
Dois segundos para fechar a primeira pestana, um para a segunda, meia-hora para um sonho, em slide-show.
Francisco e Leonardo ainda não tinham dormido, razão pela qual se mantinham acordados quando a voz de Andreia, já endurecida de tanto repetir últimos avisos, rogava para que os resistentes desembarcassem imediatamente, antes que fossem tomadas medidas de evacuação do Evangelistas. Está bem Andreia, é só arrumar umas coisas, lavar as dentolas e evacuar à pressa, julgando que éramos os últimos. Em passo de corrida chegámos ao cais de desembarque de Puerto Montt, entrando numa pequena cabana, onde deveríamos recolher a chave do Falcon, que para nossa tranquilidade estava mesmo à porta e, aparentemente, intacto.
Tivémos de esperar uma boa meia-hora para que um funcionário da Navimag, com aspecto de ter dormido tanto como nós, chegasse para as formalidades de entrega da chave, coisa que fez sem sequer pedir comprovativos de que o carro era nosso. Tal como a Navimag, estávamos com pressa, mas assim não podia ser: “Ò senõr ensonado, então e se o coche não fosse nosso? E se nós fossêmos uma dupla assaltante, a dar uma golpada?” A resposta foi deveras desmoralizadora: Quem é que queria ficar com um carro destes?, perguntou, respondendo. Foi demais. Quem? Toda a gente com o mínimo de bom-gosto, que sabe reconhecer um clássico quando com ele se depara, que sabe distinguir um resistente de um modelo de série, um artigo de colecção de uma colecção de artigos, a rara beleza das linhas de automóveis modernos e computodorizados, ovais e indistintos, cheios de artificialidades em chapa leve, pinturas metalizadas e demais futilidades, que outra coisa não faz se não obrigar o infeliz proprietário/locatário a passar metade de uma vida a pagar prestações, caro señor.

O señor provavelmente não entendeu metade do que lhe disse em português, mas a metade que entendeu fez com que apresentasse as devidas desculpas. Passa para cá a chave, comprova lá os documentos, assina lá a ordem de entrega e toca a encerrar a conversa. No auge do pisco, tínhamos prometido levar as espanholas ao aeroporto, mas não foi possível com a discussão imprevista. Ainda bem, pois estávamos com pressa de seguir viagem, não tendo sequer tempo para conhecer devidamente Puerto Montt, uma cidade cinzenta, já nos tinham prevenido, embora histórica, fundada em 1853, assim chamada em honra do então presidente chileno Manuel Montt.
Finalmente, a bordo do Falcon. Testada a instrumentação de bordo - a santinha, o retrovisor lateral direito e único e a chave de ignição -, tudo a postos, então, para a partida. E, como já alguém tinha andado com ele para fazer o curto caminho entre o porão do cargueiro e o sítio onde nos encontrávamos, a coisa de trezentos metros, pegou à primeira, não desiludindo, como certo funcionário. “Lindo coche!” Eles ofenderam-te, aquele tipo ali, injustiçando as tuas qualidades técnicas, a tua beleza de linhas, a tua estética dura e irrepreensível, pelo que decidimos vingar-te, “manejando” o carro de forma a que o escape ficasse virado para dentro da cabana do prevaricador que, vimos pelo retrovisor, saiu de lá a tossir. Toma lá, excelentíssimo señor: “Eat my dust!”

Mais tranquilos com esta pequena vingança fumarenta, cruzámos-nos com as espanholas, carregadas de malas até ao pescoço, esperando que não se lembrassem da promessa: “Adiós Luis”. Adiós e buena viaje, coisa que duvidamos que venham a ter os passageiros do vosso avião. Na verdade, não estávamos de muito bom-humor. A ofensa ao 006 tinha-nos custado a engolir, que era exactamente os sintomas que esperávamos que tivesse neste momento o funcionário Navimag. Normalmente, temos boa têmpera. Mas nesta manhã não era o caso. Bom… o simples facto de estarmos de partida, já ajudava. Mas um bom café e um bom pequeno-almoço, coisa que não tomava há três dias, vinha a calhar. Estacionámos com dificuldade junto à baixa de Puerto Montt, que não se distingue em nada das suas cercanias, onde ficavam os estaleiros da Navimag.
No Chile não há EMEL, o que é um grande alívio, mas há um verdadeiro batalhão de funcionário, munidos de walkie-talkie, que são ultra-eficazes na cobrança das tarifas de estacionamento. Espero sinceramente não estar ideias à EMEL, o que seria contraproducente, mas a verdade é que os ditos, assim que vêem alguém estacionar apresentam logo o ticket e depois não descolam até que hora em quem se sai de novo com o carro. Digo isto porque, depois do pequeno-almoço, estivémos à espera que a nossa funcionária “particular”, como uma waitress norte-americana, se distraisse, para que nós saíssemos, digamos, de uma forma menos dispendiosa. Chapéu. Sendo assim, pagamos e sorrimos, coisa que neste momento já era possível. O sol tinha descoberto e o café não era de todo mau.

