A janela do quarto estava aberta. Santiago entrava por ela, em luz, em ruído, no ar pesado e quente, nas múltiplas formas de nos acordar, como se não bastassem os decibéis do beliche de cima do meu, onde actuava um solista francês, à desgarrada com o “loverboy” alemão, que tem um estilo “sui generis”, oferecendo-nos largos momentos de doce silêncio, para irromper como um trovão apneico de grande intensidade técnica, desaparecendo em segundos com um estranho bater de boca e ranger de dentes. O ruído exterior conseguia ser pior. Pelo que decidi levantar-me para fechar a janela. O Che Lagarto tem vinte e tal quartos, cada um para seis pessoas. Nós estamos no primeiro andar. O meu beliche está em frente à porta, teimosamente aberta, Pazat arriba, em frente o alemão, por baixo a sueca, em frente, por baixo, a namorada alemã do ressonador alemão, por cima o neozelandês tranquilo. Aquela abertura de janela tinha sido deliberada pois tinha um livro de Isabel Allende entre uma portada e outra, impedindo que ela se fechasse, escancarando o sol directamente para a minha cara.
Até posso concordar com esta utiização abusiva do livro, já quanto às supostas cinergias entre luz e sono, não contem comigo. A rapariga sueca, claramente a autora da ideia, semi-acordada, fingiu-se algo ofendida quando fechei a janela e afastei o livro gentilmente com um remate de trivela, em sua direcção. Semi-destapada, pôs-se repentinamente em posição de bruços, não reparando que tinha metade do rabo de fora. Eu juro que só reparei porque a metade que estava tapada com uns calções cinzentos, tinha escrito em amarelo: “Love”. Só mais tarde, a caminho do balneário é que notei que a outra metade tinha um coração vermelho com umas estrelinhas em dourado. O episódio Allende não foi de forma nenhuma relevante na nossa relação, até porque o remate não teve força bastante para soltar a marcação da página. Reencontrámo-nos ao pequeno almoço, que no Che Lagarto é até às 11h00, em baixo, numa sala com mesas e cadeiras de madeira grossa. Na cozinha, mesmo ao lado, estão os pratos servidos com pão, fiambre e queijo, há café e leite e sumo. E quem quiser pode cozinhar a sua refeição, coisa que se aplica evidentemente ao jantar. Num intercâmbio de manteiga fizémos as pazes, sob um saudável espírito de empatia, não demasiado, que ainda era de manhã. Lá fora, Santiago esperava por nós, ruidosa. A capital do Chile, é como um esfregão no fundo de um balde chamado Andes. A cordilheira abraça a cidade e deixa-a sitiada de si própria. Santiago é a terceira cidade mais poluída da América Latina e a quinta mais poluída do mundo. Esse abraço gigante e compressor é grande parte do seu problema quase irreversível de contaminação atmosférica. Basta ver o ar. Isso mesmo. Basta ver. Flutua uma espécie de neblina - smog -, que transforma o calor num fumo baço e pesado. No inverno, devido à inversão térmica e à forte redução da circulação das massas de ar, evidentemente a coisa piora. E a cidade, torna-se então irrespirável. Basta adicionar o frio a estes factores e encontra-se a fórmula química - o termo é adequadíssimo -, que explica como o sistema de saúde de Santiago todos dos invernos fica à beira do colapso. Não só isto. A cidade.
No Inverno passado, as autoridades chilenas tiveram mesmo de proibir durante alguns dias a circulação automóvel em Santiago, assim como reduzir algumas fontes de poluição circundantes, na chamada Gran Santiago, que mais não é que a mesma Santiago do que a Santiago em redor do Palácio La Moneda, tristemente centro durante a ditadura de Pinochet.

