Dia 70
Diário de viagem

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Ora bem: Dia complexo, senhores ouvintes. Francisco Bou, o líder da resistência de agricultores ao projecto Pascua Lama, fez-nos um convite irresistível. Embora o próprio não pudesse estar presente, por coisas inadiáveis, tinha todo o prazer em que visitássemos as suas vinhas e as suas adegas de pisco, onde são produzidas autênticas preciosidades. Caro Pancho Bou, o prazer será nosso, até porque tínhamos mesmo de voltar ao Alto del Carmen, a meio do caminho do mais remoto dos pueblos, o que mais próximo ficará do âmago de Pascua Lama.
Passámos pela Laguna Grande, reserva natural privada Los Huascoaltinos, que na totalidade tem cerca de 150 mil hectares, criada pela Comunidade Agrícola de Hauscoaltinos, formada pelos descendentes da tribo aborígena mais antiga de Huasco, os Diaguitas. Devido a umas quantas Falcanices, não chegámos a horas. Mas, nas vinhas Bou, o passar das horas não se mede pelo relógio. Pancho tinha-nos destinado uma cicerone, cujo retrato está pintado num dos tectos da adega principal, assim como estão retratadas os seus trabalhadores mais velhos, como uma família, como a história daquela propriedade que pinta de verde o vale de Huasco, cercado de montanhas e rocha.

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A nossa cicerone, que sabe-se lá porque não quis que o seu nome fosse mencionado, era simplemente simpática, tinha um sorriso terno, e uma força que ela não necessitava demonstrar, mas que se notava. A força de anos de trabalho, a força da terra, de semear e de colher. E, ultrapassada uma certa desconfiança inicial, ganhou o fôlego necessário para uma afirmação peremptória que, vindo de quem vinha, se revestia de toda a importância, histórica, cultural, social, que podia até transportar implicações diplomáticas. “Bueno, lo pisco es peruano!” Assim, sem mais nem menos, exposta a verdade nua e crua, como a verdade se quer. Bom, a verdade é que nenhum chileno dos muitos com quem nos cruzámos tinha alguma vez admitido tal coisa, reclamando para o Chile o que, pelo vistos é do Peru. Sendo assim, porquê esta polémica toda geracional à volta do pisco? Calminha. A nossa cicerone recuou um pouco, para afirmar, embora com hesitação que “oficialmente” o pisco é chileno. Em que ficamos, nossa cicerone?

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Segundo a própria, terão sido os peruanos a inventar o pisco, já que o método da sua produção, por muito artesal que seja, não é diferente do que se usa para produzir o cognac na região francesa do mesmo nome. Na versão da nossa especialista, podem ter sido os peruanos a inventar este néctar, mas foram os chilenos que o registaram “oficialmente” como “trago nacional”. Sem dúvida que se trata de uma questão delicada, que se prolongou pela nossa visita. Na matéria, optámos por um silêncio estratégico, até porque estávamos a caminhar perigosamente para o sector das provas, onde se encontrava o que resultado final de tudo por onde tínhamos passado, desde as vinhas, à destilaria, ao local de repouso das enormes pipas. Normalmente, o pisco tem no máximo nove anos, sendo que o seu grau varia entre 30, no caso do licor de pisco, a 40, 45 graus. E, só para apreciadores, um pisco de nove anos com 50 graus. Mas, o Pajarete, a marca de pisco dos Bou, que tem um mercado exclusivíssimo, vende um pisco muito especial, com 21 anos, cujas garrafas custam cerca de duzentos euros, traduzindo em câmbio.
“Vamos probar?” Porque quem sois, cara cicerone? De grau em grau, fomos testando o que de melhor se produz no Chile, já nos tinham garantido fontes externas e idóneas, num tasco de Vallenar. Restava o nove anos, cinquenta graus. Mas, antes, uma lição sobre como se deve beber este pisco, pelas palavras de quem sabe do que está a falar. Para degustar o pisco, deve manter-se sempre a boca fechada, expirando amplamente enquanto se engole, para que não queime durante a travessia. Para nosso espanto, o travo era de uma suavidade incrível, sendo que a viagem não queimou. Mas, segundos depois, inevitável o calor, quase tanto como o que fazia no sítio. Demorámos longas horas à conversa com a nossa cicerone. Mas havia que fazermos à estrada, que era sinuosa, em direcção a San Félix, perdida no meio de nada, com uma esquadra de Carabineros, um número incontável de cartazes e murais contra Pascua Lama, e folhetos colados em postes eléctricos a marcar manifestações já passadas.

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Não era possível falar com ninguém, porque não se via na rua vivalma, só um kiosco que vendia a retalho todo o género de chorizos, com uma velha senhora que não se queria meter em política, e uma produtora artesanal de chocolate, que só queria falar de chocolate. O seu representante máximo era mesmo, mesmo à distância, Pancho Buo. Deu, pelo menos, para perceber que em San Félix, mesmo estando os seus habitantes em estado de “invisibilidade”, é quase unânime a oposição ao projecto da Barrick Gold, embora vigore também um certo medo, próprio de quem está a medir forças com um gigante que se alimenta de dólares e, como eles bem sabem, de ouro. Em Vallenar, capital da província de Huasco, as opiniões vêm mais à tona. E, pelos motivos expostos anteriormente, encontra-se até quem defenda Pascua Lama, não propriamente com unhas e dentes, mas por simples necessidade de quem vê na chegada da companhia canadiana postos de trabalho e futuro. Não é necessário confundir necessidade com ignorância. São frutos diferentes.

