Dia 65
Diário de viagem

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A nossa colega de quatro sueca tinha fez uma entrada atribulada no quarto quase de manhã, embora ainda de noite, tropeçou na minha mochila, que não é propriamente pequena, segurou-se entre o meu beliche e o do Gui, e seguiu caminho amparando-se no vácuo, tropeçando no que havia para tropeçar, tentando por todas as vias não fazer barulho, coisa que não estava a conseguir. Neste sítios, povoados de viajantes, normalmente não acontecem roubos, mas o seguro morreu de velho e o passaporte, juntamente com a carteira dormem comigo, ” a lo mejor”. Quase que a atleta sueca conseguia cortar a meta para o seu bunker sem problemas de maior, sendo que a maior parte dos companheiros de camarata estavam simplesmente a fingir que estavam a dormir. Prova: Quando a sueca escorregou no seu exemplar de Isabel Allende e caiu de costas no chão, ninguém conseguiu parar de rir, nem a própria, que quase acampava no chão, de onde rastejou para a cama, sem conseguir parar de rir. O empregado nocturno do estabelecimento, brasileiro, capaz de satisfazer todos os pedidos - if you know what i mean -, que rapidamente se tornara nosso “amigão”, apareceu sabe-se lá de onde para ver se a nossa amiga sueca estava devidamente na posição horizontal, devidamente despida, para não amachucar a roupa e devidamente tapada com um lençol, que a noite estava quente, mas nem tanto assim.

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A manhã, para variar, estava de estufa. Decidimos-nos, pois, por uma deambulação turistico-pedestre por Santiago, suando por “las calles”. O Che Lagarto é central, a meras quatro quadras do palácio La Moneda, que aceita visitas e casamentos ao fim-de-semana, paradoxo dos paradoxos, só para as noivas deste novo regime liberal chileno, ou lá o que é isso. Santiago é um reflexo convexo deste Chile, moderno e não, contemporâneo a imitar madrileno e madrileno, legado colonial. As avenidas são amplas, o trânsito é intenso, o corrupio de gente nas ruas é imparável, o metro, under e above ground, é como uma lata cheia de sardinhas a destilar suores, esticando-se para recolher algum vento das janelas semi-abertas. O clima, de dia ou de noite, é geralmente afável, - excepção para quando o Colo-Colo perde jogos -, ou alguém perde a cabeça. Mas, como em todas as cidades cidade, invariavelmente impessoal. Respostas objectivas, olhares ao infinito e óculos escuros, para evitar que os olhares se cruzem, como se cruzam os mil desconhecidos, afastando-se para os seus lugares, seguindo o seu curso em passo acelerado e rotineiro. Nada de anormal. Tudo de normal tem esta cidade, que podia ter tudo o que nenhuma outra tem, envolvida numa beleza sem igual, descaracterizada pelo suposto desenvolvimento, palavrão antagónico, que não nos deixa respirar.

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Por falar nisso, para inspirar alguma coisa de não-totalmente poluente, o melhor será investir numa caminhada, decidamente poluente, até ao pulmão da cidade, o parque florestal de Santiago, que por acaso se situa no coração da metrópole, indeciso entre o Mercado Central e a ponte Pio IX. Estranhamente não é local predilecto dos chilenos de Santiago, a não ser das “parejas enamoradas” que trocam beijos e apalpadelas pouco subtis, estendidos na relva ou acoplados em bancos do jardim desse imenso jardim. No calor, os locais mais procurados são os que brotam água, de preferência em jactos gigantes, colocando-se ao sabor da brisa, que durante o verão se faz sentir, libertando ligeiramente do horizonte acima do nariz o omnipresente “smog” atmosférico.
A mais requisitada, fica mesmo em frente do palácio La Moneda, com duas bandeiras do Chile em ponto gigante, altaneiras, e quatro cababineros, vestidos a rigor, mantendo um ar pesado e profissional, mas não disfarçando uma inveja louca para estar junto à fonte, favoráveis à brisa que aos outro atira pequenos jactos de água, como um duche público, onde também à hora de almoço repousam algumas gravatas de função pública, que o novo Chile tanto procura. Há anúncios por toda a parte, nas paredes, na TV, prometendo condições excepcionais para quem enveredar por uma carreira trabalhando pelo país. O país, dizem os representantes do país, não se vai esquecer deles, provavelmente na altura em que forem velhos e “jubilados”. Agora que são novos, o Chile precisa deles, dizem, mais do que eles precisam do Chile. Há qualquer coisa de eufemismo JFK nesta campanha ilusória, pagando para se construa o que o Chile não tem mas podia, pedindo à juventude que assuma o futuro, sendo que o seu futuro são reformas de continuidade, para que os seus filhos e os filhos dos seus filhos venham a ter o mesmo nada que eles hoje têm. A não ser que a riqueza que lhes prometem se traduza em automóveis e casas e empréstimos a taxas de juro excepcionalmente excepcionais, plenasmo de pleonasmo, infinitamente mais pequeno do que a hipérbole que lhes tinham prometido gerações antes, precisamente este agora que lhes escorrega por entre os dedos. O Chile quer funcionários. Os chilenos querem escolher a função que desempenham, querem ser a profissão que escolhem. Por que será que isto em tanta coisa, não tanta, me faz lembrar uma língua entre o mar e Espanha? Não interessa. Se o assunto, por oposição, for refrescante, também é possível fazê-lo no Parque Balmaceda, na fonte do Bicentenário, ex-libris da Comuna de Providência.