O seu ar, portanto, embora um lisboeta nem sempre note, não é propriamente recomendável. No entanto, a cidade, estranhamente, ou não, é. Óbvio que aqui se encontram todos os vícios de uma cidade onde fervilham seis milhões de habitantes, mais que óbvio quem nem todos conseguem ser o “novo” Chile que o Chile quer ser, a libertar-se do cadáver do seu opressor-mor, mas ainda acorrentado ao seu fantasma, que mesmo que venha a ser condenado “post-mortem”, deixou gerações indecisas no Chile, as contemporâneas, que ainda experimentam os resquícios de um medo com que aprenderam a viver, e as gerações de hoje, do futuro, sem saber como enfrentá-lo entre o marketing desse Chile moderno e economicamente viabilíssimo e o simples facto de não existir no Chile uma única universidade pública. O problema de Santiago não é necessariamente o problema do Chile. E o problema do Chile, por estranho, neste país que provavelmente tem a maior reserva de água doce do planeta, mais valioso que ouro, que por acaso também está nas montanhas do Chile, é a energia. Como é possível que o Chile não consiga resolver o problema energético quando o seu território é em si uma reserva natural disso mesmo? O Chile não sabe muito bem como responder a isso. Provavelmente porque Santiago está a vender o Chile aos pedaços às multinacionais e aos leões que ao Chile se apresentam disfarçados de cordeiros da ecologia. Contas para outro rosário.
É óbvio que Santiago é uma cidade com pulso, com vida e, perdoe-se a expressão, com energia. Sente-se isso na rua, no metro, uma cópia perfeita do metro de Madrid, como Madrid se encontra a cada esquina desta cidade, que no entanto sabe ser chilena. Não acreditem se lhe disserem que é uma cidade perigosa, pois não o é mais que Madrid ou que Lisboa, ou que as Lisboa e as Madrid do mundo. É uma cidade plena, que funciona, que trás as pessoas para a rua, almoçando de pé nos intervalos do trabalho, que as senta nas esplanadas depois, que as leva para o calor da noite, explodindo às vezes, como explodem as cidades quentes.
E, explodindo a madrugada, talvez não seja má ideia regressar ao Che Lagarto. Mal entrámos, eis Brooke, a mulher mais irritante do planeta, para variar, sem companhia. Estava com tremores frios. Pelo que resolvemos arrancar a manta do sofá para a cobrir, juntando-nos a ela para tentar fazer o que ninguém conseguia, ou queria, em todo o lagartal. Monsieur Pazat e lady Brooke tiveram um enorme choque químico, de insuportabilidade mútua, desejando um ao outro coisas impronunciáveis. Brooke não era assim tão má. Era até um bom desafio. Era enfermeira em Melbourne, onde nasceu. Trabalhava com suicidas que tinham de viver depois de falhar. Ela, contou, também tinha “suicidal tendencies”. E não era capaz de recomendar aos seus “doentes” outra coisa se não que não tomassem os comprimidos recomendados, porque lhes tiravam a força para acabar o que tinham começado. Brooke também não acabou a tarefa. Fugiu de tudo. E viaja pelo mundo há mais de dois anos, sem ser capaz de o conhecer. Na Índia, detestou o cheiro. E, sobretudo, os indianos. No Vietname, onde estive no ano passado, ela não viu beleza. Não podíamos estar mais em desacordo. Em tantas coisas que ela já viu e eu já vi também, embora tenhamos visto coisas diferentes. Não só nisto mas em quase tudo. No entanto, em Brooke agradava-me uma coisa, que era provavelmente o que a tornava detestável. Esta australiana tinha assumido consigo própria o compromisso de dizer sempre o que pensa, das pessoas e dos sítios, por enganada que possa estar. Não podia ter escolhido tarefa mais difícil.
Foi por isso que, quando entrou no recinto a sueca-fatal, a mesma que usa Isabel Allende para não deixar fechar as portas, Brooke explodiu para todos quantos a quiseram ouvir: “Fucking bitch”. Só mais tarde me explicou que a sueca era mais nova e mais bonita e que isso a irritou. E que só pensa em regressar à Austrália. E sabe que assim que lá chegar só vai pensar em de lá sair. Chama-se a isso ida e volta. Porque é impossível regressar verdadeiramente a um sítio onde não se quer estar. Mas Brooke sabe isso melhor que qualquer um de nós.
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La première photo donne une bonne impression de la situation de ville, au fond d’une cuvette.Ce n’est pas étonnant que ce soit une ville qui bat les records de pollution.
Ma curiosité par rapport à la Brooke est satisfaite et je comprends votre “irritabilité” à son égard
bonnes photos et texte toujours aussi captivant
Encore une fois merci pour ces moments quotidiens tant attendus
Bisous à vous deux
Miss Brooke,”pobre” criança grande… à procura da Terra do Nunca…
Ya,se calhar um pouco como todos nós…mas,apesar de tudo, ela teve a força e a coragem de partir…
…sozinha
Mais uma vez, concordo com cyberannie, sin más comentários.
