
De noite a chegada à cidade a Vallenar. CaÃmbras no polegar esquerdo, de empurrar a manete das luzes, para que o farol frontal do lado esquerdo funcione, tal como o pisca do mesmo lado, que não arranjámos maneira de o tornar independente. Foi uma viagem de mar, de montanhas, de deserto, azul, castanha, de rocha, sem fim, antevendo o longÃssimo deserto de Atacama que aà vem, só interrompida pelos pequenos sepulcros que os chilenos, tal como os argentinos, colocam aos seus mortos ou aos beatos da sua devoção, mini-altares, como que em casas de bonecas, com bandeiras, objectos que identifiquem o defunto, ramos de flores sempre frescos, coisa que não consigo entender como, através deste local inóspito, de rectas sem fim, de curvas e contracurvas quando atravessamos as montanhas, depois das praias desertas de gente, de pueblos abandonados, de cartazes de top-models em biquini, que causam alguma perturbação, provavelmente porque funcionam como placas reflectoras. Os últimos 150 quilómetros da viagem, ao contrário dos quinhentos e pouco que os antecederam, foram sofrÃveis, a rezar para que não nos cruzássemos com um jipe de carabineros ou com um dos muitos camionistas que fazem esta estrada em sentido contrário.
O navegador francês já prognosticava o pior: “LuÃs, prrreparrate para dormirrr no carro!”. Que não, monsieur Pazat, não estava minimamente preparado para dormir no carro, à beira da estrada, que passava por nós do lado esquerdo, cada vez mais treva, tendo do lado direito pequenos precipÃcios, se coisa existe. Para Vallenar. Não que o meu polegar fique dormente por uma semana. Por outro lado também não precisava dela para nada, a não ser que por alguma cirscunstância, perfeitamente plausÃvel , diga-se, tivesse de pedir boleia, o que sempre podia fazer com o polegar direito, que por enquanto outra utilidade não tinha se não fazer rodar o cilindro do isqueiro para acender mais um cigarro.
Vallenar chegou a nós como uma visão do apocalipe, com cães furiosos a acompanhar-nos dos arredores sombrios até à s luzes da cidade, que só não era cinzenta precisamente por estar a coberto do que a iluminava. Vallenar é uma cidade plana, imensamente plana. Não tem nada de compatÃvel com prédios, apenas casas terréas onde mora gente simples e genuÃna. É a capital da provÃncia de Huasco. Nos seus arredores está a razão porque esta cidade tem cerca de 44 mil habitantes: O ouro. De muitas partes do Chile, muitos são os que vêm para Vallenar tentar a sua sorte, como tentam os garimpeiros. A maior parte acaba por ser contratado para trabalhar nas minas, em busca do mesmo, só que para outrém. São em boa verdade imigrantes da sua própria pátria, a vasculhar o seu solo para as multinacionais que colhem os lucros do seu trabalho. Junto à Igreja, que tinha um altifalante a debitar cumbia, que fica junto ao largo, onde uns miúdos usavam traje de gangue e faziam números com skate para as “chicas” sentadas nos bancos, que usavam pinturas góticas e uniforme de colégio, junto à avenida principal, cheia de gente, que passava cansada de trabalho, suja de trabalho, a cheirar a detergente para limpar das mãos uma sujidade crónica, de trabalho, cruzando as bancadas do comércio local, onde haviam “pollos” pendurados, vestidos de noiva, cd´s piratas, mochilas a imitar coisa de marca, peluquerias com clientes a discutir opinião sobre como havia de ficar a sua franja, um bar cheio de mesas de snooker, cheia de jovens com ar de poucos amigos, com cigarros ao canto do lábio, a segurar uma garrafa de Cristal, cerveja chilena, enquanto colocavam introspectivamente giz na ponteira do taco, enquanto outros bebiam nas mesas, enquanto outros estavam cá fora, ao ar quente da cidade, a ver a cidade passar.
Nada soava a falso em Vallenar, nada soava a falso neste teatro de quotidiano. Isso agradava-me. Dá-me sempre umas espécie de tranquilidade, convida-me sempre a ficar, mesmo que não queira. A poucas quadras da igreja, ali estava em néon gasto a nossa solução: Hotel Café Real, que foi café muito antes de ser hotel, mas agora era hotel e só depois café. Aliás, também já não era café, era um misto de pizzaria que servia “hamburguesas completas”, muito diferentes dos cartazes que exibia com os seus preços em promoção, o pão carregado de alface e tomate, nada, se comparado com a enorme rodela de carne suculenta e apetitosa que tombava no vidro, na entrada do estabelecimento, ao lado da entrada principal do hotel. As empregadas do “restaurante” eram também as empregadas do hotel. A dona era a mulher que sorria. Quanto ao quarto, uma raridade: Cama com colchão e almofada, casa de banho e duche incluÃdo, o que nem sempre é possÃvel, TV, para ver as telenovelas chilenas ou o futebol chileno ou as receitas chilenas de ensaladas. E, melhor, internet sem fios. Melhor ainda: parque gratuito para estacionar o cansado Falcon. Não tinha mini-bar, mas não se pode ter tudo. E o que tinha era para nós um verdadeiro pedaço de paraÃso, de onde não conseguimos já sair assim que entrámos. Só conseguimos acordar por volta das 13h00, quando tivemos coragem para enfrentar o intenso calor, com intenções de conhecer a cidade e as suas redondezas. Assim que chegámos ao parque onde estava o carro, a primeira supresa do dia: Um pneu furado. Não é coisa que neste momento nos cause qualquer perturbação. Olhamos com normalidade para a coisa e profissionalmente actuamos em consonância. Eu vou à procura de uma pedra, de preferência rectangular, sólida e com altura suficiente para fazer o que o “macaco” hidráulico não consegue fazer na totalidade. Pazat, entretanto, retira o dito cujo da mala do carro, põe ao sol a barriga para não suar a camisola, e retira o pneu em bom estado do assento traseiro do lado direito, onde tem lugar cativo. Depois, foi só alterar os planos e procurar uma “gomeria”, que no Chile se chama “vulcanizacion” para tentar arranjar o pneu furado.
