Dia 62
Diário de viagem

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Foi como acordar num enorme pedaço de paraíso, tão intenso como se não fosse, emerso num pequeno retiro dos cerca de seis mil hectares que rodeia o lago Colbun, outrora o maior lago artificial de todo o Chile, construído entre 1980 e 1985 para fixar as águas do rio Maule, que desde então se dividem em três camadas funcionais: Uma primeira, no nível inferior. Onde as águas são utilizadas apenas como reserva para dias de emergência ou de seca, o que não é invulgar. Um nível intermédio, cujas águas servem para a rega das múltiplas unidades agrícolas da província. Ainda um terceiro nível, que se destina exclusivamente a combater o déficite congénito de energia, um problema que atinge o Chile, de Punta Arenas a Arica, extremo sul a extremo norte.

Próximo do parque de campismo onde nos encontramos, pelo menos ontem à chegada, todos os problemas pareciam pequenos, tão pequenos que nem reparámos que nas imediações, na imensa vegetação, está à paisana a Central Hidroeléctrica de Pehuenche, que é só a central de maior potência do Chile. É verdade que nada disso nos tinha perturbado o sono, embalados pelo cansaço e pelo conjunto de pequenas tranquilidades que se juntaram neste lugar.

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Não fazia ideia que horas seriam, mas era já dia pleno. Que interessavam as horas perante a leve brisa que acariciava o exterior da tenda, como convidando a espreitar o dia que nos aguardava lá fora? Monsieur Pazat, que foi o primeiro a arriscar espreitar para fora da “carpa”, voltou para trás com um ar de espanto, que nele é muito incomum, pois mesmo que esteja espantado, normalmente finge que não está. Mas, desta vez, estava. E, por si só, isso era indicador que para ele era para lá do espanto, mas uma espécie de deslumbre, coisa ainda mais incomum no nosso franciú. “Luís, não vais acrrreditarrr…” Em quoi, prezado fanchotti? “Está lá forra uma mulherrr linda, toda vestida de brrrranco”. Toda vestida? Deixa-me dormir, pá! Pá, Zat, claro. “Ó Luís, não estou a mentirrr”.

Mil e uma hipóteses varriam a minha imaginação, ainda adormecida. Mas só uma, a última, infinitésima, tomava fomato aceitável: Monsieur Pazat tinha guardado subversivamente uma garrafa de Pisco. Ou, pior, andava a beber logo de manhã. Ou, então, pior ainda, pecador do caraças, durante a noite. Bom… Só para satisfazer não sei bem o quê, levantei-me contrariado e estiquei-me q.b. para ver o que se passava lá fora. “Estás a verrr?” Não sei bem se estava. Estava? Eis-me perante uma visão, tipo Lady of the lake, sem bijuteria, efectivamente toda em vestido nenúfar, como uma inglesa a passear-se em Liverpool depois de ingeridas uma litradas de Guiness, livre como uma andorinha sem rota traçada. Tinha os cabelos compridos esta ninfa, ligeiramente alourados, algo de bondoso tinha, algo de selvagem, tendo na mão uma flor, que me entregou, dizendo: “Desayuno, señor”.

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Bueno, também não me lembrava de ter comigo Pisco, escondido de mim próprio. Mas lembrava-me distintamente do dono do camping me ter dito que não havia nada, mesmo nada para comer. Nem sequer um pacotinho de papas fritas, quanto mais qualquer coisa compatível com um “desayuno”.

A misteriosa mulher nada disse. Caminhou como se flutuasse, detendo-se metros à frente, voltando-se graciosamente, sorrindo, prosseguindo, como se tivesse a certeza que já era seguida por dois campistas, ainda estupefactos, ainda indecisos se estavam a dormir ou acordados, serpenteando no arvoredo, copiando a sua marcha subtil para a pequena casa de madeira, com as portas em vitrais verdes entreabertas, descobrindo o lago por trás, aguardando por nós, tal como por nós aguardava um manjar, nem de longe depauperado por todos os que já estavam. Famílias sorriam, ainda um pouco distantes, reflectindo fios brilhantes de sol, absorvendo mil cores, mil tons, tantos quanto emanavam das frutas em cima de uma mesa comprida, como uma estrada que se atravessava na imensa vista horizontal.

