Perguntam vocês: O que fomos nós fazer à remota cidade de Vallenar? Terá sido por causa da magnífica paisagem de rocha e de calhaus que a rodeia? Sim e não: Pascua e Lama. Pascua, no território chileno. Lama, no território argentino. Pascua Lama é um David contra Golias, que já dura há mais de uma década, desde o momento em que uma multinacional canadiana, a Barrick Gold, que já teve por sócio George Bush sénior, que também já teve por accionista a família Bin Laden, da Arábia Saudita, apresentou um projecto para abrir uma exploração mineira na região. Não se trata apenas de mais uma exploração mineira, pois isso no Chile é já uma coisa corriqueira. Esta exploração da Barrick Gold Corporation visa tão só retirar de solo chileno e argentino a maior reserva de ouro do planeta. Para isso, a companhia canadiana não faz a coisa por menos e, para a concretização do projecto - que será o primeiro deste género em conjunto com o Chile e a Argentina -, pretende deslocar, isso mesmo, deslocar, três glaciares, retirando-os, ainda não percebi bem como, do seu ponto de equílibrio natural. A exploração da Barrick Gold tem levantado ao longo destes anos uma acérrimo braço-de-ferro entre as autoridades chilenas e associações ecologistas de todo o mundo, que inclusivé já fizeram em Santiago do Chile um “julgamento” público para condenar o projecto. É claro que os acordos entre o governo chileno e a multinacional canadiana têm sido quase sempre discretas, aliás, como também tem acontecido entre os governos argentinos, de Kirchner, marido, e Kirchner, mulher.
Nenhuma acção ecologista - e foram às centenas -, nenhuma campanha de informação às populações mais afectadas - e foram algumas - teve qualquer efeito na lnoga e imparável marcha dos dólares neste negócio, para o qual a Barrick Gold, quando finalmente apresentou as suas contas públicas, diz que pretende gastar perto de cinco biliões de dólares. Imaginando o investimento, imagina-se o lucro.
Na região de Huasco, a cidade mais afectada por este projecto, será mesmo Vallaner, assim como o pueblo do Alto del Carmen, situado na encruzilhada de montanhas e vales que ficam na vizinhança da cidade de Vallenar, onde ficam também as explorações, sustento único de algumas dezenas de agricultores da região. É também nesta região que estão alguns dos melhores produtores de pisco, que é produzido através dos mesmo processos que se produz o cognac. Mas isso será para mais tarde. Tal como para um pouco mais tarde, na revista Visão, será publicada uma reportagem sobre o Pascua Lama e sobre como um só homem lutou contra a multinacional. E perdeu. Mas ainda não desistiu, embora os governos do Chile e da Argentina, há coisa de dois meses já tenham dado luz verde oficial ao projecto Pascua Lama.
Francisco Buo, filho do maior produtor de pisco da região, produtor do melhor pisco do Chile, transformou-se lentamente no líder da revolta da população contra a exploração mineira canadiana. Foi ele que fundou a Associação de Agricultores de Vallenar, para que formalmente se pudesse interpelar o governo chileno ou quem interessasse, foi ele quem alertou as universidades, associações ecologistas, para que o mundo soubesse que Pascua Lama estava em risco e que todo o vale, onde “Pancho” Buo cresceu, também. O vale nada seria se ali não tivesse sido construída uma das maiores barragens do Chile, que armazena só a maior reserva de rega do país. É por esse motivo que crescem flores onde antes só existia rocha. É por isso que é possível o cultivo de uva nos seus vales, para a produção do pisco, é por isso que entre os rochedos áridos há uma extensa vegetação, como se as montanhas tivessem sido pintadas de verde. Era com Pancho Buo que íamos jantar. Os nossos companheiros da noite passada, tinham de ter paciência.
Por volta das 11 da manhã, o desayuno estava quase a ser retirado da mesa. Mas, para a mesa voltou, a segundos da hora limite, coisa que no hotel-café-café-hotel Real também não é coisa que importe muito. A dona do hotel, uma relações públicas sem grande jeito para a coisa, não deixaria dois periodistas famintos sem desayuno por uma questão de segundos, pois não, excelentíssima senõra doña do hotel? “Que no, chicos!” Muchas gracias e café com leche, por favor.
E, só depois de algo remotamente aproximado a um café, nos deslocámos às traseiras do hotel, em direcção ao carro, o que era sempre um momento de grande emoção: Nunca se sabia o que estaria avariado desta vez, já o Falcon tem o estranho condão de se avariar sempre que está parado, raramente se avariando quando está em movimento, o que define bem a sua têmpera. Os pneus estavam “au point”, a desarrumação interior estava impecavelmente arrumada, o motor pegou à terceira, fazendo uma nuvem de pó que se esgueirou pela porta da saída do hotel, que tinha ficado entreaberta. Fomos em direcção ao Alto del Carmen, nas proximidades da barragem, próximo demais do sítio onde ficará localizada a exploração Barrick Gold, embora seja inacessível qualquer caminho para qualquer um dos glaciares que a companhia canadiana pretende deslocar, não me perguntem como. Nem perguntem à Barrick Gold, porque também não terão resposta de volta. E, se perguntarem a Pancho Buo, ele também não sabe. Se perguntarem às associações ecologistas, também não. O que se sabe é que geralmente as explorações mineiras, mesmo as que têm dimensões incomparavelmente menores do que esta terá, usam explosivos e usam cianeto e usam mercúrio. E o conjunto, geralmente, é elemento contaminador das águas, como as águas da barragem que alimentam todo o vale, que por sua vez alimenta Vallenar, a coisa de quarenta quilómetros do Alto del Carmen, embora para se lá chegar seja preciso cerca de duas horas.
