Dia 61
Diário de viagem

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Poucas mas boas, as horas de sono. Fomos acordados pelo silêncio, o que não tem preço. Na madrugada passada, quando chegámos ao Eden, pouco se via. De manhã, via-se porquê: Escolhemos o único sítio para colocar a tenda que tinha a lâmpada fundida. Mais espigão, menos espigão, a arquitectura da tenda estava em pleno e, como não é propriamente uma “carpa” feita para o calor, calor era o que tinha acumulado sob efeito de estufa. Foi como tivéssemos saltado de um forno. Do calor que tínhamos para o calor que estava na IX Região do Chile, de novo no fôlego do Verão. O Chile é de metamorfoses. Villarrica é um pedaço de paraíso, como se tivesse sido inventado para a classe média-alta chilena, ali a passear os seus veículos todo-o-terreno acima das suas posses, sentados na esplanada como se tivessem saído de um casório ou, nos antípodas, calções de banho de surfistas profissionais, restaurantes a armar ao luxo, tudo organizadíssimo, as ruas limpíssimas, as lojas ostentando o melhor que o peso chileno pode comprar, todos circulando como se fossem figurantes no começo ídilico de um filme de série B, que ainda aguardava pela chegada dos vilões. Nem a música faltava ao cenário, pois nas ruas estavam espalhadas colunas, debitando melodias harmoniosas de paz e de convívio.
Foi esta população de passagem, em férias, que viu aproximar-se uma estranha nuvem de fumo, acompanhada de um trovejar cadenciado e algo assustador, pelo menos a avaliar pelas caras de admiração e de algum desconforto que demonstravam os pedestres, detendo-se, segurando as suas crianças, protegendo as suas carteiras recheadas de cartões gold e molhos de notas para alimentar o comércio local.

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Calminha, rapaziada, não olhem como se estivessem à espera de ouvir “mãos ao alto”, não se deixem enganar pela chapa de matrícula traseira sem matrícula, não se deixem iludir pelo pó acumulado, pelos pneus salpicados de mijoca de canídeo, não se deixem impressionar por um monte de tachos amachucados, enfiados dentro de outro pneu, este ocupando um lugar traseiro, não se deixem arrepiar pela visão tenebrosa de jornais com dois meses, antes ensopados em “aceite”, agora ressequidos, servindo de embrulho para uma colecção de garrafas de água à espera de reciclagem, não se deixem dominar pelo pó espesso no interior, pela desordem de fios eléctricos, nem pelo aspecto ameaçador de um “bandoleiro” francês com barba de vários dias, a abrir a boca de sono e a olhar para os sítios com ares de quem planeava um assalto. Estávamos só à procura de um café que tivesse escrito Wi Fi, meus amigos veraneantes. E não, não somos argentinos. Parece que o complexo “brasileños”, no Chile, estava completamente debelado. Agora, para todos os efeitos, éramos argentinos com um carro mais velho que muitos dos estupefactos clientes, sentadinhos nas esplanadas a deixar correr o tempo, pedindo cappuccinos, servidos em copos de design, cruzando as pernas, sobrepondo os seus sapatos de vela, não escondendo olhares de escândalo para a viatura mais bonita da cidade, com um eixo traseiro de suspensão novo em folha, pelo menos foi o que disse certo ferreiro de Puerto Montt.

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Também nós não nos podíamos deixar enganar pelas pessoas, numa primeira análise especialmente irritantes, especialmente irritadas por esta pequena perturbação neste intervalo estival das suas vidas rotineiras. Havia que deixar as primeiras impressões dar lugar às outras enquanto se bebia um café, quase, quase bica, e permitir que a cidade se deixasse descobrir muito para lá de quem estava a povoá-la no preciso momento. Era preciso ver esta cidade, como se ela tivesse aterrado num jardim, abundante de vegetação, rodeada de montanhas e vulcões. Esta região do Chile tem exactamente quatro vulcões activos, coisa que aos chilenos não parece causar grande preocupação, pelo menos se comparada com um Falcon em modo cruising pela cidade.
Junto ao camping, para onde voltámos com vontade zero de abandonar o sítio onde acabaramos de chegar, havia uma praia lindíssima, com vista para um desses vulcões, o Villarrica, sobranceiro, as espreitar os chilenos a esticar as suas toalhas, a preparar os seus piqueniques, a ver a suas crianças perseguir bolas de futebol, jovens casais entrando na água de mão dada, fluindo intimidades, todos confortavelmente debaixo do sol. E nós prontos para desmontar a tenda, voltar a arrumar tudo na mala do carro, tomar um duche, pagar o camping, baratíssimo, para variar de quase tudo em território chileno, e voltar para a estrada quando tudo nos dizia para estacionar por ali uns dias. Foi, portanto, sofrível fazer uns quantos quilómetros de regresso para a Ruta 5, para retomar a direcção norte, rumo à cidade de Linares, capital da VII Região, oito mil 249 habitantes, de acordo com o último censo, mais coisa, menos coisa, a 154 metros de altitude, o que não impressiona um alpinista anão, fundada em 1794 por Ambrosio O´Higgins, irlandês, então governador do Chile.