De regresso, pois, à urbe de Vallenar, que se estava a fazer noite e as luzes do Falcon continuam com vida própria. Ou seja, só trabalham quando querem. E raramente querem. Um duche rápido no hotel e toca a sair, em direcção a um restaurante “típico”, com preços baratos. No caminho, cruzámo-nos com um trio chileno de “mochileros”, dois rapazes com 18 e 21 anos e uma rapariga, com 19, grávida de cinco meses, namorada do rapaz de 18.

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Tinham saído de casa dos seus pais, próximo de Arica, extremos dos extremos norte do Chile, à procura de melhor sorte a sul, um pouco mais a sul de Vallenar, em Cachiyuyo, onde o mais novo tinha uma tia, que por acaso não sabia que ele ia a caminho, com um filho a caminho, com uma mulher a caminho e um amigo de ambos para compôr o ramalhete. Estavam esfomeados.

Andavam há dias à boleia, ao sabor da sorte. E não tinham tido muita. Estavam a fazer o que fazem muitos chilenos como eles, imigrantes “internos”, como eles próprios se auto-entitularam. É claro que fomos todos jantar. E só em África vi desaparecer tão rápido a comida do prato. Foi de um fôlego.

O trio mochileiro, com uma pançada descomunal, mal se conseguia mexer. Despedimo-nos, advertindo a rapariga para não voltar a beber cerveja, pelo menos enquanto estivesse grávida. E, já agora, também não seria má ideia apagar o cilindro que ela tinha acabado de acender. Somos fumadores inveterados, reconheço, mas uma grávida a fumar é uma visão intolerável.
A rapariga prometeu que não fumava. Mas quando olhámos para trás, para lhes desejar “suerte”, da boca da miúda já saia fumo baço. Lá iam eles, em direcção a lado nenhum, de rua em rua, até chegar à estrada para o sonho. Querem um dia viver em Santiago. O amigo mais velho sabe que não vai tardar muito para o trio se separar. Os outros, se tudo correr bem, vão continuar a ser três.

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Comentários

7 respostas to “Dia 70”

  1. Carla Neto on March 22nd, 2008 10:04 pm

    Ou sou eu que já estou a ver a dobrar, mas a foto das garrafas parece-me recorrente…e vivó pisco, carago!!! ;)

  2. Carla Neto on March 22nd, 2008 10:07 pm

    Ps: e eu que tinha a esperança de não passarmos ao dia 70…de ficarmos eternamente no 69…qual paraíso…bem, mas em frente é que é o caminho…

  3. cyberannie on March 22nd, 2008 10:39 pm

    Je me demandais depuis le début ce qu’était ce fameux pisco ….et je viens de réaliser que c’est une eau de vie issue de la vigne et comme tu le dis ,Luis, qui ressemble au cognac “mais contrairement aux eaux de vie françaises (Cognac, Armagnac), le vin subit un léger vieillissement avant distillation et les cépages sont différents..”(d’aprés Wikipédia)
    La fille sur la photo me parait bien grosse pour 5 mois…à moins que ce ne soit des jumeaux ou des triplés..ce que je ne lui souhaite pas la pauvre!!!Mais elle a l’air heureuse c’est l’essentiel
    Pour la population de la région c’est un vrai dilemme ce projet de PascuaLama et tu nous l’explique trés bien Luis.
    Bonne continuation

  4. tomas de brito on March 23rd, 2008 4:31 am

    Cuidado .El pisco y la estrada no son compatibles
    Falta mucho camino por recorrer.

    OSCAR

  5. Apiko on March 24th, 2008 10:55 am

    Buen dia muchachos!

    Me acuerdo que cuando me presentaron El Pisco, tenia yo 10 o 11 años (debia ser el licoroso?!?) la botella tenia la cara de un indio así como que esculpida.

    Al Pisco lo reví yá com 18 años (yá no era el licoroso) en una ida al Chile andino y de lo que me acuerdo era justamente que te daba un calor tremendo cuando lo acababas de beber!!!

    AAAAAHHHHH grande pisco!!!

    Atención, Oscar tiene razón, cuidado con las curvas!

    Apiko

  6. sofiacabral on March 24th, 2008 11:46 am

    olá pessoal muito cuidado com o pisco, pois a conduçao não é facil, e digo lá a policia dai não é chatinha.

  7. margarida sousa on March 24th, 2008 11:48 am

    então rapazes que tal estão depois da prova do pisco, e afinal é chileno ou peruano ?
    espero a continuaçao de muito boa viagem e cidado com o pisco por causa da conduçao , beijinhos.

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