Chile, por outro lado, não havia qualquer problema. Problema, sim, é não existir qualquer estrada de Punta Arenas, que nos possibilitasse apanhar a Ruta Austral, que atravessa o Chile. Para isso, teríamos de voltar atrás pela Argentina um bom milhar de quilómetros.

Na pior das hipóteses - e era péssima - teríamos de pagar cada um cerca de 370 dólares (desculpa lá ò cameraman, faz tu o câmbio), mais 90 dólares para transportar o carro. Por falar nisso, o melhor era ligá-lo, para irmos ter com Gérman à hora marcada, junto ao seu escritório em Punta Arenas, seis ou sete quadras abaixo. Para grande surpresa nossa, o Falcon pegou à segunda. E até arrancou à primeira. Mas de forma alguma foi possível uma segunda, uma terceira ou até uma marcha-atrás para o ponto onde nos encontrávamos. Desânimo total. Outra vez a letra M da caixa, letra F para isto, pá! Estávamos exactamente como o dia. Um daqueles dias com todas as letras de vernaculês.

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A pé lá fomos ter ao escritório de Gérman, onde a simpática e tímida Liliana, sua sócia no Chile, nos informou sem margem para dúvidas que ele estava atrasado. Muito obrigado, Liliana, atrasados estávamos nós em coisa de meia-hora, quanto mais Gérman que ainda não tinha chegado. Outra meia-hora depois, ei-lo, a tossir e a fumar - ou seria ao contrário?! -, a tentar compôr o seu sorriso habitual. Foi como se tivéssemos visto Gérman, o deus dos bilhetes grátis de barco, que se fosse verdadeiramente milagreiro também arranjar um mecânico baratinho. Quanto ao mecânico, declarou Gérman, “listo”. Juan, empregado do seu escritório, era mecânico nas horas vagas. Lá fomos com Juan ver o que se passava com o Falcon. Bom… era mesmo a caixa de velocidades. O diagnóstico de Juan, depois de se inteirar que mister Jordi dormira no lugar do condutor, chegou á conclusão que, durante o sono, com certeza que com as pernas se desencaixara qualquer coisa. Ainda bem Juan, pois seria algo raro uma caixa de velocidades avariar com o carro parado e desligado. Se era uma coisa meramente mecânica, será que este mecânico era capaz de a corrigir? “Claro”, declarou Juan, para nosso grande alívio. Três minutos depois de Juan ter mergulhado para o motor com o capot que o protegia da chuva incessante, a caixa estava arranjada. E de graça. Não ganhámos para o susto.

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Havia que trocar um stress por outro: os benditos bilhetes para o barco. Mal chegámos à sucursal da Navimag, companhia de Santiago do Chile, tivémos logo duas notícias importantíssimas. A primeira era que ainda não nos tinham reservado bilhete para embarcar na madrugada seguinte em Puerto Natales. A segunda é que o podiam fazer, mas tinha de ser pago: os 370 dólares, mais 90, que era a tarifa mais baixa, incluindo-nos numa “cabine” com mais 25 pessoas. Isso não interessava. A questão do preço, essa sim, tinha para nós grande importância: Um de nós tinha de abandonar a viagem.

Jordi tinha entrado em falência técnica há uns dias. E, por mais voltas que dessemos, não fomos capazes de fazer engenharia financeira para inverter esta situação, cuja mera possibilidade antevia vazio e tristeza. Só quem viaja sabe como é a união de quem viaja. Não é amizade, é irmandade. Depois de tantas e tantas, tínhamos agora a mais difícil tarefa de toda esta viagem, com dois meses e qualquer coisa decorridos. Gérman fez o melhor que pôde, oferecendo uma viagem grátis de regresso a Rio Gallegos e outra de regresso a Buenos Aires. De manhã tínhamos acordado juntos. E, horas depois, tínhamos de nos despedir de um “brother” inseparável. A camioneta partiu. Lágrimas fugiram em sua direcção, enquanto se afastava da nossa. Continuamos a ser três. Mas só estamos dois. E, para citar um amigo: “ESTAMOS JUNTOS”.

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Comentários

28 respostas to “Dia 54”

  1. Carla Neto on February 29th, 2008 3:34 pm

    Sem indiscrição, o que aconteceu ao Senhor Burch??!!

  2. Chico on February 29th, 2008 3:43 pm

    Estou certo que a partida do Jordi, para além de uma enorme tristeza,vai obrigar-vos, obrigar-nos a sermos e estarmos mais presentes, por isso não desistam.
    Um grande abraço e não se esqueçam que “regressam”
    da terra onde tudo começa.