Quando chegámos à Quinta del Rosário, onde tínhamos combinado encontrar Francisco Buo, Francisco Buo não estava. Mas estava Francisco Buo, pai, confortavelmente acomodado no seu alpendre, rodeado dos seus cães, todos com ar de soneca, porque a hora de almoço já estava para trás. Este Francisco Buo, tem pelo menos o dobro da idade do filho e pelo menos o quádruplo da sua experiência. Já correu mundo. O suficiente para saber que é exactamente naquele alpendre, com a vista magnífica para aquela parte verdejante do vale, que lhe pertence que ele quert estar, deixando à natureza o seu curso, e o seu curso ao seu pisco. E, por estranho, não vê inconveniente para a região no projecto Pascua Lama, opinião radicalmente oposta à do seu filho, Pancho Buo.
Não é que concorde com o projecto. Sabe apenas que não lhe serve de nada discordar. A luta do seu filho, vê-a desta maneira: Pelo menos serviu para informar as pessoas da realidade do Pascua Lama, tornando-as, por isso, mais exigentes, e obrigando a companhia canadiana a dar mais explicações e mais garantias do que certamente pretendia. Ao longo de todo o processo, essas informações foram chegando a conta-gotas. E nada garante que esteja na mesa a informação completa. Claro que não está. Em Vallenar, as pessoas podem não saber muito do projecto Barrick Gold para Pascua Lama, mas sabem isto: Para quem pouco tem, o pouco que se oferece parece muito. Entre nada e um emprego, optam pelo emprego. Faz-me lembrar uma certa cidade à beira Sado. E uma certa serra onde vive alegremente uma cimenteira. As Barrick Gold do planeta têm a faca e o queijinho. Atiram as lascas e ficam sempre com a melhor parte. E, como diria a empregada de Francisco Buo sénior: É por isso que no Chile os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. No Chile? Já sabia que o Chile era grande, mas nunca imaginei que tivesse o tamanho do Mundo.
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Hasta la victoria.
Guillaume
Muy buen trabajo, amigos mios, espero ansiosamente el reportaje en Visão que yá la voy a reservar en mi kiosko preferido.
Infelizmente es así, hoy en dia las multinacionales se entienden entre ellas, y digo multinacionales porque en el mundo globalizado actual los própios gobiernos tienen intereses en ellas (cuando no forman parte de sus administraciones o sociedades)
Tenemos como armas la información, que tiene que ser utilizada cada vez más de forma organizada, para que se pueda crear un verdadero contra-poder.
Seremos capazes de realizarlo?…. es que se nos vá el planeta…….
Luis y Pazat, muchas gracias por vuestro trabajo,
servirá sin dudas.
Apiko, nauremi naki
Merci Luis pour toutes ces précisions: l’opinion publique avait été alertée il y a quelques années par ce projet complètement fou de délocalisation de glaciers…..mais comme nous sommes dans la civilisation du “zapping”.. je n’en ai plus entendu parlé!!! d’autres problèmes sur la planète ont volé la vedette à ce projet….que je pensais abandonné!!!!
Gardez moi un numéro de la revue Visao (que je ne trouve pas dans ma petite ville!!)
Travail toujours aussi excellent
Bonne continuation
INADMISSÍVEL, OBSCENO !!!
HASTA!!!!
Quelle est la position de Michèle Bachelet sur ce projet ?
Jordi, Jordi…
Que desilusão…
que é feito de “aquele abraço”?
que é feito de “…because i`m still in love with you…”?
AÍ NÃO HÁ NET??
JÁ PROCURASTE BEM? TALVEZ HAJA NALGUMA FAVELA PERDIDA….
UM MEGA CYBERABRAÇO
É desta qe compra a VISAO - abraço - CM
Qual pisco qual quê, neste momento é altura de valores mais altos se levantarem.
Lutemos ao lado do Exmº Sr. Francisco Buo junior (já que o senior se resignou), contra esta inenarravel aberração.
NO A PASCUA LAMA, NO!!
gostaria só de deixar a reflexão económica de que no estado actual de crise financeira mundial, o preço do ouro tem subido vertiginosamente nos ultimos tempos, estando actualmente o preço da onça (medida em que são feitas as transações comerciais desta matéria prima) nos valores mais altos de sempre.
Isto pode ser um ponto a favor da multinacional canadiana, logo o nosso esforço terá que ser redobrado.
Venha de lá essa reportagem.
Bem hajam.
Olá caros paladinos!
Tenho acompanhado o vosso trabalho, desde o primeiro dia, tanto no blog como na Visão, e por isso sei que (infelizmente) no terreno só estão os dois. Contudo, acredito que tanto para vocês como para o Jordi (que julgo que foi quem mais teve pena de ter de abandonar a vossa aventura)continuam a estar os três juntos até ao fim - as tais mais valias das estradas cibernauticas….
Bom trabalho, Boa Páscoa e aproveitem muuuuiiito. Eu aqui vou-vos lendo sempre com entusiasmo.
PS- Sou menina
AR
Perdón, señorita AR.
E muchas gracias
Los grandes negocios se realizan cuando la informaciòn solo la tiene una parte.
Cuando el negocio es muy bueno una de las partes pierde.
El que nunca falla es el 006 , con ese si que hicieròn buen negocio .
Oscar
só espero que o mundo nao deixe fazer tamanha barbaridade, e que voces nunca se cansem de alertar o mundo , beijinhos, sobretudo para o lpc.