Dia 56
Diário de viagem

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Oito da matina. Senhores passageiros, informava a energética Andreia, uma das animadoras de serviço, aos poderosos altifalantes a bordo do Evangelistas, era favor deslocar-se ao salão de “comedor”, para um briefing sobre a viagem e sobre todas as actividades de entretenimento no magnífico cargueiro turístico, que improvisa estas viagens durante o Verão e que já marchava a 12 nós. Desculpa lá Andreia, mas o nosso camarote estava ocupadíssimo num briefing com as almofadas. Nos bunkers de baixo, a dupla chilena não dava sinais de vida. Monsieur Pazat também não mexia a cortina. Eu deixei-me estar sossegadinho, virei-me para o outro lado, bati com o nariz na parede, virei-me para o outro e quase caia do beliche. Só algumas horas depois é que foi possível erguer o cansaço acumuladíssimo para fora do beliche. Parecíamos dois bandidos com a barba enorme, a roupa e o corpo sujos, resultado de uma sequência alucinante de noites a dormir, sempre em trânsito, num relento chamado Falcon. Ora bem, antes de testar as instalações sanitárias a bordo, primeiro uma vista cá fora, no estreito passadiço que permite dar uma volta completa e oval por toda a embarcação. Deparámos com algo único. Pequenas ilhas, que antecediam os glaciares, através dos quais passavamos pertíssimo. Natureza em estado puro, esta que nos reservava os canais patagónicos. Nem o ar gélido conseguia afastar-nos desta visão incrível.
O pequeno-almoço era até às 10h00, portanto, onde é que ele já ia. Vamos lá então experimentar os duches e tudo o mais que a Navimag tem para oferecer em matéria de toillets. E que surpresa agradável. Tudo limpinho e a brilhar. Impressionante, mesmo depois da maior parte dos passageiro classe C, como nós, mas que ao contrário de nós tinham madrugado para ser briefados e para ver as vistas, naturalmente as terem usado.

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Sem mais delongas, toca para a zona das “duchas”, para retirar a incrível camada protectora que se acumulara na pele. Os pés estão pretos, o que combinava muito bem com as mãos. O cabelo está qualquer coisa parecida com palha de aço. E embora nenhum de nós use qualquer coisa compatível com um pente ou instrumento que o valha, nem isso conseguiria penetrar na selva densa em que a nossa cabeça se tinha transformado. Bom… no geral, um operário da construção civil - mesmo que seja um engenheiro bioquímico ucraniano, daqueles que andam pendurados nos andaimes nas ruas de Lisboa -, não teria conseguido melhor cartão de apresentação. Adiante para a limpeza de estrada. Para começar, algo estranho. O duche só tinha uma torneira, aliás, nem era uma torneira, era um botão para pressionar, as vezes quanto as necessárias durante o duche. Será que só havia água fria? Ou será que só havia água quente? Ou será que nem sequer havia água e a torneira-botão era meramente decorativa? Estava a achar estranho não haver nada de errado com as instalações. Estava desconfiado como um certo francês.
Aleluia!!!! Afinal havia água. Mas estava gelada. Uns segundos depois estava a ferver. E quando digo a ferver não estou a exagerar. E agora? Tentei esperar uns minutos para ver se a coisa arrefecia. Mas a verdade é que a água continuava a cair como se estivesse a padeira de Aljubarrota em cima do duche ou era como se estivesse a tomar uma banhoca numa caldeira. A primeira tentativa para me colocar debaixo do duche falhou em toda a linha. Ainda bem que o cabelo estava tão sujo, pelo menos assim a água para o mate nem sequer conseguiu chegar ao couro cabeludo. Tinha de ser. Nâo havia técnica possível a usar, se não atirar-me para baixo do chuveiro e rezar para não sair de lá com queimaduras de primeiro grau.

