
Alto mar. Baixa manhã. Era ainda de madrugada, mas tinha já a certeza que ainda não era desta que conseguia tomar o pequeno-almoço. Ainda por cima já me tinha dito um francês, informação confirmada por um norueguês, reforçada por um agricultor do Quebec, normalmente muito exigente nas questões de ingestão matinal, reconfirmadÃssima por um dos chilenos, companheiro de bunker, que tinha aproveitado para o experimentar antes de se ir deitar, dizendo maravilhas do pão, da manteiga chilena, que se distingue da argentina por ter sal, do próprio café, coisa que claramente não tinha chegado para lhe curar a excitação de uma dose incomensurável de pisco, que esta noite transformada em manhã lhe tinha reservado. Não fazia mal, Leonardo, nestes três dias acabámos por desenvolver um mecanismo eficaz para ignorar vozes. Antes de mais, a voz sempre presente de Andreia, com as suas convocatórias para a missa matinal, para o almoço, para o jantar, para o briefing, para o briefing do briefing, para o filme da matiné, no circunstância A Casa dos EspÃritos, do clássico de Isabel Allende, que tem pitadas de Alentejo e de portugalidade, que passaria mais lá para as cinco da tarde.
Não havia, portanto, nada a fazer. Dormir e dormir, descansar e descansar, carregar baterias, porque na madrugada seguinte já estávamos em Puerto Montt, de novo terra firme. Convinha acordar um pouco antes do almoço, para nos dirigir ao “comedor”, assumir o nosso lugar na longa fila para chegar aos tabuleiros, para ser servido à s colheradas, como se estivéssemos num estabelecimento prisional rodeado de mar. Findo o almoço, pouco mais para fazer em alternativa à “siesta”. Talvez um “jogging” à s voltas no barco, a tentar evitar as pessoas com quem tÃnhamos falado longamente na noite passada, deambulando sobre temáticas certamente interessantes, mas das quais não nos lembrávamos em grande percentagem, à espera que a paisagem arrebatadora dos canais patagónicos voltasse ao nosso campo visual, à espera do jantar, à espera do único anúncio de Andreia que causou bons nÃveis de entusiasmo: A seguir ao jantar, senhores passageiros, todos para o bar porque estava prevista uma “happy pisco hour”. Sour, por supuesto.
Estava-se mesmo a ver que a noite reservava uma piela colectiva, como havia acontecido há duas noites. Havia mais boas notÃcias: O comandante fez anunciar que se esperava mar de pequena vaga, que dispensava quaisquer comprimidos para o enjôo. Melhor: Depois do almoço ficou um sol radiante, próprio para estender-se no convés com “headphones”, que é uma óptima maneira de dizer gentilmente aos outros que não estamos em modo-converceta. Estava um solinho quentinho. Mas, para o grupo germânico parecia Janeiro no Brasil, logo em tronco-nú, munidos de protector solar. Os teen franceses, estavam todos com uma ressaca enorme dos comprimidos para o enjôo e só queriam estar deitados. Como quase todos os restantes, ali ou nas camaratas.
Estava, portanto, deitado num dos bancos de jardim do convés, com headphones a ouvir Tricky em modo repeat, na escala 8 em 10 do volume, quando alguém me retirou o auscultador direito, me colocou parcialmente à sombra e sobrepôs uma dentadura branca e perfeita entre mim e o azul do céu. Era uma das espanholas, intrigadÃssima pelo facto de não estarmos a falar com elas, nem interessados no que elas estavam a fazer, que naquela altura promoviam um “workshop” de tricot, sentadas em posição de lótus, mesmo ao lado, na parte central do convés.
“My hermana, se estava voltado para o céu era porque não estava voltado para o tricot, verdad?!” A nuestra hermana, que por acaso já tinha estado no nosso bunker noutra circunstância, estava para a conversa. De onde és, para onde vais, onde estiveste, como, porquê, quando, já estiveste aqui, já estiveste ali, quando tencionas lá ir, planeias algum dia lá voltar, está um tempo do caraças, não está? Por acaso está. Mesmo bom para se estar deitado ao sol a ouvir música. Glória era uma rapariga simpática, trajava “hippie style” e informou com tristeza que este era precisamente o seu último dia de “vacaciones” pela América latina. E, sem margem para dúvidas advertiu que não seria possÃvel não comparecermos a seguir ao jantar naquele mesmo local, para a “happy pisco hour”, que havia de seguir-se de uma série de “hours” de pisco. “LuÃs, bamos tomar una grande borracheira!!!” Bamos sim, Glória. Muito obrigado pelo convite e pela informação, mas de todo o modo não estávamos de forma nenhuma a programar ficar ausentes de tão solene ocasião, na qual ainda por cima o pisco sour seria preparado com gelo puro de glaciar. Não era todos os dias. Mas, seguramente, foi todas as noites. Ficava então para logo, Glória. Para logo, Glória. Glória, hermana, mais logo… “hasta luego”.