  3. Chico on February 29th, 2008 3:47 pm

    Reparei agora que a hora a que vos escrevi é capícua,e como as capícuas dão sorte vou jogar no euromilhões e se me sair algo que se “veja” obrigo o D. jordi a voltar para trás e a acabarem a viagem/expedição.
    + 1 abraço

  4. Patrícia on February 29th, 2008 4:00 pm

    Lo siento mucho muchachos. Sei que a coisa já não vai ser igual por faltar um dos companheiros, mas a vida (viagem) continua. O vosso dia não melhorou muito o meu porque aqui (Portugal) as coisas hoje também não correram de feição.
    Mandem cumprimentos ao Jordi e o meu apoio.
    Espero que as coisas melhorem para vocês os dois. Força muchachos. Nós em Portugal torcemos por vós.
    Beijinhos.

  5. Gil on February 29th, 2008 4:01 pm

    Sem desanimar meus caros, mas deixar companheiros e sempre a pior coisa numa viagem, o sentimento ja nao e o mesmo mas a viagem continua a ser. Por isso forca ai malta. Mr Jordi, o seu sentimento deve ser dos piores mas nao desanime.. JA foram dois meses.. Abracos!

  6. jordi on February 29th, 2008 4:13 pm

    ESTAMOS JUNTOS!

    AQUELE ABRAÇO, GRANDE, UN EPÉTACCULO NO É NERO?!

    SAUDADES JODER!

  7. jordi on February 29th, 2008 4:24 pm

    Because I’m still in love with you
    I want to see you dance again
    Because I’m still in love with you
    On this harvest moon

    jordi

  8. Estação de Calor on February 29th, 2008 4:32 pm

    Abraço nos ossos Jordi!

    nelson

  9. Cameraman Metalico on February 29th, 2008 4:38 pm

    Quando viajo é dessas falencias que mais tenho medo… Então e a VISAO não adiante 370 dolares (sei mais ou menos quanto é…)
    É triste ficarem sem um… Olha Jordi… em BA vai ter com o Julian (julian737@gmail.com)
    Abraços - 1.500 km de barco… uma pechincha!
    CM

  10. Myra Gore on February 29th, 2008 4:56 pm

    FORÇA RAPAZES, FORÇA JORDI!!!

  11. Manuel Barros Moura on February 29th, 2008 5:28 pm

    MUITA FORÇA!
    Para os dois que seguem e para o Jordi, que regressa mais cedo. Para os três fica a certeza que, através da VISAO.pt, somos muitos (mesmo muitos) os que seguem ao vosso lado. Até ao fim!

  12. Carla Neto on February 29th, 2008 6:43 pm

    Não há nada que possamos fazer??!!!´Vê-lo partir??
    Não me conformo, mas vou continuar convosco, Luis e Gui!! :)

  13. Myra Gore on February 29th, 2008 6:45 pm

    Também me custa ver partir o Jordi, mas também vou continuar a minha viagem pela América Austral!!E em boa companhia!!:)

  14. cyberannie on February 29th, 2008 6:53 pm

    Je suis triste pour Jordi et également pour Luis et Guillaume qui ont perdu une partie d’eux-mêmes. Mais bon courage pour mener à terme ce voyage qui nous a tenus en haleine pendant maintenant 2 mois.

  15. Apiko on February 29th, 2008 7:58 pm

    Amigos queridos, qué tristeza grande, se fué una de
    las miradas indispensables a este viaje, que me hacer reir, me hace llorar, de alegria, de tristeza.

    Que me pone serio, con los problemas del territorio y de sus gentes.

    Pero que también me dá la alegria de que en todos lados se encuentra gente gaucha, como Oscar, como Germán y como todos los anónimos que van encontrando en esas tierras.

    De los otros, de las malas prácticas, hay que conocerlos para mejor combatirlos.

    Buen viaje para Jordi hasta Baires.

    Y para tí Luís e Gui FUERZA MUCHACHOS QUE ESTAMOS TODOS CON USTEDES!!!

    Hay que acabar este viaje, que merece ser publicado en libro y que será con certeza un Best Seller.

    Un abrazo grande de vuestro amigo
    Apiko

  16. Fatima Cunha on March 1st, 2008 6:45 am

    OLÁ!!!ESPERO QUE ESTEJAM TODOS BEM, tanto quanto possível, dadas as circunstâncias…
    Deculpem a minha falta de compreensão, mas ainda não percebi…como é que no decorrer do vosso excelente trabalho um dos repórteres vai embora e é “repatriado” de forma tão ligeira????
    É que não estou mesmo a perceber…não há multibanco aí ao pé, não há dinheiro no multibanco ou o que existe é uma revista chamada “VISÃO” com reais dificuldades económicas (o que até acredito…) ou que NÃO TEM/PERDEU/ESQUECEU NO CABIDE/EMPRESTOU/SEI LÁ…uma coisa chamada coluna vertebreal ou outra designada de HOMBRIDADE??!!Estou muito confusa, mas o problema se calhar é meu, pelo que peço desculpa se ofendi alguém, não era essa a minha intenção…

  17. Fatima Cunha on March 1st, 2008 6:52 am

    Ps: quando falo da revista VISÃO claro que não me estou a referir aos seus excelentes trabalhadores, os que estão na ribalta e os muitos outros de bastidores, mas estou a falar dos outros, directores e adjuntos, os que mexem a massa os que decidem (!!) o “destino” (entre comas porque felizmente o destino de um HOMEM é mais do que isto…)dos outros….
    Claro que “HÁ COISAS MAIS IMPORTANTES”, “PRIORIDADES” e a P.que os P.!!!

