Estação do Calor
Documentário

Mês: March2008

Dia 74

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Que despertar jovial e carregado de energia de polaridade negativa. A altitude estava de novo e fazer das suas. Cansaço. Muito cansaço. Respiração pesada, a caminho do duche que, tal como nos barcos, fica mesmo ao lado da sanita, dispensando cortinas ou quaisquer apetrechos que salvem o papel higiénico de ficar ensopado. Este estabelecimento categorizadíssimo, que servia “desayuonos” ao jantar, jantares ao lanche e, por “supuesto”, “almuerzo” ao “desayuno” era uma espécie de bairro típico lisboeta.

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Dia 73

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Então e que tal Taltal? Taltal é daquelas cidades e tal, tal como uma cidade que talvez nem seja bem uma cidade, mais um pueblo e tal, que como tal não é considerado, sendo, portanto, apenas cidade. Agora: Não é decididamente uma cidade e tal Taltal. É só uma cidade perdida no espaço e no tempo e tal, de tal forma que só nos apetecia fazer ali o mínimo e tal, para nos irmos embora e tal e talvez tão cedo não voltar a Taltal e tal. Mas, aparentemente, tal não era possível e tal.(…)

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Dia 72

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“El tiempo pasa”, diz Mercedes Sosa, rainha, que agora me atrevo a traduzir: “Vamos vivendo vendo as horas que passam. As velhas discussões vão-se perdendo entre as razões”. Cito isto pelo seguinte: Por causa das leis da proporcionalidade, por causa do ínfimo que desaparece ante qualquer grandeza, por causa da grandeza que desaparece quando a ela se sobrepõe o ínfimo, por causa dos olhares que estão, quando não estão longe, por causa dos mil desertos que todos atravessamos (…)

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Dia 71

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Manhã cedo. Tudo a postos para, provavelmente, a etapa mais difícil da nossa viagem: Atravessar o deserto de Atacama, território duro, que para o ano vai receber o “Dakar” e onde não cai uma gota de chuva há mais de 400 anos. Outra vez mochilas às costas e tralha nas mãos. “Hasta la vista” caminha, que bons momentos passámos. Desayuno tomado, contas em ordem, actualizadas as despedidas.

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Dia 70

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Ora bem: Dia complexo, senhores ouvintes. Francisco Bou, o líder da resistência de agricultores ao projecto Pascua Lama, fez-nos um convite irresistível. Embora o próprio não pudesse estar presente, por coisas inadiáveis, tinha todo o prazer em que visitássemos as suas vinhas e as suas adegas de pisco, onde são produzidas autênticas preciosidades. Caro Pancho Bou, o prazer será nosso, até porque tínhamos mesmo de voltar ao Alto del Carmen, a meio do caminho do mais remoto dos pueblos, o que mais próximo ficará do âmago de Pascua Lama.

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dia 69

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Dia 68

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Perguntam vocês: O que fomos nós fazer à remota cidade de Vallenar? Terá sido por causa da magnífica paisagem de rocha e de calhaus que a rodeia? Sim e não: Pascua e Lama. Pascua, no território chileno. Lama, no território argentino. Pascua Lama é um David contra Golias, que já dura há mais de uma década, desde o momento em que uma multinacional canadiana, a Barrick Gold, que já teve por sócio George Bush sénior, que também já teve por accionista a família Bin Laden, da Arábia Saudita, apresentou um projecto para abrir uma exploração mineira na região.

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Dia 67

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De noite a chegada à cidade a Vallenar. Caímbras no polegar esquerdo, de empurrar a manete das luzes, para que o farol frontal do lado esquerdo funcione, tal como o pisca do mesmo lado, que não arranjámos maneira de o tornar independente.(…)

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Dia 66

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Santiago no retrovisor do Falcon, aparentemente em excelente forma: Apenas três pneus em estado avançado de calvície, sistema eléctrico completamente baralhado, suspensão traseira do lado esquerdo um pouco descaída mas de pé, direcção electronicamente desalinhada. Quando vamos em recta, é como se fôssemos a fazer uma curva de 160 graus.

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Dia 65

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A nossa colega de quatro sueca tinha fez uma entrada atribulada no quarto quase de manhã, embora ainda de noite, tropeçou na minha mochila, que não é propriamente pequena, segurou-se entre o meu beliche e o do Gui, e seguiu caminho amparando-se no vácuo, tropeçando no que havia para tropeçar, tentando por todas as vias não fazer barulho, coisa que não estava a conseguir.(…)

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