O dono do camping aproximou-se da mulher de branco, beijou-a na face e sorriu-nos, chamando-nos à sua presença, convidando-nos a integrar este cenário. Crianças corriam, saltavam, atiravam-se ruidosamente às águas limpidas do lago, antecedendo na paisagem as montanhas enormes, longínquas, polvilhadas de neve sobre o verde. No lago, quase a transbordar, pequenos barcos de remos amparavam casais impossíveis de separar, absortos, como unidades. E, à volta do manjar “desayunal”, o desfile era informal, pausado e livre. O camping, verificámos, estava afinal cheio de gente, que de todas as partes tinha chegado, tropeçando uns nos outros, trocando breves apresentações com sorrisos de fábrica. Mas, apesar de estar a abarrotar o sítio, ninguém parecia especialmente incomodado com isso. Havia lugar para todos, sobretudo para o autocarro de turismo que acabara de chegar, com um grupo de suecos e suecas, evidentemente, que mesmo antes de montar as tendas se tinham despido e atirado para o lago, onde nós já estavámos a banhos, a boiar com vista para as montanhas. Mais tarde estava preparado um churrasco medieval, com tinto chileno à descrição, Pisco sour a metro, ainda o concurso miss “t-shirt molhada pelas águas do lago”, a eleição do mister camping, que isto era uma coisa democrática, e ainda se aguardava pelos Led Zeppelin lá para a noitinha, para fazer a primeira parte da Mercedes Sosa, que não quis deixar de vincar um gesto de boa-vontade em todos quantos preconizam rivalidade entre argentinos e chilenos ou vice-versa.

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Não era um camping, era uma comunidade multinacional a experimentar várias formas de harmonia. A mulher de branco voltou à minha presença, oferecendo o mesmo sorriso irresistível.
Era a filha do dono do parque, o mesmo homem que ontem não tinha transmitido grande imagem do seu próprio camping, lamentando-se que a Central Hidroeléctrica, por causa da grave crise energética que o Chile vive este ano, lhe tinham deixado o negócio em maus lençóis. O seu parque de campismo, contou, nos meses mais altos de afluência - janeiro e fevereiro -, costumava ser o mais concorrido da região, enchendo-se de vereneantes, de Santiago, das cidades circundantes, de todo o Chile, até turistas conseguiam descobrir o seu recanto de natureza que, não fosse tudo que acabara de citar, estaria incólume. Por muito que interessasse, nada disso era importante no preciso momento. O parque estava repleto de gente feliz, até irritantemente feliz, e a mulher de branco deu-me a mão, para que caminhássemos por todos eles em estado de invisibilidade, nada nos perturbando nesse percurso, como se estivesse a passear de mão dada com a própria natureza. E mergulhámos no lago. E nadámos. E brincámos. E torneámos os nossos corpos. E entrelaçámo-nos. E… no preciso momento, acordei cheio de fome e com uma leve dor de cabeça, bastante irritado com umas bicadas junto à cabeça. Umas quantas galinháceas destemidas julgaram que a tenda era para picar. Afinal, o parque estava vazio, a Lady of the Lake, estava lá ao fundo, ao pé da família, pesava uns 90 quilitos, usava bijuteria, gostava de ouvir cumbia e tinha um toque de telemóvel com a música do super-homem.