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Recuperado o fôlego e a temperatura corporal, mais uma maratona em posição bípede, através de não sei quantas quadras, até ao bairro Bellavista, lindíssimo, antiquíssimo, nobre, ainda liberto dos tentáculos da burguesia emergente, a mesma que escala a enorme montanha, maior que a cordilheira dos Andes entre os pobre inacreditavelmente pobres e os ricos inacreditavelmente ricos. Aqui se encontra a média-alta, esquerda caviar “wannabe”, que não é um animal selvagem australiano, socialmente interressada, socialmente desinteressante, os teatros, os restaurantes “nouvelle” pratos com verduras, as galerias de arte, livrarias, e os artesãos que, com sorte, com conversa, sempre arranjam marijuana, neste bairro arquitectónico de finais do século XVIII.

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Finalmente, San Cristóbal, São Cristóvão para os puristas, outro pulmão, um pouco mais afastado do centro, mas suficientemente central, desde q ue se vá pela Pio IX, passando pelas imensas bancas de venda de material artesanal, kioskos que vendem tudo e mais alguma coisa a preços impraticáveis como se estivessem em saldo, bêbedos no caminho, a curar as respectivas, alemães dissidentes com trajes e gorros típicos - que saudades do nosso gorrito -, que nem os chilenos usam. Em frente, ultrapassando um número incontável de esplanadas, com empregados a tentar atrair-nos para o seu estabelecimento, para este fim da cidade, onde nos aguarda uma vista aérea da mesma, encostados às paredes magnânimes da cordilheira, verde aqui, e que verde.

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Vamos para a fila, para comprar bilhetes para o funicular De La Virgen, inaugurado a 25 de Abril de 1925, que nos há-de transportar ao teleférico San Cristóbal, por sua vez inaugurado no primeiro de Abril de 1980. Turistas e mais turistas aguardam vez para uma vista deslumbrante da cidade de Santiago, muito, muito acima da camada de “smog”, que estranhamente vista de cima não se vê. Dali se tem toda a dimensão de Santiago, geométrica, como se tivesse ressurgido por Sebastião José de Carvalho e Melo, pós-terramoto, uma das ementas da casa, razão pela qual este Chile tão desagregado nas suas regiões, tanto que parece integrar num só vários países, depois da sua ditadura, permanece inacreditavelmente organizado, sempre ante uma catástrofe, como a do ano passado, prestes a tornar-se presente. O Chile tem mil belezas. Santiago tem as suas. Só precisa de ultrapassar o seu passado para que se ultrapasse. Mas isso é uma questão que ao futuro pertence.

No Che Lagarto nada disso parecia interessar. Tinha chegado um agrupamento nordestino de brasileiros, que transportavam maconha. E o Che Lagarto ganhou novas cores. Brooke, de novo na minha mesa, não gostava que estes brasileiros viessem falar comigo, ainda por cima em português. A sueca estava nas sete quintas. Ou seriam oito?

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Comentários

17 respostas to “Dia 65”

  1. Apiko on March 14th, 2008 9:19 pm

    Hola hermanos, como están?