Apiko
Então? É cedo? É tarde? Desce a manhã? Cai a noite? Onde é que anda toda a gente que eu conheço e toda a gente que desconheço? Está aqui? Está aí? Eu cá estou numa cama sem lençóis, a olhar para uma mochila que não se mexe, para gente que dorme. A cidade está lá fora. E eu decidi que vou para lá. Aqui está um pouco monótono. Depois eu conto…
Hasta luego, hermanos y hermanas
Luís
Então? Onde é que está toda a gente que eu conheço e toda a gente que eu desconheço? Estão aqui? Estão aí? Estou deitado numa cama minúscula, sem lençóis, a olhar para as molas do beliche de cima, estou a olhar para a minha mochila que não se move. Estou a ouvir uma cidade a convidar-me a sair. Acho que vou aceitar o convite. Depois digo qualquer coisa.
HASTA LUEGO, HERMANOS E HERMANAS
Luís
Tomorrow comes today!!!
Santiago, palco de memórias sangrentas e dolorosas…que não devem ser esquececidas…
LUIS,ACHO QUE JÁ ESTÁVAMOS NOS BRAÇOS DE MORFEU…BEM, EU ESTAVA…
ALIÁS…AINDA ESTÁVAMOS…AINDA NÃO ME HABITUEI À DIFERENÇA DE HORÁRIO…
Olá muchachos.
Luís nós estávamos todos aqui só que ainda a dormir. No entanto, agora, provavelmente és tu que dormes (e fazes bem que a noite deve ter sido longa).
Pobre Brooke! És sempre difícil crescer e constatar que o mundo não é aquilo que pensamos e/ou sonhamos. A Brooke é daquelas que não conseguiu superar esta questão e não vê nada de bom nem de bonito naquilo que a rodeia. A questão de dizer tudo que pensa mais não é do que uma estratégia de defesa e uma forma de ir vivendo. (pronto chega de análises psicológicas!!!).
Besos muchachos e buen viaje (ou boa estadia em Santiago).
Aprés reflexion , je pense que Miss Brooke est vraiment à plaindre et je me rallie à ce que dit Patricia..Alors il faut un peu d’indulgence pour cette personne!!!!
En France il est 11 heures du matin…je pense que vous devez encore dormir
Bisous et bonne route pour la suite
Merci Apiko..mais c’est vrai que nous avons souvent la même façon de voir les choses!!!
Com quantas Miss Brooke me cruzo todos os dias!!!
À saída da loja com um ramo de flores que ninguem
quer receber…
Myra Gore ,c’est trés beau ce que tu viens d’écrire….
Obrigada Sweet Cyberannie!!!
Estamos de nuevo en zona urbana, felicitaciones
principalmente al 006 que es todo un simbolo de
FORD.
Saludos
Suerte Desde la PETROGONIA los portugueses
nacidos en Comodoro Rivadavia los estamos acompañando.
Cuidado con la australiana.En al 006 hay un lugar libre.
Oscar
ola pessoal , pelos vistos o lpc tem mau acordar, nao admira, pois espero que continue a correr tudo pelo melhor, beijinhos e boa estadia em santiago
Olá!
Antes de partir para a Patagónia um amigo, o Cláudio Garrudo, recomendou-me vivamente que fosse ver o vosso blog. Os vossos relatos foram a minha literatura de viagem nas 3o e algo horas de voo até Buenos Aires.
Há muito que nao vos “visitava”,porque pensava que a vossa viagem termiraria em Usuhaia!
Devo dizer-vos que também eu ouvi, durante 4 dias a voz da Andreia no barco da Navimag “pasajeros, vuestra atencion por favor…”. Agora estou em Puerto Varas e Valparaiso será o meu proximo destino!Talvez nos encontremos por aqui - ouvi dizer que há um sítio com café de verdade!! Boas viagens!
um abraço
Cláudia
Realmente a Brooke merece toda a nossa compreensão. Até porque apesar do sintomatologia depressiva conseguiu viajar pelo mundo (para isso é preciso força e determinação). Parece-me uma boa terapia. E até um bom indício de recuperação. Pode ser que a ajude a perspectivar as coisas de outra forma.
Não sei se isto a pode ajudar, mas pode ser um começo.
Bjs (para todos)