  18. Apiko on March 1st, 2008 9:22 am

    Claro, creo que Fátima puso el dedo en la herida.

    QUÉ CLASE DE APOYO, PATROCINIO, O LO QUE SEA ES QUE ESA BENDITA “VISÃO” DÁ A ESTOS PERIODISTAS QUE SE ATREVEN A IR AL FIN DEL MUNDO EN CONDICIONES ASÍ.

    SERÁ QUE NO VENDIERON LO SUFICIENTE CON ESTA GRANDE REPORTAJE, COMO PARA NO APOYAR A SUS ENVIADOS?!?

    DONDE YÁ SE VIÓ TAMANHO DESPARPAJO!!!

    DESPUÉS VIENEN CON LO DEL GRANPREMIO VISÃO DE FOTOJORNALISMO!!!!!

    DEJÉNSE DE JODER Y APOYEN COMO DEBE SER…..PORQUE ESTÁN GANANDO “MUCHA PLATA” CON ESTOS MUCHACHOS!….. E VAN A GANAR TODAVIA MÁS!

    APÓYÉNLOS, CARAJO!!!

  19. Myra Gore on March 1st, 2008 12:26 pm

    STRAIGHT TO THE BONE!!

    DIIIIISGUSTIIIIG!!!!

  20. luis on March 1st, 2008 5:04 pm

    Caros amigos e amigas e amigas e amigos. É claro que é uma m… que o Jordi tenha partido, é claro que estamos tristes, é claro que a coisa vai continuar, porque as viagens são mesmo assim. Percebo quando falam dos “apoios”. Mas a verdade é que a Visão, no nosso caso, tem-se portado exemplarmente. Sem a parceira da Visão estaríamos provavelmente a viajar pela zona do Cais do Sodré, que é muito bonita e tem uns mamarrachos novos para tapar a vista.

    Um grande abraço a todos pelo vosso apoio. O mais importante de todos.

    Luís e Gui

    P.S: Encontramo-nos todos um dia destes. Pode ser no Cais do Sodré?

  21. Patrícia on March 1st, 2008 7:20 pm

    Gostava muito que nos encontrássemos todos. Mas o Cais do Sodré para mim fica um bocadinho longe. Aproximadamente 450km de distância.
    No entanto, tudo é possível.

    Continuação de boa viagem Luís e Gui nós por cá continuamos a dar-vos o nosso apoio.

    Beijinhos

  22. Mya Gore on March 1st, 2008 8:24 pm

    E que tal a meio caminho :)
    Assim não falta ninguém!!!

  23. Carla Neto on March 1st, 2008 9:24 pm

    COM BOA COMPANHIA QUALQUER CAIS SERVE!!! :)

  24. MARIA on March 1st, 2008 11:30 pm

    Força rapazes!
    Uma dúvida:a viagem é por vossa conta e risco?Qual o papel da Visão?

  25. Apiko on March 2nd, 2008 12:06 am

    Gracias Luis por tus palabras, pero es que me exalté un poquito con esta situación que no se compreende muy bien.

    Debe ser por la edad, que mañana soy un poco más viejo.

    Combinado! Todos para el Cais do Sodré!, puede ser en el escritório no.1?

    Más conocido por “Airish” o “irlandés”. Con tanta gente lo ocupamos todo y de abarrotado nos desparramamos hasta los nuevos mamarrachos y juntos imaginamos nuevos viajes, imaginarios y reales.

    Un abrazo grande, nauremi naki y tál!
    Apiko

  26. cyberannie on March 2nd, 2008 11:36 am

    Merci Luis et Guillaume pour cette mise au point;
    Moi aussi j’aimerais prendre un verre avec vous à Cais do Sodré….Même si je ne suis pas de votre génération!!Mais s’il s’agit d’un bar Irlandais , j’adore la Guiness!!!!!

  27. alex on March 5th, 2008 5:33 pm

    FORÇA RAPAZIADA! O caminho é sempre em frente.

  28. Carla Neto on March 8th, 2008 11:09 pm

    Mr. Jordi, send me a dream!!!

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