    LPC, várias cosas: El texto está rebién… bueno, muy,muy bueno!
    La famos frase de FJK és universal y se dá bien con todos los gobiernos del planeta…
    a mi también me recuerda “uma jangada de pedra”, a partir de allí por los años 80…

    A los compañeros(as) de viaje: por acaso saben lo
    que quiere decir “brooke”? Es que esa señora con el trabajo que tiene, me admira que todavia tenga fuerzas para recorrer mundo y darse con tanta gente!

    PAZAT, tus fotografias me dan que pensar, tenés algo ahí adentro que comparto contigo. A vezes no son fáciles, pero se relacionan muy bien con los textos de Luis………..qué pasó en la última? Se te cayó la máquina? o es la pantalla de mi computador que se volvió loco?

    Cyberannie, nos encontramos en várias ideas, será porque somos de la misma generación o muy aproximada? O será que compartimos influencias, lecturas y culturas muy próximas?

    Un abrazo a todos y todas. Buen fin de semana!

    Apiko, nauremi naki

  2. tcarlos on March 14th, 2008 9:30 pm

    Essa sueca, … nossa senhora!!!!!!!!! Deve ser “um pedaço de mau caminho”?!?!????
    Tenham cuidado com ela, que ao que parece não perde uma.

    Luis, por acaso tem ido ver o 006, se calhar não o deveriam descurar! coitadinho, tão abandonado!!!

    Bem hajam.

  3. Patrícia on March 14th, 2008 10:34 pm

    Não sei se devia falar novamente nisto, mas lá vai…
    Apiko, o facto de trabalharmos com pessoas emocionalmente “quebradas” não significa que nos tornemos como elas. Digo isto porque eu faço algo semelhante à Brooke e lá por isso ainda consigo ver coisas boas no mundo que me rodeia.

    Se calhar este tipo de trabalho é que não é o indicado para ela. O melhor é continuar a viajar e conhecer pessoas mais alegres, como o Luís e o Gui (não os conheço pessoalmente, mas tenho a certeza que são muito divertidos).

    Bem deixemos para lá a australiana…

    Muchachos tenham é cuidado com a sueca, não vá ela escorregar e cair em cima de alguém, ou então enganar-se na cama…

    Gostei muito do vosso passeio (txt e img).
    Besos. Para os viajantes e também para todos os que os acompanham. Bom fds.

  4. cyberannie on March 14th, 2008 10:54 pm

    Coïncidence: ce soir à la télé française, l’émission Thalassa m’a transportée…..en Patagonie!!!
    J’aime beaucoup l’avant dernière photo:c’est deux ombres qui s’élèvent au-dessus de la ville donnent l’impression d’être suspendues dans les airs…Il y a quelque chose de mystique!!!

    Apiko, je ne pense pas que nous soyions de la même génération, mais nous avons peut- être des ressemblances culturelles car j’ai des origines espagnoles par ma mère.. je suis trés intéressée parl’Histoire de L’Espagne et de l’Amérique du Sud et j’apprécie beaucoup la littérrature sud-américaine.
    Bonne nuit à tous car ici il est Minuit

  5. cyberannie on March 14th, 2008 10:57 pm

    PS: excusez une faute d’orthographe.Il faut lire:Ces deux ombres… et non “c’est”…

  6. cyberannie on March 15th, 2008 12:07 pm

    Je ne sais pourquoi mais en revoyant la photo (citée dans mon commentaire précédent),elle me fait penser à un tableau de Millet: l’Angélus!!!
    Et pourtant il n’y a rien à voir entre les oeuvres…

  7. myra gore on March 15th, 2008 3:01 pm

    Olá Patrícia!!!Concordo a 100% contigo!!!Também faço algo de semelhante (bem, parece que já estamos todos a levantar um pouquinho o véu, porque não!??…), também lido diariamente com pessoas mentalmente infelizes e com tantas outras que as ajudam e, na maioria dos casos, ajudar os outros acaba por nos dar força para prosseguirmos as nossas vidas e irmos (cada vez mais) vendo a beleza de todas as coisas que nos rodeiam, grandes ou pequenas!!! Um abraço…

  8. Carla Neto on March 15th, 2008 3:50 pm

    Jordi, Jordi, tudo bem!?
    Não vir a Santigo fazer-nos uma cybervisita?!!Olha que nos temos divertido bastante!
    Temos estado a dormir num albergue “bué da fixe”, tipo “tudo ao molho e fé em Deus” e tem sido um forró!!Cama sobre cama, beliche sobre beliche sobre beliche…conhecemos uma sueca louraça (boazona ;))que lê livros de Isabel Allende e os usa para outros fins…e uma psico-enfermeira australiana que anda a percorrer o mundo há 2 anos, talvez a ver se se encontra, talvez para fugir de si mesma, como deves calcular, esta Miss Brooke tem-nos dado que falar, mal ela sabe…
    bem vou deixar-te que o Gui e o Luis chamam para irmos dar mais uma cybervolta!!Um cyberabraço!!