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Villarrica e Linares estão separados por 460 quilómetros, onde se acomoda a VIII Região, o que não é bom para quem faz a viagem de bicicleta ou, hábito nacional chileno, em vias de extinção em quase todos os pontos do planeta, à boleia com a mochila às costas. Ou, como se diz no Chile, ” dedo eticado”. E que viagem, esta. Vistos de satélite - provavelmente, os Carabineros chilenos têm as imagens - seríamos um mero ponto fumarente irrompendo por um caudal de alcatrão, côr de alcatrão, rodeado de vegetação densíssima, em estado bruto, selvagem, imenso, lindo. Tinha de novo metamorfoseado o Chile, parecendo que cruzávamos agora um outro país, outro clima, outro ecossistema, outra estação, outras pessoas, gerindo a mesma moeda, cobrando o mesmo que se cobrava no seu extremo sul, cidade turistica de Punta Arenas, que agora parecia tão remota, quase tanto como a viagem de barco entre Puerto Natales e Puerto Montt, lentamente a ganhar na nossa consciência a sua verdadeira beleza e a sua real dimensão, durante esse inverno passageiro que nos atravessou.

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Linares esperava por nós, mas nós não tínhamos a mínima intenção de lá ficar. O navegador franciú tinha encontrado no mapa um camping “paradisiaque”, só tínhamos que nos desviar um pouco da Ruta 5 para o encontrar, nas margens do lago Colbun. Não é que Linares não tivesse os seus encantos, verificámos de passagem. Era só que precisávamos de um sítio, por estranho, que desse para trabalhar e descansar, sendo que a ordem dos factores era arbitrária. E foi a seguir a Linares que entrámos num Chile rural, onde há carroças na estrada, cavaleiros cruzando campos sem fim e, feitos uns quinze quilómetros, o desvio para o lago Colbun, o segundo maior lago artificial do Chile, bem escondido entre as montanhas, para onde seguimos por uma estrada de pedras. Mais dez quilómetros, estes parecendo intermináveis, de curvas e contra-respectivas, sem vivalma. Chegámos ao camping cerca de uma hora depois, a um lugar de ninguém, que tinha uma igreja a cair aos bocados, um kiosko sem ninguém a atender, uma velha senhora a dormir num alpendre, que nem com o rugido do Falcon acordou e meia-dúzia de galinhas, meio tontas, no meio do pó, mal sabendo que alguém as olhava imaginando-as na grelha. Depois de umas buzinadelas, alguém saiu das profundezas do camping, com ar de grande admiração por ver alguém. O camping só não estava vazio, porque havia uma família resistente. Em suma: Tínhamos um camoing só para nós, o bar só para nós, o lago só para nós, já que a dita família não dava sinais de abandonar o perímetro longínquo da sua tenda. A nossa, estrategicamente, ficou à distância. Caiu a noite. Nenhum de nós conseguia mexer-se para decobrir qualquer coisa remotamente parecida com um jantar. Languidamente, deixámo-nos vencer pelo sono.

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Comentários

8 respostas to “Dia 61”

  1. Apiko on March 9th, 2008 11:34 pm

    Bueno, bueno, veo que yá se las están “picando para Santiago”, el tiempo comienza a urgir, no?

    Pásenló bien muchachos, descansen.

    Debemos tener unas 4 a 6 horas de diferencia entre nosotros, nó?

    El Chile es más “ordenado” que la Argentina. El ejército en el tiempo de Pinochet, marchaba a “paso de ganso” y el casco (capacete) era modelo nazi-alemán.

    Después de Santiago, siguen para el Perú o para Bolivia?

    No se pierdan los lagos de sal y el Titicaca

    Abrazo grande

    Apiko

    Apiko

  2. Myra Gore on March 10th, 2008 12:05 am

    Mais uma jornada em cheio!! ;)

  3. Gil on March 10th, 2008 12:24 am

    Paraisos desses que dou por mim a sonhar, talvez tlvez. Mas gozem ao máximo os paraisos que dizer que estou com dor de cotovelo não vale a pena que qualquer um deve estar.
    Abraço!

  4. Carla Neto on March 10th, 2008 1:37 am

    Sim, a primeira foto é da uma pessoa se morder tooooda!!!

  5. cyberannie on March 10th, 2008 12:26 pm

    L’art de dénicher des campings hors des sentiers battus…c’est cela le vrai camping!!! n’estce pas Guillaume?
    Le Chili me fait penser à une ile: isolé du reste du monde par la cordillère d’un côté et l’océan de l’autre…J’imagine que la flore et la faune doivent être trés variées d’une région à l’autre et trés riches.Un pays magnifique!!!
    Je vous envie !!!!
    bonne continuation

  6. sofia on March 10th, 2008 1:49 pm

    fantastico é a palavra certa , muito boa viagem e muitos beijinhos mas mais beijinhos para o lpc

  7. margarida sousa on March 10th, 2008 1:52 pm

    entao pessoal andam a assustar os chilenos com o falcon 006, espero que nao , que seja apenas a vossa impressao. este dia de viagem deve ter sido fantastico, beijinhos e muita inveja por nao conhecer tal paraiso.

  8. Myra Gore on March 11th, 2008 10:13 pm

    Alô, tudo bem?

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