Dia 55
Diário de viagem

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Lá se foi o Jordi, aqui ficou o vazio, lá se foram os dólares, aqui vamos nós, moi e o françois, para uma nova etapa. Monsieur Pazat, péssimista-neo-realista-velho-do-restelista por natureza, não estava confiante no que Juan tinha feito para arranjar a caixa de velocidades do Falcon. E começou a manhã com premonições negativistas. Nada de especial, só para salientar que se o Falcon 006 avariasse no caminho, nós tínhamos de seguir o exemplo do nosso companheiro de viagem e marchar de volta para Buenos Aires. Eu, que sou mais para o descontrolado-quero-lá-saber-depois-se-vê, afiançava que Juan sabia exactamente o que fazia quando pegou no alicate e puxou um ferro para o alinhar com outro. Bom… tínhamos que ir buscar os bilhetes à Navimag por volta das 11 horas, para fazer 250 quilómetros até Puerto Natales, para nos apresentarmos nos estaleiros às 22h00, para supostamente embarcármos à meia-noite. Continuava a chover. Com o carro atestado de “nafta”, um “aceite-extra”, para evitar males maiores, saímos de Punta Arenas por volta das 13h00, já que nos faltava enviar trabalhos num web-café, ou numa web qualquer que tivesse um café de jeito, coisa impossível no Chile.

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“Vamos chegarrr atrrrrasados!” Não vamos nada. Temos imenso tempo, franchotti. “Vamos verrr…” Sem mais delongas, ao caminho. E, mesmo a sair de Punta Arenas, chegámos conclusão que estávamos ambos cheios de fome. Para além disso, a placa de matrícula traseira tinha caído. E isso “está-me a preocuparrrr”. Não havia mesmo mais tempo a perder. O caminho para Puerto Natales é em boa parte o caminho de volta a Rio Gallegos, embora nunca se chegue a sair do Chile, ao longo da rota de Magalhães. Coisa de uma hora de viagem depois, uma estação de serviço. “Boa, vamos comerrr”. Não digas duas vezes monsieur. Parecia, no entanto, que a bomba de gasolina estava abandonada. Mas havia gente no restaurante. Não, afinal era o restaurante que estava abandonado, mas havia uma pessoa na bomba de gasolina. Não, era o contrário. Não, era o contrário do contrário.

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A mesma pessoa, esbaforida, veio a correr explicar-nos que a sua mulher tinha ido às compras à zona franca de Punta Arenas e que ele estava sozinho, a cuidar da sua casa, dos seus animais, da sua bomba de gasolina e do seu restaurante. Gasolina era dentro de momentos, comida, não sabia fazer nada. Mas havia coisas feitas. E empacotadas de série. Muito obrigado, não vai nada, só gasolina e umas garrafas de água. Há algum restaurante pelo caminho, senhor atarefadíssimo? “Hasta Puerto Natales, pienso que no, caballero”.

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O senhor não sabia bem o que dizia. Havia um restaurante aberto em 250 quilómetros de viagem, mais ou menos a meio desta. Todo o caminho sob chuva intensa, todo o caminho atravessando algo imenso, selvagem e, nota-se bem, organizado. Mas, para além de uma imensa paisagem, às vezes de planície, outras de montes e vales, quase sempre de vegetação abundante, apenas uns quantos trabalhadores, sem outro abrigo se não as suas capas ou as máquinas escavadoras, umas quantas casas perdidas em algo maior e, sensivelmente a meio do caminho, uma placa já velha que dizia: “Cordero assado a 5 kms”.

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Não foi preciso dizer nada. Parámos cinco quilómetros depois. Meio desconfiados, pois nada indicava que aquela casa, tão solitária, fosse um restaurante. “Permisso?” Nada. Resolvemos abrir a porta cautelosamente, atirando um segundo “permisso”, enquanto entrávamos. Estava um casal cinquentenário à mesa, com uma filha que teria vinte anos, com uma provecta senhora, que de tão provecta, levantava os olhos com dificuldade, mastigava com dificuldade, não demonstrando dificuldade nenhuma em nada dizer. Os restantes continuaram a comer. O senhor, que tinha enfiado um chapéu tipo safari, com uma dobra frontal para cima, fez sinal para entrarmos e, depois de engolir como se engolisse um comprimido, ofereceu-nos um sorriso. Que entrássemos, disse. “Bienvenidos”, acrescentou a sua mulher, que entretanto limpava a boca à senhora mais velha, que depositava olhares de alguma curiosidade, tal como a mais nova. Estávamos na sua sala de jantar, mas haviam mais mesas postas. Mesmo ao lado, na cozinha, alguma actividade. Se puede comer algo, señora? “Claro chicos”.