  9. myra gore on March 15th, 2008 4:36 pm

    PS: mas parece que tudo o que está relacionado com a saúde/doença mental continua envolto nas brumas do preconceito,do estigmna e das ideias feitas…às vezes por parte de quem menos se espera…

  10. Apiko on March 15th, 2008 5:19 pm

    Bueno, yo no queria intervenir más este fin de semana, pero este blog del calor es como una droga, no se puede pasar sin ella.

    esto es para decir lo siguiente: Creo que no me expliqué bien, con respecto a la Brooke. Lo que yo queria decir es que la admiro mucho, porque ese trabajo “quiebra” (y no es por el nombre, que brooke quiere decir tolerante) y si la señora será en algún momento in-brooke-tolerante, sus razones tendrá.

    Para analizar a una persona hay que conocerla y no dejarse llevar por las primeras impresiones.

    Lo que está haciendo LPC, conocerla mejor.

    Para mi las enfermedades mentales son iguales a las otras, en todas ellas encontramos preconceptos, estigmas y brumas. Todo depende de cada uno de nosotros, de como nos posicionamos como personas y como miembros de la comunidad humana.

    Es como dice el otro: De poeta y de loco, todos tenemos un poco.

    …….Si quieren saber adonde anda El Burch, vean la revista del expresso y todas las dudas serán resueltas…..

    Cyberannie, voy a levantar un poco el velo sobre mi persona: soy ítalo-argentino-português. Como puedes ver hay tres culturas que se entrelazan….

    Un abrazo y ahora sí, buen fin de semana!

    Apiko nauremi naki

  11. margarida sousa on March 15th, 2008 5:43 pm

    olá pessoal, parece que a sueca está a crer conversa com o portugues e o frances, espero que ela valha a pena , beijinhos e muito juizo

  12. cyberannie on March 15th, 2008 6:28 pm

    Apiko,je vais moi aussi lever un coin du voile: j’ai l’habitude de dire que mon pays c’est l’Europe car je suis française, espagnole, maltaise et italienne…..

  13. Patricia on March 15th, 2008 7:01 pm

    Olá Apiko concordo contigo, este blog é como uma droga. Também tens razão na questão do “to brook” tolerar, permitir. Eu fui ver… (o meu inglês está enferrujado.
    Eu não conheço a australiana e obviamente não posso fazer diagnósticos sem conhecer a pessoa, fico com uma impressão dela pelo que descreve o Luís e os meus comentários são do foro pessoal e não profissional. Do ponto de vista profissional, considero particularmente grave que esta pessoa tenha trabalhado com pacientes com comportamentos suicidas quando ela própria também tinha pensamentos suicidas.
    Eu acho que aqui quem é uma pessoa bastante tolerante é o Luís. Aturar a australiana e a sueca é dose.
    Besos para todos e todas.

    PS: Acho divertido que toda a gente tenha levantado um bocadinho do véu… Obrigada

  14. myra gore on March 15th, 2008 7:20 pm

    Abraços “fuertes” a todas e todos!!!Em especisl para a sueca e a autraliana, hi-hi…

  15. myra gore on March 15th, 2008 7:23 pm

    Abraços “fuertes” a todas e todos!!!Em especial para a sueca e a autraliana, hi-hi…

  16. Carla Neto on March 16th, 2008 2:12 pm

    Jordi, Jordi, Joooordi!!!
    E eu que, triste e ingenuamente(!),te imaginava no meio do Atlântico montado numa jangada a veres–te grego para chegar a Portugal…!..bem, tanto melhor assim :)
    Um Mega Cyberabraço!

    Ps: acho que vou mudar o meu mail para
    tansadocaneco@hotmail.com

  17. Carla Neto on March 16th, 2008 2:13 pm

    para tansadocaneco…etc

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