Assim que pegámos de novo no carro, manobrando o volante, que na cidade é sempre um excelente exercício de bícepes, um barulho, metálico, baixo, de qualquer coisa que se tinha partido, lá para as traseiras, à esquerda. Voltámos a estacionar, a funcionária voltar a passar um ticket e o mau-humor regressou em todo o seu esplendor. Retirámos o suficiente da mala do carro para de lá conseguir tirar o macaco, que também é “gato” no Chile, fomos à procura de uma pedra sólida para colocar por baixo do respectivo macaco, que por si só não tem potência hidráulica para levantar o carro à altura de mudar um pneu e lá fizémos umas inspecção preliminar. Não foi preciso muito tempo para concluir que tínhamos acabado de partir o braço esquerdo da suspensão. A quente, retirámos tudo o que tínhamos dito acerca das qualidade do raio do Falcon, que agora se nos apresentava como um monstro da Detroit, construído apenas para nos atormentar.
Na verdade, não nos fazia falta um mecânico, mas sim um ferreiro, um “herrero” que pudesse mudar a ferradura danificada da nossa besta alimária, com o motor carregado de “aceite”, o radiador cheio de água, mas incapaz de se fazer à estrada. Felizmente, a passa-tickets tinha a solução ao virar da esquina. Nem acreditámos, havia ali um “herrero”. E também não acreditámos quando este, depois de uma delicadíssima operação para conseguir enfiar o Falcon de marcha-atrás numa garagem onde não cabia mais que o Falcon, em cima de umas barras gigantes de ferro, nos disse que o arranjo estaria “listo” dentro de um par de horas. Era uma questão de forjar a coisa e soldá-la no sítio certo. “Bueno”. Não estava mal.

Deambulámos, pois, por Puerto Montt a fazer horas, ansiosos, pois ainda tínhamos cerca de 300 quilómetros para fazer em região vulcânica de Villarrica, que é uma estância de veraneio de luxo, mas onde existem “no mas” que quatro vulcões activos, o que resulta sempre numa paisagem deslumbrante, quando não resulta em tragédia, coisa que o chilenos estão habituados. Não sei que milagre operou o ferreiro, mas a verdade é que o Falcon saiu de Puerto Montt com a suspensão a funcionar. As luzes, verificámos na auto-estrada, Ruta 3, ao cair da noite é que continuavam na mesma. Não funcionavam e funcionavam e não funcionavam e funcionavam. Só conseguiam estar ligadas de forma constante, caso constantemente se empurrasse uma manete do lado esquerdo do volante, oposto à manete das mudanças. E foi assim que conseguimos chegar ao parque de campismo El Eden, bem estávamos a precisar de um, em Villarrica, mesmo em frente a uma praia, mesmo em frente a um vulcão. Era duas da manhã. Meia-hora depois, estávamos instalados. Nem foi preciso dizer boa-noite. Sabíamos que pior que o dia não podia ser.

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BOM DIA!!!
Ofensas ao FALCON!????Inadmissíiiivel!!
Estivesse eu aí…
ofender o falcon é que nunca , beijinhos e muito boa viagem
olá pessoal ja estava a ficar preocupada, pois não via nada escrito., muito bem assim é que se fala ofender o falcon, nunca beijinhos para os tres
Altamente acordar mal disposto, é sinal de que a noite foi grande e boa.. hehe.. Força ai “party animals”…
Unemos forças!!Defendamos o nosso MENINO, o nosso ORGULHO!!!
Os três amigos
que fazem história
um deu de frosques
mas está na memória
PS: lamento dizer, mas depois desta MARAVILHA vocês não vão poder fugir, a malta vai de ter de se encontrar e apanhar uma ganda bezana para festejar!!!Vão-se preparando!!!Sorry… “BIG MOUTH STIKES AGAIN”!!
FALTA O K…
NÃO, FALTA O R…ESTES SÁBADOS SÃO FATAIS…
Y VIVA CHILE!
cm
VIIIIIVAAAAA!!
Ps: “…FIFTEEN MINUTES WITH YOU..I WOULDN´T SAY NO…I DREAMT ABOUT YOU LAST NIGHT AND I FEEL OUT OF BED TWICE …..YOU CAN PIN AND MOUNT ME LIKE A BUTTERFLY…MEET ME AT THE FOUNTAIN …SHOVE ME ON THE PATIO…TAKE ME OUT TONIGHT, WHERE THERE`S MUSIC AND THERE`S PEOPLE WHO ARE YOUNG AND ALIVE…I WHANT TO SEE LIGHTS, OH PLEASE DON`T DROP ME HOME, BECAUSE IT`S NOT MY HOME…OH TAKE ME ANYWHERE…”
Olá muchachos.
Aqui deste lado aguardavamos notícias vossas. Para que todos possamos continuar a viajem junto convosco.
É intolerável as críticas que fizeram ao “pobrecito” Falcon. Um exemplo de persistência e de força. Só quem não o conhece pode dizer semelhantes calúnias.
Têm que ter paciência e ser tolerantes, não podem estar à espera que toda a gente seja tão visionária como vós.
Há muita gente que não consegue ver para além do aspecto exterior e julgar a verdadeira alma das coisas.
Descansem muito e boa viagem.
Bjs
Pepe, estás em grande!!!!!!!!!
Há muito tempo que nada me fazia estar tão “vidrado” com o desenrolar. Bem hajam!
… que é feito do Gorro??????
Hola, compañeros (2)!
Ustedes están en un sitio bárbaro!!! Enfrente de uno de los volcanes más lindos de Chile!
Sabían que yá no están en la Patagonia? Porque de los Andes para el Pacífico la región se llama Araucania. (De los Andes para el Atlántico es que se llama Patagónia).
Pero por Araucania, nadie la conoce (a no ser los chilenos….desculpen hermanos)
Cómo están a la altura del paralelo 39º. del lado
del Atlántico es en la puntita de la provincia de Buenos Aires. Al médio del país, digamos así!!!
Pero la zona del volcán es lindísima…. Habrá muchos sacos de plástico por allí, no?
El Falcon se vá portando bien, a pesar de todo y de ir perdiendo tuercas por ahí….
Fuerza…….Próxima estación: Concepción?
Apiko