Dia 57
Diário de viagem

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Pisco morning. Da mesma maneira que tínhamos acordado no dia anterior, acordámos nesta manhã, com a doce voz de Andreia, que profissionalmente antecipava um dia em cheio. Pelo menos a manhã, dizia ela. Portanto, todos para o comedor para a habitual conferência sobre o que dia ia ser. Já se estava a ver que deste bunker específico não ia haver muita colaboração. Até porque uma certa espanhola, aliás, muito simpática, assim que soou o altihablante, escapuliu-se sorrateiramente, julgava ela, da cama de baixo. Monsieur Pazat estava especialmente acordado e foi dar uma volta pelo perímetro reduzido do nosso “Love Boat”.

 

dia57_07.jpgNo entretanto, a maior parte dos passageiros C já tinha libertado a zona, deixando dormir pacificamente um soninho retemperador. Quando chegámos finalmente ao comedor, já estava a terminar o briefing da manhã. E Andreia em pessoa, desta vez sem recurso a altifalantes, anunciou algo inolvidável, que se seguia dentro de momentos: Uma cerimónia religiosa “on board”, para quem não dispensava um encontro com algo maior, tal como o que se encontrava do lado de fora, ao olhar pela janela, um misto de verde com o branco longínquo, que pontificava por cima das montanhas, como as natas de um bolo acabado de fazer.

 

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Não é que eu ou o franchotti sejamos propriamente rapazes de ir à missa, mas desta vez teve mesmo de ser. O pároco de bordo era acompanhado por um trio chileno, um deles à guitarra, os outros para entoar os cânticos certos. Na assistência, para além de nós, estava uma família chilena, pai barrigudo, mãe barriguda, filha barriguda, filho irrequieto e barrigudo. Em matéria de fé o melhor é não brincar com os sul-americanos, que transportam os seus crucifixos e os veneram como se estivessem perante o que veneram.

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O padre posicionou-se no canto do “comedor”, um pouco afastado da tela de projecção de filmes, mesmo ao lado das máquinas de sumos, transformando uma mesa tipo camping numa espécie de altar, onde colocou as hóstias e todo o material específico de comunhão. E a cerimónia começou exactamente com uma canção etérea e simples, antes das primeiras palavras de prelecção. A guitarra não estava propriamente afinada, coisa que o moço, que parecia acabado de chegar do Woodstock ou de um concerto dos Iron Maiden, acabou por corrigir um pouco depois enquanto o padre exultava os poucos presentes a dar as mãos e partilhar o abraço fraterno naquele barco apropriadamente chamado Evangelistas, que ainda navegava a uma velocidade estável de doze nós, embora as marés se tornassem cada vez mais instáveis, estando mesmo prevista para meio da tarde a toma de um comprimido para o enjôo, pois havia um encontro imediato com o oceano pacífico e as suas ondas prometiam remexer as muitas ressacas que haviam a bordo, às voltas sobre si próprias, já um pouco cansadas de si próprias, esgotadas todas as conversas iniciais, tornando-se deveras desconfortáveis os silêncios, em alguns casos ao nível da insuportabilidade. Os passageiros da noite passada eram só os passageiros que eram antes da noite passada. A espanhola fazia de tudo para evitar o nosso chileno, o nosso chileno fazia exactamento o mesmo, coisa que não era fácil, dado ser o barco tão pequeno, cada vez mais pequeno, e mais e mais quanto se tornava impossível percorrer um simples metro quadrado sem dar de caras com uma cara com a qual não nos apetecia dar de caras. De um dia para o outro o Evangelistas tinha-se convertido num labirinto sem outra saída que não fosse o espaço ínfimo a que os passageiros estavam confinados. Em simples 24 horas todos se tornaram insuportáveis aos outros. E não havia comprimido para o enjôo que os salvasse disso.

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A missa deu lugar ao almoço, o almoço deu lugar ao filme da tarde, no caso o Código de Da Vinci - também havia de haver comprimidos para isso -, e mais uma vez era ocasião apropriada para uma boa de uma siesta, de novo interrompida pelas palavras magnânimes de Andreia, que comunicava a urgência em que os passageiros mais suspectíveis às águas do Pacífico tomassem os respectivos “pills”. Era agora ou nunca porque o barco já começava a oscilar. É claro que os “pills” não estavam no programa e tinham de ser pagos à parte. O nosso Pazat é um “sea wolf”. Eu sou português. E, como tal, recusei-me a dispensar um peso que fosse para o enjôo, em nome de Vasco e Paulo da Gama, em nome de Fernão de Magalhães e em nome de toda a frota pesqueira que um dia o Algarve teve, antes da então CEE ter pago subsídios para que esta fosse incendiada. Adiante, que agora tínhamos aumentado a velocidade para quinze nós, uma vez que estávamos em mar aberto. Passado coisa de uma hora, decorria um verdadeiro espectáculo a bordo, com o barco a fazer Evan para um lado e Gelistas para o outro. Notava-se bem quem tinha ingerido os comprimidos milagrosos. Eram aqueles passageiros que tinham dificuldade em levantar os olhos ou mesmo em levantar-se, demorando longos minutos para perceber que já tinha passado uma hora e que os esperava um jantar atribuladíssimo, com o barco a tombar de um para o outro lado.