Sol de pouco dura. Era quase cinco da tarde, ocasião para ir para o comedor-cinema, que a seguir a comedor-comedor, tinha passado a comedor-sala de bingo. Foi com grande dificuldade que abandonei o convés soalheiro, mas tinha de ser. Havia que escrever e era necessário um sÃtio onde se pudesse ligar um computador com a bateria descarregada. Na cama minúscula não dava jeito nenhum, mas na sala de cinema tinha detectado uma ficha eléctrica, na última fila, mesmo junto ao balcão onde se servia a comida, onde normalmente eram colocados os tabuleiros. Aproveitei, portanto, para escrever no escurinho do cinema, mesmo sem drops de pisco, que tinham vindo a calhar para antecipar o sabor da noite que aà vinha. Quando o filme acabou, era a hora de jantar. E a primeira vaga de esfomeados - entretanto já ninguém respeitava as classes A, B ou C - apressou-se a formar fila indiana mesmo em frente a mim. Ok, eu saio. E nem sequer quero ficar em primeiro. Por enquanto só queria aterrar, com os ouvidos a zumbir da escala 8 do volume.
E, para o jantar, surpresa das surpresas, não eram os restos do almoço. E, melhor ainda, uma coisa que já não comÃamos há mais de dois meses, não que a oportunidade não tivesse surgido: Peixe. No caso, salmão, que soube maravilhosamente, diga-se, antes de mais tarde saber que no Chile existe actualmente um problema gravÃssimo com salmão, que ultimamente tem sido vÃtima de uma taxa de mortalidade inaudita na região, devido ao “Caligus Rogercresseyi”, vulgo piolho do mar, tendo sido constantemente, cientificamente ou não, posta em causa a sua qualidade.
Bom… agora era tarde demais. Mas estava na hora exacta para subir ao convés, para a happy hour que, aliás, já decorria. E não estava fácil chegar ao balcão do bar, onde toda a gente concorria por um momento da atenção da multifuncional Andreia, na companhia do Sinatra de bordo, ambos requisitados para aquela hora especialmente concorrida, que ultrapassou todas as expectativas. As espanholas, que tinham prescindido de jantar - erro crasso -, não estavam a desiludir, pedindo piscos sour em ritmo alucinante. Novos e velhos e intermédios, hippies, clássicos com calções Coronel Tapioca e sapatos de vela, semi-intelectuais com óculos redondos a tombar do nariz e roupas pré-Avante, alemães altÃssimos, a tentar sacudir o bacalhau que parece que acabaram de engolir, noruegueses a sorver pisco e a querer discutir problemáticas interessantÃssimas, os americanos descalços ainda descalços, os franceses que continuavam à procura de franceses, um francês, que ia começar a trabalhar dentro de dias em Concépcion, à procura de monsieur Pazat, que não se conformava com um rapaz austrÃaco, bem-comportadÃssimo e em lua-de-mel, que tinha uma lente enorme, novÃssima em folha, na sua máquina fotográfica nova, a teorizar sobre a lente com a lente na mão quando estava a melhor luz do dia. Não interessava. Em minutos esta cedera lugar à noite e a noite cedera a uma bebedeira geral, conforme estava previsto. A alvorada estava prevista para as seis da manhã, altura em que chegávamos a Puerto Montt. Por volta das quatro, estava ainda tudo na forma possÃvel. As espanholas distribuiam “besos” cada vez mais libidinosos. O americano guitarrista, chamado Ariel, não gostou nada que eu lhe tivesse dito que ele tinha nome de detergente para a roupa. E, passado um pouco aterrou num sofá, sem que ninguém o conseguisse arrastar do sÃtio.
As espanholas, sabe-se lá por que milagre, tinham encontrado erva, que não aromática. De modo que o Sinatra cantou de novo o My Way, de modo que se seguiram temas pop, de modo que toda a gente dançou até que lhe dissessem, as pernas ou o Sinatra, então nas funções de DJ, que tinha acabado o baile. E acabou. Por volta das cinco e meia da manhã. O despertar era às seis.