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Este duche foi uma operação extremamente dolorosa, mas pelo menos já não tresandava, prestando assim a minha parte no bom ambiente a bordo. Aliás, no convés, junto ao bar, grande parte dos passageiros começava a trocar alegremente informações, da mesma forma que trocava os sorrisos, quase todos com equipamento de montanhismo, que a temperatura estava nos antípodas da água do duche. E eis que a voz omnipresente de Andreia soou de novo, desta vez para chamar os classe A para o “comedor”. A classe A tinha os seus privilégios, era certo, mas a verdade é que a ementa era a mesma. E não era propriamente uma coisa compatível com a comida caseira que tínhamos comido a caminho de Puerto Natales. A seguir na hierarquia de quem pagou mais por um bilhete para ver o mesmo, era a vez da classe B. E eis que chamaram aos altihablantes a classe C, que não perdeu um segundo em correr para o comedor. O salão comedor é um salão multi-usos, que logo a seguir à última vaga de almoços passava a exibir filmes como o Piratas das Caraíbas III, muito apropriado para uma viagem de barco. Perguntei à Andreia, que não conseguia estar quieta um momento, se por acaso não iam passar o Titanic. “Ah ah ah!!!! E lá desapareceu Andreia pelo salão comedor fora, em direcção a qualquer sítio. Muito longe não ia. Como nenhum de nós. A vista magnífica era uma omnipresença, já que por todas as instalações do barco, excepção aos dormitórios classe C, facilmente detectáveis pelo olfacto, haviam janelas panorâmicas, como telas em movimento que nos percorriam. O espectáculo estava bom, a rapaziada multinacional era muito simpática e gostava de trocar experiências de viagem, mas nós estávamos cheios de sono. E resolvemos implementar desde logo o regime de “siesta”, coisa que os chilenos, que logo a seguir ao almoço nos informaram estar na posse de um verdadeiro arsenal de pisco, aderiram sem margem para dúvidas.

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A massa passageira percorria os mil caminhos estreitos no Evangelistas, cumprimentando-se à passagem, detendo-se para uma conversa circunstâncial ou prolongando-se exactamente para o mesmo. As espanholas, ainda calmas, tricotavam no convés, casais alemães sexagenários aparentavam não ter lido convenientemente as instruções das suas câmeras digitais novinhas em folha, o grupo teenager de franceses procurava outros franceses para confraternizar. E desde logo monsieur Pazat me avisou que, para todos os efeitos, era um francês “undercoverrr” e preferia ser apresentado como português. À mínima oportunidade em que nos cruzámos com bando francês, em perfeito castelhano, eu disse-lhes: “É francês”. Apesar do frio intenso, o grupo americano apresentava-se a tremer de t-shirt e em pé-descalço, exibindo peitoris “body-building” para as espanholas, que nem levantaram os olhos da agulha do tricot. Os da Nova Zelândia já estavam a segurar garrafas de cerveja, antecipando a noite que aí vinha. E, fazendo o mesmo, fomos à siesta.
Lá por volta das 18h00, quando aos altifalantes Andreia anunciou que estávamos prestes a avistar o primeiro grande glaciar da viagem, toca a levantar. E talvez fosse boa ideia acordar Francisco e Leonardo, que não era uma dupla romântica certaneja, mas os nossos amigos chilenos, ainda a recuperar do pisco da noite e daquele que nos tinham oferecido a seguir ao almoço. Todos para o convés, onde havia uns banco tipo-jardim, uns caixotes do lixo, tipo urbe, e um tabuleiro de xadres gigante pintado no chão, para entretenimento dos passageiros que tivessem pachorra para isso, coisa que nem a criançada teve. De repente, toda a gente se atropelava para a foto do glaciar, cabeças e mais cabeças à procura de ângulo, pernas e mais pernas tropeçando nelas próprias. “Que bonito! Que hermoso! Lovely! Magnifique! So schôn! Fucking great, man!”. Assim era definido o glaciar que se nos deparava, de um branco límpido, altivo, deixando escorregar pedaços de gelo, que passavam por nós à deriva, denunciando o sabor da corrente.

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Não tardou muito para Andreia convocar os passageiros para o salão comedor, para pleonasmar o jantar, que, aliás, configurava muito bem prato principal os restos do almoço. A seguir, quase instintivamente toda a gente seguiu para o bar junto ao convés, onde as espanholas deram o mote: Pisco. “Pisco sour, por favor”. Os compadres chilenos não precisavam de pedir. Tinham. Mas estavam a gostar da atitude das espanholas. Os franceses chegaram-se ao balcão e vai de pedir pisco, os americanos, ainda descalços fizeram o mesmo, nem os alemães resistiram. Pronto, “alea jacta est”, queridos passageiros: Pisco night.