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As janelas panorâmicas eram agora como quadros presos pela irregularidade de um só prego. Hoje, a noite não prometia. Para começar, as espanholas tinham tomado os comprimidos. Os americanos também, o que se melhorou a qualidade do som que saia das suas bocas ou da sua guitarra. O casal de agricultores do Quebec, claramente sob o efeito, tentava circular pelo bar, amparando-se, como faz um velho casal de agricultores do Quebec em dificuldades. Os solitários andavam por ali, sozinhos, desejando apenas que passassem estas ondas erróneas e que ninguém se lembrasse de meter conversa com eles. Para cúmulo, até a paisagem tinha desaparecido. Só Frank, o líder espiritual de uma igreja inventada por ele, resistia, com mais uma recarga de tintol e sempre o mesmo olhar etéreo, que combinava às mil maravilhas com o colar de búzios. Os navegadores franco-portugueses impuseram-se com grande dignidade, demonstrando que o pisco e as marés podem combinar na perfeição, enquanto os restantes, os mesmos que tinham tomado os comprimidos e não tinham tomado uma gota se comportavam como se houvesse drogas a bordo, cambaleando, como na noite passada, por motivos completamente diferentes. Restava a dupla chilena e a sua reserva natural de pisco com Sprite, ainda assim a denotar dificuldades. O nosso cantor de serviço, por outro lado, estava em grande forma, em frente ao seu órgão - salvo seja -, teclando e repetindo o repertório da noite passada sem o mesmo nível de audiência, mas com o mesmo nível de decibéis. E, só depois de ouvirmos o My Way é que seguimos o nosso “way” directos ao nosso bunker. That´s all folks!

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Comentários

6 respostas to “Dia 57”

  1. margarida sousa on March 4th, 2008 1:51 pm

    ola pessoal , foi uma má noite hem, mas ja passou , espero que estejam optimos, belas fotografias e muito bem escrito como sempre

  2. sofia on March 4th, 2008 1:54 pm

    adorei, ainda bem que quando fiz um cruzeiro nao apanhei essa ondulaçao, mas espero que ja estem bem beijinhos para os dois mas mais para o lpc

  3. cyberannie on March 4th, 2008 3:13 pm

    J’aime beaucoup la première photo avec ces effets de miroir.Bravo, guillaume, tu pousses la conscience professionnelle jusqu’à assister à un office religieux!!!!
    Luis ,j’apprécie toujours ton style et grâce à toi mon Portugais (lecture tout au moins) s’améliore;
    Grosses bise à vous deux

  4. Patrícia on March 4th, 2008 4:40 pm

    Olá muchachos.
    As fotos como sempre são óptimas e a descrição continua sempre realista. Depois de ter quase ter sentido que estava aí na festa com vocês, hoje com a descrição do Luís posso até sentir os enjoos do pisco e da ondulação.

    Sinceramente acredito que viajar num barco durante tanto tempo e sempre com as mesmas pessoas deve enjoar. Eu sou daquelas pessoas que não aprecia esse tipo de meio de transporte, por isso se estivesse aí convosco já me estava a passar.

    Beijinhos e espero que continuem a ter uma boa viagem. Vê-se logo que sois “rijos” aguentais qualquer viagem. Força muchachos.

  5. Apiko on March 4th, 2008 6:06 pm

    Qué Tál, como les vá?

    Concordo plenamente com cyberannie (de resto no es la primera vez). Buena la fotografia que abre la jornada, che Pazat!

    De la escrita de Lpc, que se puede decir más, que no sea repetir lo que yá se dijo?!?

    Bueno, veo que yá pasaron el bautismo de mareada!
    Y bien, que otra cosa no era de esperar de “viejos lobos de mar”.

    La mejor forma de pasar por estas situaciones, es acostado, estendido, “haciendo la siesta”.

    Que es como yo lo pasé cuando en la venida para Lisboa, tuvimos que pasar por el golfo de Sta. Catarina, entre Uruguay y Brasil.

    Sí, porque yo me vine de barco a Europa-Lisboa, y si ustedes se aburrieron en dos o tres dias, imagínense yo en 13 dias!!!!

    Un abrazo grande
    Apiko

  6. Myra Gore on March 4th, 2008 10:07 pm

    Que fotos,que viagem, que boat, que love, que vocês,que tuuuuudo!!!
    Um abraco que dure!!

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