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Ementa: Sopa de cordero, que é um prato principal, antecedido de sopa de tomate, seguido de uma banana às rodelas com geleia. Em suma: Finalmente, comida caseira.
Esperámos que os donos da casa terminassem, espreitando pela ampla janela da casa, que tinha a longa paisagem interrompida por estatueta indígena e uma réplica de de uma igreja católica, ambos de madeira, ainda uns autocolantes referentes às festas de uma virgem, cujo nome não me ocorre. O anfitrião limpou a boca, fez uma onomatopeíca de satisfação, levantou-se e veio cumprimentar-nos, transportando dois cadernos escolares onde depois devíamos escrever as nossas impressões sobre o tempo que ali íamos passar. De caminho, perguntou evidentemente de onde éramos. Este amigo é francês, eu sou português. “Português?”, perguntou. Neste momento pensei que me ia falar do Figo ou do Cristiano Ronaldo, como sempre acontece. Mas não. Fez-se silêncio. E: “Coimbra é uma mulher. Só passa quem souber. E aprende-se a dizer… saudade”. Ficámos embasbacados. Fado de Coimbra, exactamente no meio de nada.

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Ricardo, assim se chamava o gentil anfitrião, sabia muito de Portugal e era fascinado pela cidade de Coimbra. A sua casa, por ser a única paragem possível entre Punta Arenas e Puerto Natales - excepção a uma estalagem, que mais tarde verificámos que estava fechada -, recebe pessoas de todo o mundo, de passagem, como nós. Os cadernos que trazia são as suas recordações. Um motoqueiro japonês que andava em viagem há mais de quatro anos por todo o mundo, muitos brasileiros, muitos israelitas, australianos, alemães, franceses, italianos, até belgas, de todos os quadrantes houve gente a assinar os seu caderno e a elogiar o carinho e a simpatia com que ali foram tratados. E, como não podia deixar de ser, também por ali tinham passado portugueses, dois para ser exacto, em ocasiões diferentes. Mais recentemente, um rapaz muito simpático com óculos. E, num momento mais distante, uma portuguesa que esteve uma noite inteira a ensinar fado de Coimbra a Ricardo e que mais tarde lhe enviou um disco. Gabriela, a sua mulher, contou que Ricardo vive a sonhar com Coimbra. Hora e meia depois, estávamos de saída, contrariando-nos.

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Soube tão bem aquele calor. E, à saída, Gabriela pediu que tocássemos o sino que tem à porta, que é para proteger os viajantes. Ricardo veio cá fora despedir-se a cantar, claro, o seu fado predilecto. Duas horas e muita chuva depois, estávamos em Puerto Natales, uma cidade portuária cinzenta, onde proliferam todos os que mais tarde vão embarcar, em muito maior número do que os que ali vivem.
Foi por ali, portanto, que fizémos horas até às 22h00. Lá chegando, ao porto, foi mostrar os documentos e entregar a chave do Falcon, para que alguém o conduzisse depois ao porão do cargueiro. O que fizémos com relutância: É o nosso menino, que diabos!!!

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Na sala de espera, salvo a redundância, esperava com ar de seca uma pequena amostra do que seriam os três dias e quatro noites que aí vinham: Mochileiros, motoqueiros, hippies, nova e velha guarda, agricultores do Quebec, jovens franceses animadíssimos, um quintento de espanholas, atiradíssimas, casais noruegueses, circunspectíssimos, um ou outro solitário, chilenos de “vacaciones” e, mesmo no fim, um grupo de americanos, transportando todos os clichés possíveis e imaginários, incluindo uma guitarra às costas. A coisa prometia.
Por volta das três da manhã deu-se o “all a board”. Os classe A tinham cabines individuais. Os B também. Nós éramos do imenso C, numa espécie de tudo ao molho, num labirinto sem privacidade, colocados numa camaratazinha sem porta, que tinha quatro beliches. Nos de cima, calhou-nos a nós. Nos de baixo, dois chilenos, que pousaram as malas e foram para os copos, que o bar do barco estava excepcionalmente aberto. Cada cama era um espaço mínimo. Mas tinha uma cortina para reservar aquela pontinha de privacidade.
E, por hoje, fechou-se a cortina. “Estás a verrrr, Pazat, já cá estamos”. Mas o Pazat, nesta altura, já não estava.