Dentro de meia-hora estavamos na presença do “vulcanizador” mais categorizado de todo o Vallenar, rapaz novo, que o aspecto enganava por muito mais velho, preto de tão sujo, sem dentes, um ex-agricultor de uma localidade vizinha, que ficara órfão de mãe e pai, tendo por companhia um rádio, dois cães e uma série de pneus “jubilados”. O seu processo de “vulcanização” era coisa de outra época, ainda com um torno mecânico, para retirar o pneu da jante, completando a coisa à martelada, para depois enfiar a câmera de ar dentro de água, para ver onde fazia bolha, para o secar, para lhe colocar um remendo com cola. Verificámos que não tinha sido o primeiro a usar esta técnica. O pneu tinha exactamente oito remendos. Coisa de duas horas depois, tinha nove. O “experto pneumático” desde logo nos avisou: “Mejor que non se use este, chicos!” Nem mais, amigo. O cansaço acumulado é grande, muito grande. Toca beber umas Cristal e aguardar que o dia passe. Tudo o que havia para fazer hoje, podÃamos fazer amanhã. As Cristal acumularam-se numa mesa velha, onde uns chilenos se quiseram sentar para saber quem éramos. Jantámos todos. E prometemos jantar no dia seguinte. Fomos para casa, ver telenovelas e beber mais umas quantas. Quietos, como zombies, à espera de cair no sono. Tenho a impressão que fui o primeiro.
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Gosto muito da descrição do dia de hoje que, felizmente, consigo ver…bonito o jogo de cores das fotos, sobretudo onde predomina o azul.
Ainda não desisti e logo á noite vou tentar ver o dia de ontem…
Ps: o macaquinho tem um ar porreiro!!
Encore une journée de route pénible, mais quel réconfort: dormir dans un Hôtel!!! je trouve monsieur Pazat trés pessimiste…est-ce la fatigue qui commence à se faire sentir!!!
L’atelier de “vulcanization” n’est pas des plus modernes mais la Falcon peut à nouveau rouler, c’est le principal… car elle n’est pas encore au bout de ses peines!!!
Vallenar semble une ville sympathique parce que authentique.
Sur la photo où est écrit”No a Pascua” s’agit-il d’une opposition au projet d’ouverture de la mine d’or de Pascua Lama?
Porqué en el cartel de “no fumar” aparece un zapato?
Será para apagar el “pucho”?
Muchachos, se nota que están cansados, sólo bebem no hacen más nada!
cyberannie tenés razón es por la Pascua Lama. si te interesa el tema podés poner ese nombre en la busca del google que te aparece un montón de cosas.
Nauremi naki
Merci Apiko;j’avais entendu parlé d’un projet d’une compagnie canadienne qui devait détruire des glaciers pour ouvrir une mine à ciel ouvert, mais je ne savais pas exactement où ça se situait et je ne sais pas ce qu’il est advenu de ce projet….Je vais donc aller voir Google!!!
Já consegui ver o dia de ontem!!
As fotos são magnÃficas! A música não me enche as medidas, mas o arranjo global está muito bem!!
See U!
Bom trabalho… muito bom trabalho!
Grande experiência para quem está, para quem vê e para quem lê!
Reportagens e experiências interactivas… com qualidade como a vossa… enriquece o que há de melhor em todos.
Boa continuação nas reportagens da Visão, na troca de experiências no blog e vivências no terreno.
Parabéns aos três (para mim uma das mais valias deste tipo de projecto é permitir que, apesar de por vezes surgirem imprevistos, estejam os três juntos até ao fim da jornada a que se propuseram)
Bem Hajam
AR
Caro AR,
Para nossa pena, só estamos dois.
De qualquer forma, obrigado pelas suas palavras.
LuÃs e Gui
Jordi, Jordiiiiii!!
Tenho maning saudades da tua LOMO!!!
Um Astro-Mega-Cyberabraço!!!!
Olá muchachos
Uma viagem cansativa, mas pelo menos tiveram o descanso que mereciam.
Soube bem dormir, não soube? Numa caminha!!!
Descansem e recarreguem as baterias, com umas cervejinhas (afinal não era a terra do pisco?)e umas boas noites de sono.
Besos e buen viaje.