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que noite!!!! que luz!!!! que dias!!!! que fotos fantásticaaaaaaaaaas !! que texto lindo!!!
………..
Todas as manhãs corro ao vosso site para saber noticias: onde andam, como se sentem, etc. mas, alguns dias se passaram e eu não deixei nenhum comentário. Hoje resolvi premiar-vos com um poema da Gabriela Mistral.
ISLAS AUSTRALES
En donde Chile cansado
por fin de rutas y espacio
quiere morir como todos,
gacela, coyote o ganso,
él empecinado aún
ojea acalenturado
la nidada de las islas
fuera de ley y de hallazgo;
pero se acabó su reino,
su voluntad y su mando,
y se queda en Puerto Montt,
como amante defraudado,
vencido el ojo de polvo,
una vez por fin exhausto.
¿Qué va a hacer el peregrino,
el trotamundos mirando
la danza de las cien islas
que rÃen o están cantando?
Viene una aguda fragancia,
una incitación, de coro báquico de niñas
tiradas a la mar libre,
vÃrgenes pero embriagadas.
Yo no les sigo el canto,
maña, locura ni danza.
Todas ellas son hermanas,
pero por la niebla vaga
unas parecen figuras;
todas están bautizadas
y, como las Gracias, todas
son donosas y alocadas.
PS: o que é feito do Jordi???
Beijos
Peinture trés colorée de la “faune navigante”:ça me rappelle une traversée de 3 jours dans les mêmes conditions que les vôtres, avec les mêmes figures folkloriques, mais sous d’autres latitudes (c’était du Danemark vers l’Islande.)
Bonne continuation
é pessoal isso é que uma noite e tantas, muito bem espero que estivessem em condiçoes de conduzir o falcon 006, , muitos beijinhos para os dois e tambem para o desistente
GLORIA, GLORIA, ALELUIA!!! CANTAN AS NOSSAS ALMAS!!!
No me parece que las niñas vÃrgenes que canta Grabiela Mistral tengan algo que ver con estas españuelas.
PAZAT, te “pazaste” con las fotos, muy buenas, muy buen ambiente.
LPC, texto claro, conciso, hilariante q.b.
Hoy, mi almuerzo (Sandoca de Presunto Alentejano e
Alface Ribatejana e Manteiga Açoriana, acompanhada por um Sumol de Laranja-bebida nacional portuguesa), fué de lo mejor, leyendo vuestras peripécias por los mares australes.
Hay una música, sÃmbolo de una época (en Argentina), llamada “Puerto Montt”
Un Abrazo, muchachos!
Apiko
K noitada hmmmmmmmmm……como sempre kom fts mt giras e mt bem eskrito!!!!!!!!!!!
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»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»boa sorte Jordi!
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*beijinhos para tds em especial para o luÃs pedro!!!!!!!!
O que vale é que o Luis e o Pazat nos proporcionaram um bom trabalho antes do pisco. Parabens e bom resto de viagem. Esperemos que o Falcon esteja à altura… Bjs
Bom caminho juntos. Continuam excelentes.
Olá muchachos.
Obrigada por me terem respondido, para quem cá está também é importante o vosso interesse.
Para não variar muito as fotos estão muito bonitas, especialmente a 2ª tem umas cores espectaculares (bravo Guillaume).
Este dia parece ter sido bem divertido ah LuÃs. Tens a capacidade de nos colocares no mesmo sÃtio onde estás, ver e ouvir o mesmo que tu.
Ganda noitada. Fechados num barco também o melhor a fazer é curtir (apesar da música - um pouco deprimente para uma viagem de barco não?).
Continuação de boa viagem.
Beijinhos para os dois .
Estão quase a chegar a terra firme (ufa! finalmente)
Beijinhos também para o Jordi (companheiro de viagem pelo menos em espÃrito). Sem querer acabei por ter notÃcias dele (cor de rosa) logo pela manhãzinha.
“Muchacha”
“TRÊS DIAS QUE ABALARAM O (NOSSO, PEQUENO/GRANDE) MUNDO!!
Ps: SAUDADE QUE SE VAI CRIANDO…
Desculpem a minha curiosidade, mas o que aconteceu de facto ao outro repórter?….problemas económicos ou outro tipo de imperativo, mais forte do que a razão e a devoção a este fantástico projecto???Deixando–nos a todos “pendurados”, entre aspas porque de facto os 2 “resistentes” superam-se e superam todas as expectativas!!!!