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Comentários

13 respostas to “Dia 55”

  1. Myra Gore on March 2nd, 2008 4:22 am

    Hola, apesar do vazio e da tristeza vejo que continuam em grande estilo!!!!

  2. jordi on March 2nd, 2008 7:59 am

    luigi, meu irmão, és o maior! gabi também acha!

    ESTAMOS JUNTOS! jooooodeeeeeeeeerrrrrrrrrrr!!!!!

  3. cyberannie on March 2nd, 2008 8:42 am

    Le moral semble revenir: c’est bon signe!!
    Ce qui fait le charme des voyages c’est l’imprévu: trouver au milieu de nulle part une maison-auberge avec un patron qui connait Coimbra et le fado c’est une bouffée de chaleur dans ce paysage désolé .
    Bon courage pour la suite

  4. jordi on March 2nd, 2008 9:19 am

    belas fotos franchoto! a 1ª é bela!

    abraço!

    jordi

  5. cyberannie on March 2nd, 2008 9:59 am

    J’ai oublié de féliciter le photographe!!!
    bisous

  6. luis on March 2nd, 2008 12:38 pm

    PARABÉNS APIKO

    E, como se diz em castelhano do Chile:

    COPODEVES!!!!!!

    Abraço

    Lpc

  7. sofia on March 2nd, 2008 5:43 pm

    pessoal ainda bem que ja ultrapassaram a perca, vamos em frente, e diga la se nao ficaram comovidos com o fado coimbra?, muitas saudades e beijinhos, e mandam tambem para o jordi.

  8. Apiko on March 2nd, 2008 6:48 pm

    TE ACORDASTE, HERMANO!!!!!
    QUE ME HACÉS LLORAR DE EMOCIÓN, CHE!
    ………………..Y COMO DIGO YO, CON MUCHO GUSTO!

    Esto de recibir el feliz cumple desde el fin del mundo, es para recordarlo para siempre!

    Y para festejarlo que mejor que un verso del “Martin Fierro”, sobre dos hombres amigos en la contrariedad, y se los mando con amistad para los dos:

    “Un hombre junto con otro, en valor y juerza crece; el temor desaparece, escapa de cualquier trampa; entre dos, no digo a un pampa, a la tribu si se ofrece”

    Ustedes consiguen, Fuerza y a darle con el Falcon!!!

  9. luis on March 2nd, 2008 7:18 pm

    BROTHER mangolé,
    Espero que estejas com o sol em cima. Se mudares de direcção, não te esqueças de ligar o pisco-pisco.

    Aquele abraço e um beijo à Gabi

  10. Apiko on March 2nd, 2008 8:21 pm

    AAAAAAAAHHHHHHH!

    ……..LA HUÍDA DEL PAGO, METÍA CHINA………….

    …………….PERDONÁME VISÃO………………..

    EH,EH,EH,EH!!!

  11. MYRA GORE on March 2nd, 2008 8:30 pm

    Tuuudo em ciiima!!!Forca pessoal bacano!!

  12. Patrícia on March 3rd, 2008 9:44 am

    Olá muchachos. Pelos vistos a viagem continua animada.
    É assim mesmo!
    Essa viagem de barco promete…

    Bjs para os dois e também para o Jordi.

  13. João Mesquita on March 3rd, 2008 2:54 pm

    Já não entrava neste site, a alguns dias, e com pena li que, ficaram reduzidos a 2 elementos, razão tinha a outra senhora que disse que “no hay plata no hay amor”, e infelizmente vivemos num mundo assim, mas claro a vida continua e espero que as coisas corram bem aos elementos que restam.

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