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Daí em diante, a festa de convés só animou. E nem o líder religioso de uma igreja, americano, mas que viajava com a sua namorada chilena, sempre vestido de preto com o colar de búzios por fora, se juntou à animação, com uma embalagem “tetrapak” de dois litros de tintol. E a sala de leitura e de jogos de mesa diurna transformou-se em salão de festas. E foi aqui que conhecemos o funcionário Navimag multi-talentoso, um senhor portador de uma barriga proeminente, barba cuidadosamente aparada e um falso ar de antipatia. Este senhor era supervisor, trabalhava no bar, era DJ e cantor de bordo, conforme fez questão de provar quando se dirigiu a um órgão electrónico Casio, exemplar ainda existente das festas de província, e desatou a cantar velhos êxitos de Julio Iglesias e adaptações em castelhano de Frank Sinatra, “the real king”, como ele lhe chamava. O último e inesquecível tema da noite, como não podia deixar de ser, foi o “My Way”, seguindo-se, na versão DJ, Abba e afins. A bola de luzes iluminava já algumas valentes bebedeiras, com grande destaque para as espanholas, que distribuiam “besos” e abraços por toda a comunidade masculina. E eis que uma das espanholas cai nos braços do nosso companheiro de bunker chileno, que já aquecido, se exibia em tronco-nú. Mais tarde, voltei a ver o casal recém-formado. Mesmo por baixo de mim, em sorrisos e estranhos ruídos, escapando-se pés e pernas entrelaçados pela cortina protectora da cama. Afinal o bunker dava para cinco. Como em cinco da manhã.

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Comentários

10 respostas to “Dia 56”

  1. cyberannie on March 3rd, 2008 8:03 am

    Superbes photos et récit toujours aussi savoureux qui relate bien la vie sur le bateau et l’ambiance qui y régne!!
    Pas mal la façon de se procurer des “glaçons”. Il fallait y penser!!
    Ici il est 9Heures ..vous devez dormir encore
    bisous à vous deux

  2. Cameraman Metalico on March 3rd, 2008 9:11 am

    BONITO - abraço - CM

  3. Apiko on March 3rd, 2008 10:21 am

    AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!! OOOOOOOOOOOHHHHHHHHHHHH!!!…UUUUUUUUUHHHHHHH!!!

    QUÉ LINDOS PAISAJES! QUÉ LUMINOSIDAD! QUÉ FOTOGRAFIAS!…………BRAVO PAZAT!!!

    PIS…COOOO
    PIS…COOOO
    PIS…COOOO!!!

    BUEN VIAJE!

    APIKO!

  4. oscar eduardo de brito on March 3rd, 2008 11:29 am

    Donde esta el 006 ?????

  5. sofia on March 3rd, 2008 1:32 pm

    é pessoal deve ter sido uma viagem fabulosa, adorava estar aí, como esta o jordi e o falcan 006, beijinhos e saudades

  6. margarida sousa on March 3rd, 2008 1:34 pm

    realmente deve ter sido uma bela viagem, quando chegarem a portugal adorava colhece-los, beijinhos e saudades

  7. cyberannie on March 3rd, 2008 2:06 pm

    Si vous passez à Parral dans la provincia de Linares ayez une pensée émue de ma part: c’est là qu’est né Pablo Neruda en 1904.; Il me semble que l’on peut visiter sa maison devenue musée à Santiago…

  8. cyberannie on March 3rd, 2008 2:26 pm

    “Il meurt lentement, celui qui ne voyage pas, celui qui ne lit pas, celui qui n’écoute pas de musique, celui qui ne sait pas trouver grâce à ses yeux.”
    [ ]
    Pablo Neruda

  9. Myra Gore on March 3rd, 2008 3:01 pm

    SOBERBO:)

  10. Patrícia on March 3rd, 2008 3:41 pm

    Olá chicos.
    Essas fotos são “brutais”, muito lindas.
    A vossa viagem de barco parece estar a ser muito divertida. Luís consegues descrever tudo tão bem que parece que estou aí convosco a “curtir” a festa no barco que parece ser bastante surreal.
    Beijinhos e continuem a divertir-se.

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