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Na hosteria, onde supostamente estava o “desayuno”, nem uma alminha, para um café, para uma “tostada”, para um pacotinho de papas fritas, por misericórdia. Apareceu o dono, tão desolado como estava ontem, rogando pragas à central hidroeléctrica, que por causa da crise energética, pura e simplesmente fechou as comportas, deixando o lago, lá ao fundo, lá no fundo, nas profundezas da seca, onde pastavam meia-dúzia de vacas. Comida, só no pueblo, onde seria uma sorte encontrar alguém disposto a sair de casa. Havia um kiosko, que estava aberto, mas sem ninguém que aparecesse para atender. Lá apareceu um miúdo com uma bicicleta, que foi à casa ao lado chamar a mulher, que foi chamar o marido que estava a dormir, que era o dono do kiosko e que esfregava os olhos com uma mão, enquanto na outra já segurava a sua máquina de calcular. Ora bem, amigo, pode ser quatro Luke Strike corrientes, que no Chile não se encontra Marlboro, leite, bolachas, pão, manteiga, e um pollo, s.f.f., aliás, p.f.. Bueno, havia tudo quanto pedíamos, com um pequeno detalhe em relação ao pollo: Estava congelado e não havia mais nada para jantar e este era o único kiosko das redondezas. Então? Vai ou não vai? Bom, vamos lá levar o franganito, que há-de de ter tempo de descongelar naturalmente durante a tarde. E foi assim que, já à noite, inventámos uma nova receita, que sinceramente não recomendamos para o Guia Michellin: Pollo congelado na grelha. Que pitéu. Coisa para ter desejos de tellepizza. Ou coisa plástica que o valha.

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Comentários

10 respostas to “Dia 62”

  1. Gil on March 11th, 2008 6:29 pm

    Va la, o lucky até é melhor.. hehe.. Agora o sonho muito bom muito bom, demasiado perfeito para chegar a ter acreditado um pouco que seja. Já quanto ao sitio, pelas fotos parece-se bastante com o sonho por isso nem tudo está perdido.
    Vá, metam-se lá no pisco que é quando os sonhos saem mais fluentemente… Saudações!

  2. cyberannie on March 11th, 2008 9:39 pm

    Un joli coin de paradis qui inscite à la rêverie…..à moins que ce ne soit l’effet du pisco
    Bonne route pour la suite
    Bisous à vous deux

  3. Myra Gore on March 12th, 2008 12:01 am

    Ah,finalmente um belo dia 62!! ;)

  4. Apiko on March 12th, 2008 11:18 am

    Ooooohhh, ooohhhh, meus amigos!?!

    O qué é que vós andáis a tomar!?! ssssssssssshhhhssssss! ssssssssssshhhhhssssss

    Não havia nessesssidade!!!

    Ahijuna! Diviertán-se muchachos!! Claro que hay necesidad, sólo se vive una vez!

    QUE TAL UN “SANGUICHE” DE PRESUNTO ALENTEJANO!!!!

    Apiko

  5. JC on March 12th, 2008 11:19 am

    Bom dia, tarde ou noite para vocês.
    Continuamos sempre á espreita dos vossos comentários que mt apreciamos.
    Não podem prolongar por + 3 ou 4 mêses a vossa odisseia?
    É k depois do v/regresso não saberemos onde encontrar algo com tanto interesse.
    Pensem nisto.
    Um abraço e saúde.

  6. Myra Gore on March 12th, 2008 12:00 pm

    É VERDADE, VAI FICAR UM VAZIO TERRÍVEL… :(

  7. joana on March 12th, 2008 1:58 pm

    Que maravilha de descrição… De tal forma que eu também embalei no sonho e, francamente, acreditei. Pensei que, finalmente, tinham encontrado o paraíso. Embora nem sempre faça comentários, tenho acompanhado as vossas aventuras todos os dias. Muitos parabéns pelo vosso trabalho e bom resto de viagem. Abraços
    Joana

  8. margarida sousa on March 12th, 2008 1:58 pm

    é pessoal ao principio pensei que o sonho do lpc, fosse realidade, no fim deu-me uma imensa vontade de rir,dizer que vou ficar com saudades do vosso blog é muito pouco, beijinhos e obrigada por estes dias fantastico que voces tambem sabem transcrever.

  9. sofia on March 12th, 2008 2:00 pm

    maravihoso sonho ate eu fiquei a sonhar , deve ser um sitio fantastico, beijinhos especialmete para o lpc.

  10. Patrícia on March 12th, 2008 3:56 pm

    Olá muchachos

    Que belo sonho! Ó Luís acho que o cansaço da viagem anda a interferir no teu subconsciente. Mas pelo menos uma parte do sonho ainda se mantém, esse sítio lindo onde vocês estão.

    Nós continuamos sempre aqui, ansiosamente à espera de notícias vossas.

    Bjs.

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